terça-feira, 11 de agosto de 2009

Mario Bortolotto


Os amigos são pessoas que sentam na mesma mesa que a minha. Ou então que sentam na calçada e dividem copos de cerveja e angústias. Os outros são pessoas com quem não faço a menor questão de me relacionar. Que Deus me livre dos malas e dos sujeitos mal intencionados. Acreditem, há muitos deles por aí. Só quero fazer bem o meu trabalho, acertar as oito bolas no menor tempo possível e beber meu whisky devagar e sem nenhuma ansiedade. Não quero muito da vida. Só a manhã que há de vir. E eu ainda espero estar por aqui pra recebe-la com uma encabulada declaração de amor.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Fabrício Carpinejar


MELHOR ASSIM


Não culpo Deus pela caligrafia.
Não se pode escrever bem
e ainda ter letra bonita.

Não reclamo a estranheza do rosto,
o nariz torto, os olhos caídos.
O que falta em mim, imagino.

Ser feio até que me tranqüiliza.
Enquanto os outros se descobrem,
eu me invento. Não me basto sozinho.

A beleza de minha mulher me perdoa.

domingo, 2 de agosto de 2009

A cidade e os livros


O Rio parecia inesgotável àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo, saltar no fim da linha,
andar sem medo no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava que eu não lhe pertencia - e de repente,
anônimo entre anônimos, notar eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim -, entrar em becos, travessas, avenidas, galerias, cinemas, livrarias:
Leonardo da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Irís Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrãp Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam:
que em princípio haviam sido escritos para mim os livros todos.
Hoje é diferente, pois todas as cidades encolheram, são previsíveis,
dão claustrofobia e até dariam tédio, se não fossem os livros infinitos que contêm.(Antonio Cícero)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Anais Nin


"Eu contava a mim própria a história de uma vida e isso transforma em aventura as coisas que nos destroem. A aventura é a viagem mítica que todos temos que fazer, a viagem ao nosso interior, a viagem que na literatura clássica nos leva através de um labirinto. É então que começamos a olhar para aquilo que nos acontece como desafios à nossa coragem – com isto não quero dizer que todos tenhamos que ser heróis – apenas, que todos temos que fazer a viagem e acreditar que seremos capazes de encontrar a saída do labirinto."
Anaïs Nin

terça-feira, 28 de julho de 2009

Eça de Queirós


"Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente. Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passa conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações."Eça de Queirós - O Primo Basílio

quinta-feira, 16 de julho de 2009

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Roberto Carlos para além de RC


Mais um texto belíssimo texto sobre o rei a mim dedicado.Obrigado a Deta pelo carinho justamente no dia do meu aniversário.
Roberto Carlos para além de RC

Para Tetê Bezerra

sempre tive resistência a tudo que 'pega' demais, a tudo que vira (quase) unanimidade, talvez por achar que esse fenômeno tem muito de contágio mental, rebanhismo. por isso mesmo nunca li Freud de baco a barro ou, se é preferível, de cabo a rabo (cabo a rabo não sei de quê...), quando ele era O Autor...
foi assim com Roberto Carlos. nunca comprei um disco dele, embora goste bastante de algumas canções suas, não sei se pela singeleza, pela forma como traduz nossos troços sentimentais.

noite dessas ouvi "Alô", tocando ao longe, num rádio, na vizinhança lateral da casa. fui à janela para ouvir melhor. era a primeira vez que escutava de verdade a canção, que já deve ter umas duas décadas. e ouvi como quem deixou o café na mesa mas, de súbito, olha e diz "ah, tinha esquecido", e verifica que está bem morno, ao ponto, e bebe com gosto.

sábado passado ele estava lá, naquele palco-céu, feito o santo da música popular deste Brasil tresvariado musicalmente e em outros aspectos.
parecia um totem diante do qual cessaram, por duas horas, todas as agonias de um povo que diariamente sangra.

escutei tudo em estado de inocência, sem julgamentos, comparações, sem me importar com a logomarca do canal, sem adjetivos.

pela primeira vez escutei Roberto Carlos para além de Roberto Carlos.

parecia um velho da aldeia, meio místico e sem cachimbo, contando histórias de amor cantando.

demorei a adormecer, mas dormi bem.
Postado por Nivaldete Ferreira (http://lapisvirtual.blogspot.com/)