Estado de Minas: 12/12/2012
Estou na cozinha da casa de Vera
Brant, cercado, como é de hábito, por gente sensível, inteligente e criativa. Lá
fora, na noite, o flamboyant impera. Tenho ao meu lado, no melhor lugar de todas
as casas, o maestro Jobim e Gonzaguinha. Diante de quem tem o que dizer, e pensa
com profundidade mesmo as coisas do cotidiano, prefiro falar pouco e ouvir.
A cerveja molha as
gargantas e os bolinhos de feijão nos alimentam. A música, a poesia, as pessoas
e o mundo eram nossos assuntos e o tempo parecia não existir. Mas estou agora
ouvindo uma seresta à frente de nossa casa, em Caldas, Minas Gerais, na véspera
do dia em que meu pai, juiz da comarca, se despedia da cidade para assumir o
mesmo cargo em Diamantina. As imagens são nubladas quando me lembro do ocorrido.
Não tinha completado 5 anos. Ficaram os sons da saudade dos que ficavam e da
gratidão dos que partiam.
E agora estou, de calças curtas e mirando o presente,
pisando nas pedras capistranas do Tijuco com minhas sandálias de sola de pneu,
que nunca acabam. Vou comprar a revista O Cruzeiro para meus pais e aproveito e
adquiro o primeiro exemplar brasileiro da Luluzinha e sua turma.
O Zé Aparecido me leva
para jantar com ele no Palácio dos Buritis. Eu e o Hildebrando Pontes nos
surpreendemos com a presença iluminada e bem-humorada do Oscar Niemeyer. Foi uma
alegria sem precedentes, dessas que só o Zé tinha capacidade e generosidade de
oferecer aos amigos.
No Bar Scotelaro, em Belo Horizonte, rompo a madrugada
bebendo cerveja com Dedé, Caetano Veloso e minhas irmãs Vina e Ana. Ali mesmo
iniciara, numa noite de novembro, a comemoração pelo nascimento de minha
primeira filha e, mais tarde, da segunda.
Com paletó do Toninho Horta, calça preta minha e
gravata borboleta de não sei quem, subo ao palco do Maracanãzinho entupido de
gente para, a seu lado, assistir ao meu parceiro, Milton Bituca do Nascimento,
cantar a nossa Travessia, que abria todos os horizontes para nós.
No meio de todo esse
rodopio temporal e geográfico, a memória me leva e traz pelos caminhos de minha
existência. Não me lembro como começou nem sei como se encerrará. Mas aprendi
muito, disso tenho certeza. Quando olho para os que me cercam, a vontade que
tenho é de gritar ao mundo que é com afeto, compreensão, carinho que seremos
saudáveis parceiros na construção de um mundo mais justo.
A consciência de que
podemos conviver em harmonia e a sede de beleza que só a amizade, o amor e a
cultura podem nos ofertar me embala a fazer rodar o pião que vai encantar as
crianças do mundo.