sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Ana Paula Oliveira.





Deixou o raio
o quarto
o risco

e se foi com a dança
de apanhar gravetos

Deixou o raio
o quarto
o risco

E esse vício tão sublime
de brincar de abismos.

Ana Paula Oliveira.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Trecho de Livros




‎"No primeiro dia pensei em me matar. No segundo, em virar padre. No terceiro, em beber até cair. No quarto, pensei em escrever uma carta para Marcela. No quinto, comecei a pensar na Europa e no sexto comecei a sonhar com as noites em Lisboa. Em seis dias Deus fez o mundo e eu refiz o meu."

(Memórias póstumas de Brás Cuba)

sábado, 20 de outubro de 2012

Cristiane Lisboa

Podemos fugir. Podemos correr duas vezes mais rápido apenas para ficar no mesmo lugar. Podemos nos camuflar, esquecer os brilhos d’alma, os sonhos de infância, as promessas feitas debaixo de estrelas, a paisagem da janela, o chão de terra, a vista do rio. Mas quando a borra de café se aconchega no fundo da xícara sussura o destino. E sou obrigada a voltar a querer o que na verdade sempre quis.

Cristiane Lisboa

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

LUA NOVA | manuel bandeira



Meu novo quarto
virado para o nascente:
meu quarto, de novo a cavaleiro da entrada da barra.

Depois de dez anos de pátio
volto a tomar conhecimento da aurora.
Volto a banhar meus olhos no mênstruo incruento das madrugadas.

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.

Hei de aprender com ele
a partir de uma vez
- sem medo,
sem remorso,
sem saudade.

Não pensem que estou aguardando a lua cheia
- esse sol da demência
vaga e noctâmbula.
O que mais quero,
o de que preciso
é de lua nova.

sábado, 29 de setembro de 2012

Rubens Jardim




Toda mulher é uma viagem
ao desconhecido. Igual poesia
avessa ao verso e à trucagem,
mulher é iniciação do dia,

promessa, surpresa, miragem.
De nada adiantam mapas, guias,
cenas ensaiadas ou pilhagens.
Controverso ser, mulher é via

de mão única, abismo, moagem.
É também risco máximo, magia,
caminho íngreme na paisagem.

Simplificando: mulher é linguagem,
palavra nova, imagem que anistia
o ser, o vir-a-ser e outras bobagens

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Diva Cunha







Certas mulheres catam coisas pequeninas
conchas, feijões, letras

outras distraem-se nos espelhos
contam rugas

algumas contam nuvens
criam cachorros e gatos como crianças

certas mulheres guardam mágoas
ressentimentos, botões, elásticos

algumas são como certos homens
não contam nada
ocupadas com coisas incontáveis

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Marla de Queiroz

Momento de me recolher para me acolher. Hoje, pelo dia difícil, pelo desafio novo, pelo susto atravessando a tarde, o choro preso, uma tristeza nada boba, mas passageira, meu olhar ficou cansado, minha mente pesada, a cabeça doendo e as pessoas me pedindo ajuda sem me perguntar como eu estava. Pois saibam que a melancolia surpreende até os que são otimistas e tiram fotos com o sorriso escancarado ou abraçados às paisagens. Mas não enfio mais a minha dor no bolso para cuidar do Outro, como fazia Caio F. Contudo, eu sabia que neste mesmo dia, agora nesta noite calma, eu teria o meu colo, meu afago, meu afeto derramado, um jeito de me aninhar confortavelmente convidando o bem-estar.E, é neste momento de recolhimento doce, bem na hora em que as coisas falam comigo e tudo que estava embaçado vai clareando aos poucos, tenho meu auto-abraço-amigo.
Que o dia vai acordar pulsante, eu não tenho dúvidas.E minha alma vai acordar renovada deste instante: doida pra resgatar minha alegria.

Marla de Queiroz
 
Belíssima foto do fotográfo potiguar João Maria.