segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Pra mim





O que pode nos deixar mais comovido e emocionado do que um depoimento de uma amiga sobre a gente,ainda mais quando se trata de uma pessoa da nossa estima e que sabe escrever com a delicadeza que só os grandes escritores tem.Eu tive o enorme prazer de ter sido pesenteada com um belíssimo texto de Nivaldete,e confesso fiquei emocionada,confiram:



T T

Ela manda por e-mail textos curtos de pessoas que, de algum modo, escrevem com sangue
("escreve com sangue e verás que sangue é espírito" -impossível não trazer Nietzsche aqui). Sabe escolher, tem faro para essas escritas 'vermelhas', aquelas em que seus autores se mostram sem pudor, mostram as feridas, riem delas, se confessam arruinados naquele momento, quebram coisas na linguagem, se descabelam, choram e prosseguem com um riso irônico.
Se somos o que comemos, como dizem, Tetê ( T T) Bezerra é o que lê e as músicas que ouve. Aqui não há sectarismo: tanto um violonista sofisticado quanto um brega dor-de-cotovelo-deslavada. Pra ouvir alto, enquanto o gole de cerveja desce pela garganta. Doce boêmia, embora cerveja amargue -e não seria cerveja se não amargasse, ela diria. Porque sabe achar ditos circunstanciais adequados.

Sabendo o nosso gosto, grava CDs de Drummond dizendo poemas e nos dá como presente de aniversário, uma letrinha azul indicando do que se trata. "Gravei pra você, é seu, guarde, depois você ouve".
Seus agrados são assim: de quem conhece aquele/a que recebe o que recebe. 
 

 Delicadezas de T T, que ama cachorros e gatos. A sua gata Aninha tem também sobrenome: Bezerra. O cachorro Nino, que não tinha pelos, mas cabeleira arruivada, já foi...

Um tempão sem vê-la e é aquela mesma montanha de gente -grande e forte nos dois sentidos: no corpo e na forma de estar presente, de adivinhar a pessoa de cada pessoa e falar de coisas próprias do mundo de cada uma. E o corte e a mecha branca no cabelo lembram Susan Sontag. Digo sempre. Ou vez por outra, pois é vez por outra que a gente se acha, quase sempre nas comemorações familiares. Ainda bem.

T T esquiva-se de misturar amizade com política, por ex. Ou faz parte de sua política, já que política vem de polis, cidade, e a cidade é também o lugar 3x4 onde se está com outros, e é preciso saber estar; ela sabe. Sabe que encontrar amigos é semelhante a um devaneio, e devaneios não devem ser afugentados com discussões dessa ordem.

Ela se mostra quase surpresa porque damos retorno aos seus envios de textos: um comentário ligeiro e ela se sente tocada. Ora, T T, essas pequenas éticas são o mínimo que você merece, mas respondemos também porque igualmente nos toca termos sido lembrados.

Faça de conta que eu ainda tomo cerveja, T T. Então vai uma 'ceriveja' aí (na minha pronúncia lá de Nova Palmeira, nossa terra)?...
Tim-tim por você! Até mais depois.

P.S. Escrevi pra você, não guarde, nem precisa ler. Você sabe já isso tudo.


http://lapisvirtual.blogspot.com.br/2012/11/t-t.html#comment-form

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Ticcia





Aprendi a amar sob o signo do efêmero, avisada de que a qualquer momento podia me flagar vivendo de mentira ou despencando de uma torre muito alta que a mim não pertencia. Alfabetizei o peito e os olhos para acolher o adeus a qualquer momento e por qualquer motivo, em muitas línguas, de muitas formas, mesmo sussurrado em ausência e silêncio. Eduquei os braços para o regresso do vazio e os pés para dar meia volta e seguir noutra direção, como se o amor fosse frágil, perecível, volátil, fugidio, como se eu nunca fosse capaz de fazê-lo vingar, ou não merecesse permanência, mais que uma miragem, um presságio, um trailer. Peço perdão se não sei mergulhar no que para mim sempre foi um poço raso demais. Para isso é preciso mais que certezas. Para isso é preciso fé.
(Escrito por Ticcia)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

PAULO HENRIQUES BRITTO




Hoje acordei bem prático, sofístico,
sem pudores de lógica e moral,
fechado em mim, feito uma ostra, um dístico
ou uma pedra (mas não filosofal).
Devia haver mais dias como este,
livres de compromissos com dois mil
anos de ocidentalismo, a nordeste,
a sul, a sotavento do Brasil
ou do que quer que seja. Simplesmente
ser, sim, mas contingência pura, só,
nada que deixe um rastro ou excedente
em sangue, fezes, páginas ou pó.
Dias de amarrar barbante ao redor
do nada, e capturar um deus menor.

(de Cinco Sonetos Frívolos; in Formas do Nada)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Ana Paula Oliveira.





Deixou o raio
o quarto
o risco

e se foi com a dança
de apanhar gravetos

Deixou o raio
o quarto
o risco

E esse vício tão sublime
de brincar de abismos.

Ana Paula Oliveira.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Trecho de Livros




‎"No primeiro dia pensei em me matar. No segundo, em virar padre. No terceiro, em beber até cair. No quarto, pensei em escrever uma carta para Marcela. No quinto, comecei a pensar na Europa e no sexto comecei a sonhar com as noites em Lisboa. Em seis dias Deus fez o mundo e eu refiz o meu."

(Memórias póstumas de Brás Cuba)

sábado, 20 de outubro de 2012

Cristiane Lisboa

Podemos fugir. Podemos correr duas vezes mais rápido apenas para ficar no mesmo lugar. Podemos nos camuflar, esquecer os brilhos d’alma, os sonhos de infância, as promessas feitas debaixo de estrelas, a paisagem da janela, o chão de terra, a vista do rio. Mas quando a borra de café se aconchega no fundo da xícara sussura o destino. E sou obrigada a voltar a querer o que na verdade sempre quis.

Cristiane Lisboa

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

LUA NOVA | manuel bandeira



Meu novo quarto
virado para o nascente:
meu quarto, de novo a cavaleiro da entrada da barra.

Depois de dez anos de pátio
volto a tomar conhecimento da aurora.
Volto a banhar meus olhos no mênstruo incruento das madrugadas.

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.

Hei de aprender com ele
a partir de uma vez
- sem medo,
sem remorso,
sem saudade.

Não pensem que estou aguardando a lua cheia
- esse sol da demência
vaga e noctâmbula.
O que mais quero,
o de que preciso
é de lua nova.