quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A um apostador


pra mim

o páreo
é dentro

corro
por fora

(aéreo,
atento)

e fim.
(autor: Duda Machado. livro: Crescente. editora: Duas Cidades.)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um texto de André Pereira


Andava sem rumo,sua ternura estava imprópria para consumo humano,feitos os pastéis adormecidos nos vidros do botequim,cumpriu sua faina;soturnamente comeu o desjum de sempre,acendeu seu cigarro e falou manso para o dono do boteco:-como está a vida hoje seu honor.O velho entre rabugento e sarcástico gritou como sempre,UMA MERDA MEU QUERIDO DOUTOR!sorriu aquiescente e viu uma bela colegial passando com suas pernas brancas rumo ao colégio,lembrou da infância e de tudo que estava longe,muito longe;soltou uma grande baforada para o infinito e resmungou:prá que tantas pernas meus deus,porém seus olhos não diziam nada,era a vida na sua essência cotidiana.

sábado, 7 de novembro de 2009

Insuportavelmente feliz


Outro dia, discuti com uma pessoa. Discordamos, e rapidamente a alternância entre sarcasmo e respostas agressivas virou um bate-boca. Não me importo muito com embates e cada vez menos me altero com eles. Por outro lado, a pessoa gritava cada vez mais alto, me insultava e acabou me ameaçando. Quase levei uma bofetada. O motivo da discussão era pífio, o que é comum no mundo do estresse em que a maior parte das pessoas socialmente integradas vive. Ironicamente, um pouco antes, na mesma tarde, vi a pessoa em questão entretida com a leitura de Inteligência Emocional, best-seller de Daniel Goleman, PhD, que defende a tese de que o sucesso pessoal depende muito mais da capacidade de ser gentil e amável nos relacionamentos do que da capacidade intelectual das pessoas.

Ela lia por que achava que precisava desse tipo de livro? Ou por outro motivo qualquer?

Livros de auto-ajuda são de uma canalhice quase inconcebível. Voltam-se a pessoas carentes, doentes da alma ou ambiciosas, com sede de sucesso. Não duvido do poder deles, já que a maioria se baseia no conceito da mentalização: é preciso ver a coisa feita na mente antes que aconteça na realidade. Mas duvido que seja preciso escrever tantos livros, com variações das fórmulas de sucesso, para descobrir isso. Tento me cercar de pessoas agradáveis e, se possível, otimistas. Ou de pessimistas inteligentes, e sei que é cada vez mais difícil achá-los. Nossa era padece de um mal terrível: a obrigação de ser feliz. Insuportavelmente feliz.

Meu avô trabalhava na Sears, loja de departamentos de que os mais velhos vão se lembrar. Nessa época, uma pessoa como ele podia ser feliz, simplesmente. Ele não tinha estudado até o nível superior, mas a formação técnica lhe dava um trabalho capaz de suprir as necessidades de sua família, uma esposa linda e amada, três filhos inteligentes e saudáveis, uma casa confortável, ainda que sem luxos. Não sei se no íntimo meu avô era feliz, mas quando eu era criança, brincávamos em parquinhos, ele me ensinou a reconhecer canto de sabiá e de bem-te-vi, fazer dobraduras, ouvir histórias e amar cavalos (ele era viciado nas corridas do Jóquei, embora não apostasse). Não acho que uma pessoa infeliz fique satisfeita com esses pequenos prazeres; pelo contrário, mal consegue se dar conta de que eles existem. E isso é o mal de uma época: por processos midiáticos, econômicos e sociais, tudo é ambição e expectativa. No plano profissional, por exemplo, ter um emprego e salário digno não bastam: é preciso ser realizado. E a mesma ciranda roda em todos os aspectos da vida.

Muitas palavras-chave fazem o inferno da vida contemporânea: fama, poder, motivação, reconhecimento, independência, liberdade, sucesso, amor. Um ciclo de esforços infindável se desenrola: faculdade, cursos de idiomas que nunca serão praticados, pós-graduação, aparelhos eletrônicos sofisticadíssimos e que logo serão obsoletos, redes de relacionamento virtuais, maquiagens, o par perfeito, o relacionamento afetivo sem tremores, álbuns de viagens com fotos de lugares descolados, horas de malhação na academia e tratamentos estéticos. Tudo isso para quê? Para satisfazer a quem? Não sou uma adepta voraz da vida simples nem neohippie à deriva. Mas acredito que os livros de auto-ajuda são um efeito colateral de uma sociedade que está tão imersa em seus processos de evolução que não se dá conta de que eles existem. Assimilar a criação social que nos cerca como um fato natural é perigoso. Perde-se a consciência de si e do outro, e há o sentimento de ânsia permanente. Nada mais lógico, portanto, do que buscar uma resposta qualquer para a vida que parece tão sem sentido, tão à espera de que algo mais finalmente aconteça.

Dou a cara à tapa, contudo: li um livro muito interessante, que abriu meus horizontes. Era de auto-ajuda financeira: Mulheres boazinhas não enriquecem, de Lois P. Frankel. Não espero enriquecer por causa dele, mas pelo menos percebi porque o dinheiro não pára na minha mão. A tese central do livro é que as mulheres não valorizam o dinheiro e carreira em causa própria, e sim com a finalidade de cuidar das pessoas amadas e lhes proporcionar bem-estar. Descrições de alguns padrões de comportamento femininos, puras e simples, acompanhadas de dezenas de exemplos e dicas práticas, me pareceram sensatos e razoáveis, factíveis. Além de adaptáveis a vários tipos de problemas, desde sair do vermelho no cartão de crédito a como pleitear um salário mais condizente com as qualificações profissionais. Desse, gostei bastante.

Em termos de auto-ajuda emocional, ficção me parece muito mais eficaz do que os guias que forram as prateleiras das livrarias. A literatura é cheia de histórias capazes de mudar o ser humano. O dilema de Antígona, na tragédia grega, entre atender a um dever de Estado e deixar o irmão insepulto, ou cumprir a obrigação familiar e os costumes e prover-lhe um enterro, me valeu por anos de terapia e vários tratados de ética. Mais recentemente, encontrei um verdadeiro refrigério moral e emocional na série de TV House. O personagem principal é um médico que faz escolhas nos planos pessoal e profissional extremamente radicais, fundadas num sistema de valores complexo e pessoal. O ganho que a série me trouxe (como fizeram vários livros, discos e filmes) foi uma percepção nova sobre minha realidade. Livros de auto-ajuda trazem respostas; a arte geralmente traz perguntas. Por escolha pessoal, fico com a arte.

A auto-ajuda se baseia um mundo irreal onde tudo pode dar certo, onde perder não é uma opção. Não me parece uma opção para evoluir e amadurecer, embora muitas vezes esses livros estejam recheados de boas dicas pessoais e profissionais. Vale a pena buscá-las, é um paliativo tão útil como assistir Top Hat, musical de 1935. A cena em que Ginger Rogers e Fred Astaire dançam ao som de “Cheek to Cheek” é capaz de curar, por cinco minutos que seja, qualquer ferida na alma. Não à toa, é com essa cena que termina A Rosa Púrpura do Cairo, filme de Woody Allen em que Cecília, a personagem de Mia Farrow, volta a ter esperança depois de ter sua vida arrasada, com essa tomada. O filme é um acalanto, uma resposta a um país em crise. Mas muito mais do que de respostas, o ser humano precisa de perguntas, que os livros de auto-ajuda nunca trarão.

Verônica Mambrini

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

"sentido sem título":


quando penso que queria
que caísse sobre nós
a pedra da gávea

dou aquela risadinha
maligna em seguida
aquela choradinha

invisível, atravessada
entre o olho e a garganta
nem piscando passa.
(Bruna Beber)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Pranto Para Comover Jonathan


Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.
Adélia Prado

sábado, 24 de outubro de 2009

CAIO F.( Personagem de si mesmo )


Sou assumidamente apaixonada por Caio.Foi ele quem melhor escreveu sobre minha geração.Transcrevo aqui no meu blog a resenha de Marcelo Moutinho sobre dois livros recém-lançados e que jogam luz na vida e na obra de Caio Fernando Abreu.
Personagem de si mesmo


Marcelo Moutinho

Corriam os anos 70. A tarde se desenrolava sem sobressaltos na redação da revista Pop quando alguém entregou a Paula Dipp, repórter ainda iniciante, um recado sob forma de bilhete. “Todos já receberam o convite para seu aniversário; por acaso você teria se esquecido de mim ou ainda posso ter esperanças de ser convidado?”, dizia o texto. Assinava Caio Fernando Abreu.

Paula organizara uma "festa de arromba". "Enviei convites, avisei pessoas, e o Caio, justo ele, foi ficando para trás. (...) Não foi esquecimento e sim uma espécie de cautela. Adiei o convite porque ele me intimidava”, conta ela, que acaba de cumprir, com a publicação de Pra sempre teu, Caio F, a promessa feita numa das tantas correspondências trocadas com o escritor após aquele episódio inaugural: reabrir seu baú de guardados e tirar da penumbra os afetos, as dores e idiossincrasias que moldaram quase 20 anos de amizade. Do início, farto em afinidades e promessas, ao último telefonema, a voz de Caio cambaleante falando da bem-sucedida cirurgia na vesícula.

Missivista contumaz, o escritor sempre insistiu em que a gente não devia permitir que as cartas se tornassem obsoletas, “mesmo que, talvez, já tenham se tornado”. Hoje possivelmente enviaria e-mails com a mesma intensidade. “As cartas eram uma forma de organizar a vida, a dele e a nossa”, comenta Paula no livro, cuja essência é justamente o teor dessas correspondências, às quais ela adicionou depoimentos, muitos depoimentos, de gente que conviveu com o autor. De Antonio Bivar a Adriana Calcanhotto. De José Márcio Penido a Marcos Breda. De Maria Adelaide Amaral a Okky de Souza.

Entre afagos e críticas algumas vezes duras, o livro contempla o escritor soturno que varava madrugadas em busca de inspiração, o jornalista que não atrasava a entrega dos textos, o ser marcadamente gregário, a personalidade instável, vertentes que nem sempre pareciam se integrar. Além disso, o sujeito encrenqueiro, o comentarista mordaz, o homem carente capaz de cenas públicas de ciúme, como a que se deu na redação da Pop.

Para reconstituir essa história, Paula se fez também personagem. E não se limitou a tratar do que é matéria íntima. Em mais de 500 páginas, pavimentou a trajetória do autor com as imagens, as modas, os humores, enfim, com os ícones que constituíram o zeitgeist da geração pós-ditadura. Até porque Caio surfou todas as ondas. Vibrou nas cordas lisérgicas do movimento hippie, gritou contra a burguesia ao lado dos punks, botou broche do PT no peito. Transou quiromancia, tarô, foi a cartomantes. Leu o I Ching, frequentou o Santo Daime, terreiros de Candomblé. E, no esteio desses muitos percursos, personificou, talvez como nenhum outro ficcionista, a mixórdia de inocência e esperança que animava os corações àquela época.

Paula traz revelações interessantes sobre a criação de obras como “Morangos mofados” e “Onde andará Dulce Veiga?”. Exemplo: a obsessão de Caio por desenhar os mapas astrais dos personagens, fixando data, hora e local de nascimento, para depois montar um perfil psicológico adequado e então começar a escrever. Essa paixão pela astrologia seria levada ao paroxismo em “Triângulo das águas”, cujas três novelas se inspiram nos arquétipos de Peixes, Câncer e Escorpião.

O livro cataloga também expressões que ele criou, com algum humor e muito sarcasmo, e que saíram de seu vocabulário pessoal para o repertório de pessoas próximas, como a própria Paula. “Lasanha”, para designar homem bonito; “adendo”, para os “chatos que colam na gente”; “nigrinha”, para gente simples que se quer descolada, mas batalha pesado pela sobrevivência. “Nigrinha não falta a vernissage por causa das empadinhas e não paga impulso de jeito maneira. Só liga da repartição”, fazia graça.

Pra sempre teu, Caio F. ajuda a confirmar que o sonho/temor que o autor mantinha quanto à glória póstuma se efetivou. Mais de 50 teses a seu respeito já foram defendidas ou estão em andamento, no Brasil e no exterior. Suas obras foram relançadas, as peças de teatro estão agrupadas num volume caprichado e as cartas, compiladas em livro. Ele é simplesmente “o Caio”, tal a afinidade com seus escritos, para muitos jovens fãs que mal andavam em 1996. E acaba de ganhar uma biografia: “Caio Fernando Abreu: inventário de um escritor irremediável”, da jornalista Jeanne Callegari.

Em narrativa linear, Jeanne descortina a errante caminhada do autor, desde o menino-cinéfilo da pequena cidade gaúcha de Santiago do Boqueirão; passando pelas temporadas na Europa, onde chegou a morar em casas invadidas; pelos ciclos místicos no sítio de Hilda Hilst; até desembocar no drama da Aids. Há agora uma moda de se falar em “auto-ficção”. O conceito se aplica à perfeição: narrador e personagem, Caio o tempo todo escreveu a si mesmo.

Os livros de Paula e Jeanne têm algo em comum. Ambos espelham a eterna procura que se refletiu em seus contos, suas crônicas, suas cartas, seus romances, numa imbricação em que vida e obra se alimentaram sempre, mutuamente, e que ele sintetizou num texto-desabafo publicado na revista Around: “O bicho homem não faz outra coisa a não ser pensar no amor. Até as relações de produção, a luta de classes, a ecologia, o jogo pelo poder: tudo, questão de amor, (...) o nome que inventamos para dar nome ao Sol abstrato em torno do qual giram nossos pequeninos egos ofuscados, entontecidos, ritmados”.

A impressão é que, mesmo ante a sensação de fracasso por nunca experimentar um acontecimento externo “que justificasse toda a largueza de dentro”, como lamenta o personagem do conto “A chave a porta”; mesmo sob o sol negro que luziu melancolia sobre a maior parte de seus dias, Caio no fundo sempre soube tirar, das coisas, a beleza possível. Em 1978, talvez sem uma consciência precisa, ele mesmo sugeria isso ao afirmar: “Moro sozinho, minha casa é muito bonita, eu sempre digo que posso ter uma solidão medonha, mas sempre vai haver um vasinho de flores num canto. A gente pode enfeitar a amargura”.

Ainda assim, foi surpreendente o modo como enfrentou o diagnóstico da contaminação pelo HIV, fatal naquela década de 90. Ele pedia apenas para ver o ano de 2000 chegar (não deu), e trocou o natural pavor diante da morte inevitável pela serenidade de quem cultiva rosas no jardim de casa, sorvendo o mel que cada fino grão de segundo pode oferecer. “Aquilo que eu supunha fosse o caminho do inferno está juncado de anjos. Aquilo que suja treva parecia guarda seu fio de luz”, declarou, como se renovasse a certeza de que, quando mofam os morangos, há como se colherem outros, “vivos, vermelhos”. Há sempre como se plantar.

* Esta é a versão sem cortes da resenha publicada hoje no caderno Prosa & Verso (O Globo)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Colheita


fazer um poema para uma paixão

é como colher grãos
no deserto

mas os sábios costumam apelar:
sempre existe um oásis

mesmo quando a seca seca tudo

inclusive a dor de não saber colher beijos
- como um chato pacifista colhe a paz no inferno.

(Linaldo Guedes)