segunda-feira, 4 de maio de 2009

Nivaldete Ferreira


Os domingos doem
Nivaldete Ferreira

Árvores desdobradas,
Sóis quebrados entre seus galhos,
Reentrâncias de sombras
Mal nomeadas,
Um silêncio monarca,
Rouco de gritos desistidos,
Lento ir-e-vir,
O não ficar
Do amor insinuado.
De solidão as casas empalidecem,
Maquiam-se de ocre,
Como de rubro os bêbados.
Os domingos doem.
Mesmo suas taças são castiçais
Para o velório do ócio.

Os domingos doem.

Eugénio de Andrade (Poeta Português)


Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

(Eugénio de Andrade)

domingo, 3 de maio de 2009

Bruna Beber


ap.

na minha casa você pode flagrar alguém
se escondendo da rotina num quarto escuro
e batendo a cinza do cigarro na janela
enquanto espia as roupas dançando em silêncio
no varal da área
às três da madrugada
você pode flagrar alguém preocupado
segurando uma caneca com vinho vagabundo
dormindo fora de hora
pensando demais na vida
e no tédio que é
essa falta de paixão.

HELENA PARENTE CUNHA


O SILÊNCIO DO CAMINHO

Não
eu não sei o caminho do chá.

Traspassei a fronteira
mas não cheguei.

Que sabem meus pés
das pedras do jardim?

O que deixei ao deixar
minha bolsa e meus sapatos
antes de entrar?

Quais nomes supérfluos
pude apagar da boca?

O que abaixei ao baixar
a cabeça
ante o baixo da porta?

Meus joelhos no tatami
se convertiam
ao liso brilho da palha.

Mas o silêncio
ah o silêncio
abafava-me os olhos.

O silêncio do caminho.

sábado, 2 de maio de 2009

a nossa é...


a nossa
é paixão
mal resolvida

olhos
que se estudam
mãos
que se encontram
e lábios
que dizem não

Ademir Antonio Bacca

ALICE RUIZ


Short Trip
minha cidade
cai pela janela
como um cisco

meu olho
caleidoscópio
é o coração que acolhe
fragmento por fragmento
até que toda cidade
e sua história
caiba dentro

nessa rua, por exemplo,
já passei há muito tempo
mas não tinha esse olhar
indo embora

para o futuro,
a memória desse momento
que passou agora
será a lembrança de outro
e ainda outro mais antigo

caio como um cisco
na cidade
somos, as duas,
uma rápida paisagem.
De passagem.

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Alice Ruiz

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Nunca existiu um ator como ele.


Nunca existiu um ator como ele. E tenho minhas dúvidas se vai aparecer alguém. Todos os grandes atores prestam reverência hoje ao cara que fez mais pela arte da interpretação que qualquer outro. Pega aí o Sean Penn, o Benício Del Toro, o Johnny Depp, Edward Norton. Todos rezam antes de dormir pro cara. Ou mesmo Robert De Niro, Robert Duvall, Jack Nicholson, Paul Newman, Antony Hopkins. Eles também sabem pra quem devem pedir a benção. Assim como faziam Steve McQueen e James Dean. Marlon Brando, o maior de todos, completa hoje 80 anos e continua um enigma indecifrável. Dono de um talento monstruoso, é dos poucos em sua arte que podem ser chamados de gênio. Esnobando o trabalho que o consagrou ele disse coisas do tipo: “Ator é o sujeito que quando você não está falando dele, ele não está prestando atenção”. O escritor Truman Capote certa vez tentou defini-lo e o máximo que conseguiu foi isso: “É um homem desordenado, caótico, sentimental, volúvel, filósofo, confuso, egocêntrico, solitário, misterioso, indiferente, colérico, amável e infantil”. Descobri Marlon Brando ainda pequeno quando assisti o faroeste Sangue em Sonora. Adoraria rever esse filme. Parece que não foi lançado em vídeo. Fiquei impressionado com o seu estilo de interpretação com aquelas pausas estranhas, o murmurar quase incompreensível e toda aquela dinamite interna prestes a explodir. Era genial. Depois procurei assistir tudo. Tenho várias fitas com filmes dele em minha coleção de VHS. Os que mais gosto são Sindicato de Ladrões, Um bonde chamado desejo, Apocalypse Now, Viva Zapata, A Face Oculta e O Último Tango em Paris. Há uma série de outras grandes interpretações. Eu poderia ficar mais um puta tempo aqui falando sobre o cara e o trabalho dele, mas eu tô meio sem tempo e além de tudo acho que ia cair no mesmo erro do Capote. Ia tentar definir alguém que não tem definição. É gênio e ponto final. Bem que ele podia ficar mais um tempo por aqui. (Mário Bortolotto)