Mostrando postagens com marcador poetas contemporâneos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poetas contemporâneos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Marcelo Montenegro


Três pensatos14360_gg
1.
PENSO naquela única gota
gelada do chuveiro quente.
Nas ilíadas clandestinas
que a febre percorre
até virar suor. Penso nas caretas
que os músicos fazem
quando estão solando.
No meu pai me dizendo
que tudo isso aqui era mato.
Penso na imagem exata
de uma aurora indecisa.
Penso em calços de papelão
para pianos mancos.
2.
PENSO em alguém que, na manhã
do dia de sua morte, desiste
de usar a camisa que mais gosta,
preferindo guardá-la para uma festa
que terá na noite seguinte.
3.
PENSO em você, por exemplo,
largando o controle
remoto e dizendo —
do jeito mais lindo
do mundo — que adora
quando consegue pegar
um filme do começo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Local

LOCAL

De onde me viria
esta história de o amor
ser de partida?

E esta agonia,
o inquirir de cada olhar
o revés
do esquecimento?

Minha praia é esta
meu convés o litoral
eu sou a minha nau
e o meu descobrimento.

Eu não conheço a dor dos navegantes
nem as areias escaldantes
dos salvados do mar...

Se sou assim desde o primeiro dia
por que fugir de mim
em travessia?

Abel Silva

31 DE DEZEMBRO DE 2005

31 DE DEZEMBRO DE 2005

O último dia do ano deveria ser um dia como outro qualquer.
Sem temores, sem sobressaltos.
Mas entristeci de pensar.
A canallha assovia, a sirene passa
e eu me deito sobre os meus 48 anos.
Da varanda vejo o Tejo.
A noite abriu-se como por encanto.
Há bulício nas casas e nas ruas.
Holofotes e estrelas anunciam
e eu desentristeço de expectativa.
Os barcos são candeias na fragrância das águas.
A meia noite acende os formidáveis fogos.
As auras fosfóreas produzem súbita aurora.
É já manhã na face lisa do Tejo.

Marcio Catunda

terça-feira, 22 de março de 2016

Ana de Santana

ATLAS ANTIGO

Aquela cidade não há mais
A não ser nos mapas 
E nos meus desenhos escolares
Madrugadinha Luzes todas apagadas
Esquecimento e fim
A herança do ermo Inclui fantasmas e folguedos
Aquela cidade me cartografa
Brinco nela quando me dá infância
Sou cabra-cega procurando a mim

Ana de Santana

Nonato Gurgel

OUT(R)ONO
... convoca aos afetos, 
devolve turista e ainda chega com uma lua drummondiana,
 deixando a gente comovido pra caralho...
Nada de tesão do talvez:
 vamos tomar mate às 5, no Largo, e eu te conto...

Nonato Gurgel

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

FORA DE LINHA


para Antônio Nóbrega

Os homens obsoletos foram dispensados 
como candidatos a recrutas, por excesso de contingente. 
Os homens obsoletos vagam qual zumbis 
em praças, parques e estações de metrô. 
Os homens obsoletos alimentam-se de jornais 
e engordam nos sofás diante da televisão. 
Os homens obsoletos cumpriram as exigências:
faculdade, inglês e cursos de pós-graduação.
Os homens obsoletos mantiveram-se jovens
com dietas, ginástica e oficinas de auto-estima.
Os homens obsoletos tiveram bloqueados
seus crachás, suas senhas e cartões de crédito.
Os pais não querem os homens obsoletos.
— Ah, quanto dinheiro investido em sua educação!
Os amantes não querem amar os homens obsoletos
porque estes têm a pele com gosto de ferrugem.
O mercado não absorve os homens obsoletos,
pois não existe demanda para a exportação.
Não há como reciclá-los para que se encaixem
nos mutáveis programas de reengenharia.
Terapeutas recomendam aos homens obsoletos
que ocupem o tempo ocioso nos museus e galerias,
nas paróquias ou mesmo em clubes de filatelia.
Os homens obsoletos caíram em desuso
como os chapéus, as galochas e o jogo d
FORA DE LINHAe bilboquê.

( Donizete Galvão )

SETEMBRO

setembro

Nunca mais será setembro,
nunca mais a tua voz dizendo
nunca mais, eu lembro,

nunca mais, eu não esqueço,
a pele, nunca mais,
o teu olhar quebrado,

dividido, vou esquecê-lo,
é o que digo, nunca mais
a minha mão no teu sorriso,

a tua voz cantando,
vou apagá-la para sempre,
e nossos dias, setembro, lembro

bem, dentro a tua voz dizendo não
( ouço ainda agora ), como se quebrasse
um copo, mil copos, contra o muro.

Rasgarei o que não houve, o que seria,
mesmo que tudo em mim me diga não
( e diz ), mas é preciso.

Como não se pensa mais um pensamento,
quero, prometo:
nunca mais será setembro.

( eucanaã ferraz )

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

OCASO

Ocaso.

Cortei,
cortei o sim,
o nó na garganta,
cortei o que era plástico e se quebrou,
o que era amargo e se acabou,
Cortei o açucar,
cortei você. 

Cortei, 
cortei o laço,
o abraço,
o umbigo,
cortei o pão que o diabo amassou,
cortei o inferno,
o fogo,
o fardo,
cortei você.

Cortei,
cortei os fios,
o cabelo,
os brios,
cortei na própria carne.
Cortei a carapaça do amor,
a carapuça da dor,
cortei,
cortei você.

Cortei,
as garras,
as asas,
suas,
e voei.

Clara Gurgel

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A poesia

A poesia

Houve um tempo
em que Schmidt e Vinicius
dividiam as preferências 
como maior poeta do Brasil 
Quando por unanimidade ou quase
nesse jogo tolo
de se querer medir tudo
Drummond foi o escolhido
ele comentou
alguém já me mediu
com fita métrica
para saber se de fato sou
o maior poeta ?

Estava certo
Pois a poesia
quando ocorre
tem mesmo a perfeição
do metro –
nem o mais
nem o menos
– só que de um metro nenhum
um metro ninguém
um metro de nadas

( Francisco Alvim )

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Fruta Pao

FRUTA-PÃO

Para Leo Ventura

Minha madeleine
É a memória dessa fruta
Nas beiras litoral
Entre os coqueiros e a brisa
O cheiro de sol na areia
Os movimentos livres da infância
Os agitos soltos da juventude
O amor ancorado na pulsação quieta
A poesia inscrita no sabor

João Batista de Morais Neto

domingo, 26 de julho de 2015

Regis Bonvicini

NOTÍCIA DA SÍRIA
Um garoto libanês
camiseta verde-lunar
"I'm so keen on being looked at"
bermuda cinza
arranha palavras em português
seu irmão mais novo com uma cara meio sinistra
buraco entre os dentes incisivos de cima
a dez passos da mesquita
muro alto, largo, relevo áspero,
Soueid Têxtil
um tapume de zinco, tinta descascada
a porta de ferro e vidro em pé sem a casa
uma cadeira de escritório de aço tubular, vazia,
estofado de espuma e napa, rasgado
do lado de fora de uma casa
caindo aos pedaços
uma garota enverga um véu rosa claro
cabeça baixa
vestido preto longo
passa
um palestino,
de um campo de refugiados na Síria,
Aka,
o confisco total de víveres
imposto pela ditadura de Al-Assad
garotos comendo grama
bombardeios
um hibisco esguio sobre a marquise
agora trabalha no açougue e comida halal
de um sunita de Trípoli
cozinheiro, garçom, faz-tudo
em troca de cama e comida
e aqui de novo os fuzis
um ilegal metralhado ontem à noite na esquina
barraca "Envío dinero"
ao meio-dia se volta para Meca na calçada
cruzes enfiadas nas bocas das meninas
sem falar português
um garoto negro passa
carregando um manequim

domingo, 10 de maio de 2015

Marize Castro

AVISO

É perigoso, menina,
sair de casa
sem seu guarda-chuva
perolado
sem seu fogo mortífero
sem seu sexo
sempre aberto
aos apelos
do mundo.
É perigoso, menina,
se deixar para trás,
subir até a mais alta montanha
e de lá não se jogar.
É perigoso, menina,
(muito perigoso)
não parar de buscar
o paraíso
e se lambuzar de prazeres
alheios.
É perigoso, menina,
beijar a boca
de alguém tão mais velho
e se perder assim:
não mais saber
onde reside
a primeira luminância
a última escuridão.
É perigoso, menina,
acreditar na memória,
jogar-se de tal altura
inflar-se de clichês
quebrar suas tão jovens
asas

e não cair.

É perigoso, menina,
proteger-se e se armar demais
querer o outro, ser o outro
– habitar o inabitável.


Marize Castro

terça-feira, 14 de abril de 2015

MANUEL ANTÓNIO PINA

ESPLANADA

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares....
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

MANUEL ANTÓNIO PINA

sexta-feira, 13 de março de 2015

Pouso

tão lento
quanto

possível agora
pousar o olhar

na parte acesa da rua
de onde

você surgirá agora
pela primeira

vez (ontem tempos
atrás amanhã

antes do sol que se agora)
como se

agora apenas
retornasse

para
(1) esta casa

(2) este corpo e
(3) a alegria

que sempre
agora

lembra
seu nome

Ricardo Aleixo


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

PAULO HENRIQUES BRITTO

III
O hábito de estar aqui agora
aos poucos substitui a compulsão
de ser o tempo todo alguém ou algo.
Um belo dia – por algum motivo
é sempre dia claro nesses casos –
você abre a janela, ou abre um pote
de pêssegos em calda, ou mesmo um livro
que nunca há de ser lido até o fim
e então a ideia irrompe, clara e nítida:
É necessário? Não. Será possível?
De modo algum. Ao menos dá prazer?
Será prazer essa exigência cega
a latejar na mente o tempo todo?
Então por que?
E neste exato instante
você por fim entende, e refestela-se
a valer nessa poltrona, a mais confortável
da casa, e pensa sem rancor:
Perdi o dia, mas ganhei o mundo.
(Mesmo que seja por trinta segundos.)
PAULO HENRIQUES BRITTO
[de "Três epifanias triviais", in "MACAU"]

terça-feira, 19 de agosto de 2014

ESPANTALHO DESCARADO

ESPANTALHO DESCARADO
– para Fabio Henriques


ando assim
tipo um erro flácido ambulante
sem êxito, hesitante
disco riscado
fora de catálogo
no pó do instante
ando assim oco, uma crosta
vodu cansado que com a sorte
nem mais dialoga – diamante
ando assim sem linguagem
sem faro, espantalho fora de foco
ando assim
mais opaco que olímpico
esquivo, íntimo, insípido
um mastodonte pensando
desamparado
aspirando a paralelepípedo
ando assim meio buster keaton
um tanto de lágrima hasteando o riso
ando assim raso
indiferente
me divertindo um bocado
eu ando mijando no poste
porque o banheiro
está sempre lotado

Marcelo Montenegro
[in "Orfanato Portátil", AtritoArt, PR, 2003 - Annablume, SP, 2012]

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

RESTOS DE ESTÚDIO

RESTOS DE ESTÚDIO

Cada cigarro fumado na madrugada fria do posto
de uma cidadezinha absurda qualquer
durante a parada do ônibus.
Quantas imagens apodrecidas
na garganta seca das descrições,
canções que não chegaram a tempo.

Quantos dentes pintados de preto
nos retratos sérios dos livros de História,
tanto amor que virou desespero.
Cada silêncio perdido no grito,
tantos cacos de vidro em cima dos muros,
como se eu mesmo os tivesse escrito.

Quantos versos criados a bordo e não anotados,
tanto rancor latejando
na mudez de socos não redigidos,
tanta fita cassete e as gargalhadas
de todos os loucos
espanando o sublime do mundo.
Quantas giletes cuspidas de um pulso,

tanto caderno novo começado,
quantas falas roubadas de amigos,
tantos pântanos não soletrados.
Quanta inocência colhida em varandas de abismos
que eu carrego comigo
como um tesouro afundado.

Marcelo Montenegro
[in "Garagem Lírica", Annablume, SP, 2012]

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Ana Paula Oliveira.

Deixou o raio
o quarto
o risco

e se foi com a dança
de apanhar gravetos

Deixou o raio
o quarto
o risco

E esse vício tão sublime
de brincar de abismos.

Ana Paula Oliveira.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Marcelo Montenegro

AURÉOLAS EM LATAS DE BISCOITO

Comprar jornal na esquina e na volta
conferir a caixa postal telefônica. Morder o
ponto do dente onde já se sabe que a dor
dói com exatidão. Guardar dinheiro antigo
na carteira. Olhar as lombadas dos livros
numa estante desconhecida à espera de
alguém. Errar as medidas do café fora de
casa. Estar perto de perceber alguma
coisa. Encantar-se com parques de
diversão desativados. Pisar de meia no
quintal molhado pela chuva de ontem.

Marcelo Montenegro
[in "Garagem Lírica", Annablume, SP, 2012]

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Alice SantAnna

eu sabia
que mesmo depois que me
despedisse e fechasse
a porta

e descesse todos
os degraus troteando
a escada em espiral

e entrasse no táxi, boa-noite
siga reto, por favor, à
direita, o troco, obrigada
e acenasse para o porteiro

mesmo depois que eu apertasse
o botão do elevador, procurando
o chaveiro na bolsa

abrisse a porta de casa
tirasse os sapatos, os brincos
escovasse os dentes, os cabelos

mesmo depois que eu
dormisse e sonhasse e até a hora
em que acordasse, você ainda estaria

com os olhos
presos
à porta.