Mostrando postagens com marcador poetas beats. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poetas beats. Mostrar todas as postagens

domingo, 18 de dezembro de 2011

NÃO É SÓ MAIS UMA NOITE NO INFERNO


NÃO É SÓ MAIS UMA NOITE NO INFERNO

Você prometeu que estaria aqui quando eu voltasse
me esperando com uma garrafa de Jack e sorvete de caramelo
Você estaria ouvindo Headcat e ia ser uma noite longa num motel de beira de estrada
A gente ia rir como nos bons tempos
com minhas piadas sem graça e meu senso de humor sem nenhum senso de oportunidade
e ficar morgando na banheira de hidro ouvindo uma trilha sonora do inferno
Você me prometeu uma vida
sem abutres voando sobre minha cama na beira do abismo
Você prometeu que haveria um Deus que cuidaria de mim
e eu fui estúpido e inocente o suficiente
pra acreditar em você
Agora quando eu olho pra essa parede vazia
apenas com o retrato da Sasha Grey na parede
é que eu entendo que o tempo todo você tava mentindo pra mim
Eu só precisava perder o medo de te perder
pra não ter mais medo de nada

Mário Bortolotto

quarta-feira, 17 de março de 2010

RELENDO GARY SNYDER


FORA DA TRILHA


Somos livres pra encontrar nosso próprio caminho
Sobre pedras – por entre as árvores –
Onde não há nenhuma trilha. O cume e a floresta
Se apresentam aos nossos olhos e pés
Que decidem por si mesmos
Em sua sabedoria ancestral de ir
Aonde a vida selvagem nos levará. Nós já
Estivemos aqui antes. É de algum modo mais profundo
Do que seguir por sendas que dispõem algumas rotas
Às quais você se apega,
Todos os cursos são possíveis, muitos darão resultado,
Serem bloqueados é seu tipo de prazer próprio,
Atravessar é uma alegria, as rotas secundárias
E os desvios revelam troncos caídos e flores,
Rastros de cervo direto pra cima, rastros de esquilo
Transversais, os afloramentos nos arrastam além.
Descansar em troncos de árvores,
Mudar o passo no leito de rocha, inclinados e olhando tudo
Ambos fazendo escolhas – segurando os rumos agora –
E depois reunindo; eu estou certo, você está certa,
Terminamos juntos. Mattake, “Cogumelos Matsutake”
Elevações na base dum toco. Isto é vida selvagem!
Nós rimos, selvagem com certeza,
Porque nenhum lugar é mais belo do que outro,
Todos os lugares são totais,
E nossos tornozelos, joelhos, ombros &
Quadris sabem bem onde eles estão.
Relembro agora como o Tao Te
Ching expõe isto: a trilha não é o caminho.
Nenhuma senda levará você até lá, estamos fora da trilha,
Você e eu, e nós escolhemos isto! Nossas viagens ao ar livre
Através dos anos têm sido prática
Desta perambulação juntos,
Nas montanhas recônditas
Lado a lado,
Sobre pedras, por entre as árvores.

Tradução: Luci Collin

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Canção


O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação

o peso
o peso que carregamos
é o amor.

Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano —

sai para fora do coração
ardendo de pureza —
pois o fardo da vida
é o amor,

mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.

Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor —
esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
— não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:

o peso é demasiado

— deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.

Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro da carne,
a pele treme na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho —

sim, sim,
é isso o que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar ao corpo
em que nasci.

Allen Ginsberg