EX (3)
A minha ex-namorada
inundou minha vida de coisas belas demais
evitava que eu tivesse qualquer aborrecimento
impedia que eu saísse no sereno
me conduzia pela mão ao atravessar a rua
velava enternecida pelo meu futuro
a minha ex-namorada usurpou o lugar
onde floria, exuberante, a esposa atual
de meu pai onipresente
De Beijo na Boca (1975)
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sexta-feira, 11 de maio de 2012
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Riogrande
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Um slide

Um slide
[Sérgio Alcides, O ar das cidades, São Paulo, Nankin, 2000, págs. 30-31]
Mal consigo ler
a cidade no meio das letras
a gente fora dos outdoors.
Há muitos destroços
de palavras e luzes, rebites e bits
cobrindo o coração.
Suponho que tem um coração (e erro).
Não distingo seu ruído pelas ruas
que clamam Pour Élise.
Ponho este poema – um
slide – deitado na linha do horizonte.
Não desisto de desatar o enleio dos edifícios
na paisagem-pregão.
Se houver um desabamento
o poema ficará no ar
escorado
nos gritos.
Mas os letreiros, não.
terça-feira, 26 de julho de 2011
são sebastião

Nel Meirelles
as ruas
me atravessam
as esquinas
guardam meus pedaços
as largas avenidas
amaciam meus passos
o sol do arpoador
me descobre a alma
bangu, campo grande, realengo
são trilhas de longas caminhadas
tijuca, ipanema e são cristóvão
canções de todos os carnavais
e minha mangueira
plantada no alto do morro
é a alma desse rio de janeiro
que vive e revive em mim
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Poesia
domingo, 22 de agosto de 2010
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Restos Inúteis

uma flor de plástico murcha
palitos de fósforo queimados
velas que não se sustentam acesas
por mais de quatro horas
livros que não suportam uma terceira leitura
um verso parnaso de pé-quebrado
(pau que nasce torto morre torto)
o quinto replay de um gol impedido
de um jogo da terceira divisão
cabides puídos por golas mal passadas
relógios parados há seis anos
pilhas fracas guardadas no criado-mudo
tempo feio num quadro encardido na parede
moinhos de ventos extintos
órfãos do fantasma de Dom Quixote
velhas lambretas estacionadas
no cemitério da infância
ratoeiras inativas
pregos enferrujados
pedaços de cera de carnaúba esquecidos
curiós empalhados
gaiolas de buriti podres
baganas abandonadas num cinzeiro quebrado qualquer
a última faixa do lado B de um vinil arranhado
que repete há 32 minutos
cacos de cotovelo apoiados em janela inútil
quem olha dali vê passar a grande marcha do nada
Celso Borges
para Marcelo Montenegro, que abriu este baú
(in Belle Epoque)
Foto: Bresson
terça-feira, 27 de abril de 2010
"ELEGIAZINHA"
Ela também,Nivaldete,é da confraria dos felinos.Obrigada Deta pelo poema postado nos comentários.VEJAM QUE BELEZA:
"ELEGIAZINHA"
[i. m. nikita (gata da Inês)]
Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.
Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.
Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.
Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.
Gatos não morrem: mais preciso
- se somem - é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso
e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos."
Nelson Ascher
FONTE:
http://poesiailimitada.blogspot.com/search/label/-%20Poesia%20brasileira
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Paulo Leminski
domingo, 31 de janeiro de 2010
aos predadores da utopia
sábado, 2 de janeiro de 2010
Há uma gota de sangue no cartão postal

eu sou manhoso eu sou brasileiro
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata
sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira
de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
lívido
de medo e de amor
CACASO
domingo, 6 de dezembro de 2009
Jessica

foi o bom Sheppard
quem me ensinou
a andar pelo deserto
mesmo assim
eu esperava
escondido
que ele saísse
com a velha camionete
não da casa de Los Angeles
mas
do rancho
no Monjave
depois eu entrava
na casa
meio sem jeito
as botas sujas
o colarinho grudando
e ela me esperava
com um leve vestido
facíl de tirar
e um copo pronto
de limonada
com muito gelo
(dezembro, 2009)
Lalo Arias
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
O ator

Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,
embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:
nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza
que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos
em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,
sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.
Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.
Eucanaã Ferraz
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Colheita
domingo, 23 de agosto de 2009
HISTÓRIA DE DETETIVE

HISTÓRIA DE DETETIVE
Para quem está sempre numa paisagem estranha,
A rua irregular do vilarejo, a casa escondida entre as árvores,
Tudo perto da igreja, ou a escura casa geminada,
Ou a outra com colunas coríntias, ou cada
Apartamento proletário: em todo caso
Um lar, o centro onde as três ou quatro coisas
Que costumam acontecer a alguém, acontecem? Sim,
Quem não pode desenhar o mapa de sua vida, a sombra
Na pequena estação onde ele cruza suas amantes
E diz adeus continuamente, e repara no local
Onde o cadáver de sua felicidade foi descoberto?
Uma mendiga desconhecida? Um homem rico? Sempre um enigma
E com um passado enterrado mas quando a verdade,
A verdade sobre nossa felicidade é revelado
Quanto ficou devendo à chantagem e ao adultério.
O resto é tradicional. Tudo segue um plano:
A intriga entre o senso comum local
E aquela exasperante e genial intuição
Que está sempre no local, por acaso, antes de nós;
Tudo segue um plano, a mentira e a confissão,
Até a perseguição emocionante no fim, o tiro.
Mas até a última página uma dúvida paira :
E o veredito, foi justo? O nervosismo do juiz,
Aquela pista, o protesto das tribunas,
E até nosso sorriso … pois é . . .
O tempo todo matamos o tempo. Alguém tem que pagar
Pela perda de nossa felicidade: ela mesma.
Detective Story: W. H. Auden (1936)
HISTÓRIA DE DETETIVE - Tradução: Rodrigo Garcia Lopes
Em The English Auden: Poems, Essays and Dramatic Writings 1927-1939. Ed. Edward Mendelson. 1977. London: Faber, 1986.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
POESIA

Talvez o que nos reste
seja o lamento...
O vento lento de um domingo estático.
que táticas ansiosas de sobrevivência
são inúteis.
Talvez somente momentâneas
talvez involuntárias.
Talvez o que nos reste
seja o choro,
em coro!
E o soro - hidrogênio, oxigênio, cloreto de sódio
O ódio... (lágrima)
Composta de elementos que se apagam
dia-a-dia-adia-dia-a-dia-adia
adia não!
Antecipa a esvaessência "óbvia"
da essência dessa terra antiga
Que criou o homem... que criou a cobra em cativeiro...(cantiga)
Talvez o que nos reste
seja o silêncio
O intenso,
o senso de que o nada é irrefutável
Inevitável.
De que a morte natural aural banal
será sorte num momento além, ali... (logo ali)
Talvez o que nos reste agora
seja o agora, o aqui.
A hora que "quem sabe faz"
Talvez seja o olhar pra frente, sem desvios
nem devaneios!
De que atrás há algo melhor
Que as obras as sobras
Os escombros, assombros
O ombros... gesticulando - e daí?
E daí?!
...(e agora?
Chico Almeida
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Fabrício Carpinejar

MELHOR ASSIM
Não culpo Deus pela caligrafia.
Não se pode escrever bem
e ainda ter letra bonita.
Não reclamo a estranheza do rosto,
o nariz torto, os olhos caídos.
O que falta em mim, imagino.
Ser feio até que me tranqüiliza.
Enquanto os outros se descobrem,
eu me invento. Não me basto sozinho.
A beleza de minha mulher me perdoa.
domingo, 2 de agosto de 2009
A cidade e os livros

O Rio parecia inesgotável àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo, saltar no fim da linha,
andar sem medo no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava que eu não lhe pertencia - e de repente,
anônimo entre anônimos, notar eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim -, entrar em becos, travessas, avenidas, galerias, cinemas, livrarias:
Leonardo da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Irís Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrãp Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam:
que em princípio haviam sido escritos para mim os livros todos.
Hoje é diferente, pois todas as cidades encolheram, são previsíveis,
dão claustrofobia e até dariam tédio, se não fossem os livros infinitos que contêm.(Antonio Cícero)
Sozinho entrar no ônibus Castelo, saltar no fim da linha,
andar sem medo no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava que eu não lhe pertencia - e de repente,
anônimo entre anônimos, notar eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim -, entrar em becos, travessas, avenidas, galerias, cinemas, livrarias:
Leonardo da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Irís Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrãp Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam:
que em princípio haviam sido escritos para mim os livros todos.
Hoje é diferente, pois todas as cidades encolheram, são previsíveis,
dão claustrofobia e até dariam tédio, se não fossem os livros infinitos que contêm.(Antonio Cícero)
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Paulo Lemiski

RAZÃO DE SER
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
Paulo Leminski
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Rafael Gil Beckel

"O amor que acredito:
Não prende,
não pede em troca,
não impõe condições,
não segue regras,
não tem nome.
O amor que acredito:
Liberta,
é gratuito,
é incondicional,
é espontâneo,
é apenas o que é.
Se o amor não for assim, será um mero remédio para a sua carência, um alimento para o seu ego, um apoio para a sua insegurança, mas jamais será amor." -Esta dificil achar alguém pronto para um amor assim!
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