Mostrando postagens com marcador prosa homens. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador prosa homens. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de março de 2016

(Mário Bortolotto)

Porque eu devia pegar leve. Não tenho mais idade pra fazer diferente. É só um jeito de olhar com ternura pela janela quando a tempestade se anuncia. Mas quem disse que eu sou capaz de ficar na minha quando a temperatura sobe? Eu sempre aposto comigo e perco. Tem certas pessoas no mundo que não nasceram pra ficar mocozadas. Mas mesmo assim eu quero acreditar. E então insisto e ultrapasso a linha. Já não tenho pra onde voltar. Tem gente que tem um jardim. Ou um papagaio. Ou uma tartaruga. Eu só tenho o hálito frio de um fantasma que diz que não há com o que se preocupar. Então eu não espero que me convidem. Eu furo o bloqueio. Eu não tenho esqueletos no armário. Nem um jardim esperando por mim. Ou um papagaio. Ou uma tartaruga. Eu só tenho uma ansiedade filha da puta que faz com que a minha temperatura suba. E acreditem: nesse momento não levo nenhuma vantagem. I have to dream alone.

(Mário Bortolotto)

quarta-feira, 30 de abril de 2014

O que o "Antonico" do Ismael tem a ver com Pinxinga?

Dicionário Amoroso | Alvaro Marechal

A de “Antonico”

Em maio de 1939 Ismael Silva tinha 33 anos, a idade de Cristo, e já fizera alguns milagres. Fundara a primeira escola de samba, a Deixa Falar, e havia sido um destacado compositor da chamada geração do Estácio que, 10 anos antes, fora responsável pela formatação do samba moderno, a qual perdura até hoje. A partir de 1929 tornara- se um sucesso, parceiro de Nílton Bastos e Noel Rosa, com a maioria de suas músicas gravadas por Francisco Alves, o grande cartaz do rádio na época.

Ismael também puxara cadeia — pena de cinco anos de reclusão, dos quais, por bom comportamento, só cumprira dois, no presídio da Rua Frei Caneca — por ter dado um tiro na bunda de um folgado, de nome Edu Motorneiro, que tentara estuprar sua irmã Orestina. O “tresloucado gesto”, como anotaram os jornais, deu-se à porta do Café Pauliceia, esquina das Ruas Gomes Freire e Visconde do Rio Branco, e há quem afirme que o compositor sequer acertou o tal Motorneiro. Como nos bangue-bangues, o teco passou raspando.

De qualquer forma, sua carreira degringolou. Saindo da prisão, na pior, ele procurou ajuda com Pixinguinha, que, segundo testemunhos insuspeitos, era um santo.
 Centro Cultural Banco do Brasil, traz um bilhete datilografado de Pixinguinha ao próprio Mozart escrito num misto de linguagem de repartição com rasgos de sentimentalismo. O que interessa é o trecho final: “(...) razão pela qual lembrei-me de solicitar ao velho amigo para interceder junto ao Luís Simões Lopes, a fim de conseguir uma colocação para o popular sambista, que tem lutado com dificuldade de vida. Sem mais, sendo você músico e o Luís Lopes, cantor, espero que o que puder fazer pelo Ismael seja como se fosse por mim”.

Luís Simões Lopes era um secretário do presidente Getúlio Vargas que gostava de cantar e supostamente tinha influência no meio musical. O jornalista e biógrafo Sérgio Cabral garante que Pixinguinha não escreveu o bilhete, o estilo não era o dele. E o emprego, com ou sem pistolão, jamais saiu.

A primeira gravação de “Antonico”, cuja letra repete quase integralmente um das frases do bilhete (“É necessário uma viração pro Nestor/ Que está vivendo em grande dificuldade/ Ele está mesmo dançando na corda bamba/ Ele é aquele que na escola de samba/ Toca cuíca, toca surdo e tamborim/ Faça por ele como se fosse por mim”), foi realizada em 1950 por Alcides Gerardi. Entre outros, há registros de Elza Soares e Gal Costa, bem melhores que o de Gerardi.

É um marco na linha evolutiva do samba, uma peça intimista feita pelo mesmo compositor que havia começado a grande revolução no gênero no fim dos anos 1920 e início dos 1930. Note-se que toda vez que Caetano Veloso — que sugeriu a Gal que gravasse a música — comete um samba há ecos de “Antonico” nele.

No desvio, mas vaidoso e elegante, fazendo questão de andar de terno, gravata e sapato de bico fino bicolor, morando quase de favor numa pensão “para rapazes” da Rua Gomes Freire, no velho Centro do Rio, Ismael Silva — que antes de morrer, em 1978, gozou de certo reconhecimento, por ter sido praticamente o único da turma do Estácio que sobreviveu para contar sua versão dos fatos — negou sempre a hipótese autobiográfica, afirmando, em diversas entrevistas, que nada que compunha tinha a ver com a vida dele. Nunca existiu Antonico nem Nestor nem viração, garantia.

Mas há coincidências demais entre bilhete e samba. Teria o compositor olhado por cima do ombro de quem de fato escreveu o texto no qual está expresso o desesperado pedido de ajuda?


 http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=618

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A solidão do vasto mundo




Por Luis Estrela de Matos

Não sei quantas faces tem um poeta, mas sei quantos poemas têm numa faca. Eu sei. E João Cabral também sabe. Sei que os poemas são misteriosos e exibem estranhas faces aos leitores, avisados e desavisados. Distraídos, venceremos, dizia o Leminski mais sabreamente zen. Há que aguçar, há que cortar. Quem nunca se cortou com a verdade não sabe a verdade do sangue. Mas as faces me espreitam, me vigiam, e realmente precisarei de um anjo torto, completamente torto, vivendo na sombra e em silêncio, pensando um vermelho de Gogh, tão completamente vermelho, que chega a ser vão. Há que se ser vão no desvão da matéria. Mas Drummond queria uma tarde azul, embora soubesse que os desejos são rubros. E os bondes e as pernas passam diante de olhos brancos, pretos e amarelos e no meio de tudo Deus, e pernas e a pergunta Dele no meio de tudo, inclusive, sim, meu atento leitor, no meio do caminho e das pedras. O coração de um poeta sempre pergunta e os versos costumam ser dolorosas dúvidas, rimantes ou destoantes, ou até concretamente materiais. Os olhos não perguntam mais nada e Deus não olha mais as pernas ao entreolhar o homem que nelas se esqueceu entreolhando o vasto mundo de Raimundo sozinho, sozinho como o mundo em forma de coração, de um coração a nu, de uma vontade de lua em forma de conhaque, deixando o Diabo mais comovido em sua suspeita. Eu não devia te dizer mas hoje é domingo e não haverá FAUSTO; haverá outra coisa. Livre-se dela pois um poema precisa ter 7 faces. Quantas você tem?
PS: conversa imaginária com o poema de sete faces, de Drummond.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

“NÓIS MUDEMO”


“NÓIS MUDEMO”

Fidêncio Bogo

Ônibus da Transbrasiliana deslizava manso pela Belém-Brasilia rumo ao Porto Nacional.
Era abril, mês das derradeiras chuvas. No céu, uma luzona enorme pra namorado nenhum botar defeito. Sob o luar generoso, o cerrado verdejante era um presépio, todo poesia e misticismo.

As aulas tinham começado numa segunda-feira. Escola de periferia, classes heterogêneas, retardatários. Entre eles, uma criança crescida, quase um rapaz.

- Por que você faltou esses dias todos?
- É que nóis mudemo onti, fessora. Nóis veio da fazenda.
Risadinhas da turma.
- Não se diz “nóis mudemo” menino! A gente deve dizer: nós mudamos, ta?
- Tá fessora!
No recreio as chacotas dos colegas: Oi, nóis mudemo! Até amanhã, nóis mudemo!
No dia seguinte, a mesma coisa: risadinhas, cochichos, gozações.
- Pai, não vô mais pra escola!
- Oxente! Módi quê?
Ouvida a história, o pai coçou a cabeça e disse:
- Meu fio, num deixa a escola por uma bobagem dessa! Não liga pras gozações da mininada!
Logo eles esquece.
Não esqueceram.
Na quarta-feira, dei pela falta do menino. Ele não apareceu no resto da semana, nem na segunda-feira seguinte. Aí me dei conta de que eu nem sabia o nome dele. Procurei no diário de classe e soube que se chamava Lúcio – Lúcio Rodrigues Barbosa. Achei o endereço.
Longe, um dos últimos casebres do bairro. Fui lá, uma tarde. O rapaz tinha partido no dia anterior para casa de um tio, no sul do Pará.
-É, professora, meu tio não agüentou as gozações da mininada. Eu tentei fazê ele continuá, mas não teve jeito. Ele tava chateado demais. Bosta de vida! Eu devia di tê ficado na fazenda coa famia. Na cidade nóis não tem veis. Nóis fala tudo errado.
Inexperiente, confusa, sem saber o que dizer. Engoli em seco e me despedi.

O episódio ocorrera há dezessete anos e tinha caído em total esquecimento, ao menos de minha parte.
Uma tarde, um povoado à beira da Belém-Brasília, eu ia pegar o ônibus, quando alguém me chamou.
Olhei e vi, acenando para mim, um rapaz pobremente vestido, magro, com aparência doentia.
-O que é, moço?
-A senhora não se lembra de mim, fessora?
Olhei para ele, dei tratos à bola. Reconstitui num momento meus longos anos de sacerdócio, digo de magistério. Tudo escuro.
-Não me lembro não, moço. Você me conhece? De onde? Foi meu aluno? Como se chama?
Para tantas perguntas, uma resposta lacônica:
-Eu sou “Nóis mudemo”, lembra?
Comecei a tremer.
-Sim, moço. Agora lembro. Como era mesmo o seu nome?
-Lúcio – Lúcio Rodrigues Barbosa.
- 0 que aconteceu? Ah! Fessora! É mais fácil dizê o que não aconteceu. Comi o pão que o diabo amasso. E êta diabo bom de padaria! Fui garimpeiro. Fui bóia-fria, um “gato” me arrecadou e levou num caminhão pruma fazenda no meio da mata. Lá trabaiei como escravo, passaei fome, fui baleado quando conseguir fugi. Peguei tudo quando é doença. Até na cadeia já fui pará. Nóis ignorante as veis fais coisa sem querê fazê. A escola fais uma farta danada. Eu não devia tê saído da quele jeito, fessora, mais não agüentei as gozação da turma. Eu vi logo que nunca ia consegui falá direito. Ainda hoje não sei.
-Meu Deus!
Aquela revelação me virou pelo avesso. Foi demais para mim. Descontrolada, comecei a soluçar convulsivamente. Como eu podia ter sido tão burra e má? E abracei o rapaz, o que restava do rapaz que me olhava ataratado.
O ônibus buzinou com insistência.
- O rapaz afastou-me se si suavemente.
- Chora não, fessora! A senhora não tem curpa.
Como? Eu não tenho culpa? Deus do céu!
Entrei no ônibus apinhado. Cem olhos eram cem flexas vingadoras apontadas para mim. O ônibus partiu. Pensei na minha sala de aula. Eu era uma assassina a caminho da guilhotina.

Hoje tenho raiva da gramática. Eu mudo, tu mudas, ele muda, nós mudamos... Super usada, mal usada, abusada, ela é uma guilhotina dentro da escola. A gramática faz gato e sapato da língua materna, a língua que a criança aprendeu com seus país e irmãos e colegas – e se torna o terror dos alunos. Em vez de estimular e fazer crescer, comunicando, ela reprime e oprime, cobrando centenas de regrinhas estúpidas para aquela idade.
E os lúcios da vida, os milhares lúcos da periferia e do interior, barrados nas salas de aula:
“Não é assim que se diz, menino!” Como se o professor quisesse dizer: “Você está errado! Os seus país estão errados! Seus irmãos e amigos e vizinhos estão errados! A certa sou eu! Imite-me!
Copie-me! Fale como eu! Você não seja você! Renegue suas raízes! Diminua-se ! Desfigure-se! Fique no seu lugar!
Seja uma sombra!”
E siga desarmado para o matadouro da vida...

sábado, 27 de março de 2010

Elias Canetti


"Dentre as coisas mais importantes que urdem dentro de nós estão os encontros adiados – trate-se de lugares ou de pessoas, de quadros ou de livros. Existem cidades pelas quais anseio tanto, que é como se estivesse, desde o início, predestinado a passar nelas toda uma vida. Usando uma centena de subterfúgios, evito ir até elas, e cada nova oportunidade de uma visita que se me apresenta intensifica em mim de tal maneira a sua importância, que se poderia pensar que só por elas ainda estou neste mundo, que, se não fosse por elas sempre a me esperar, eu teria já de há muito perecido. Existem pessoas sobre as quais gosto que me falem, tanto e com tanta avidez que se poderia pensar que, afinal, sei mais delas que elas próprias. Contudo, evito ver-lhes um retrato, esquivo-me de qualquer imagem visual, como se pesasse uma pesada e justa interdição sobre o conhecer-lhes o rosto.
Há, também, pessoas que durante anos encontro ao passar por um mesmo caminho, sobre as quais reflito – pessoas que se me apresentam como enigmas que me são dados a desvendar – e às quais não dirijo palavra: passo mudo por elas, como elas por mim; olhamo-nos com um ar inquiridor, mantendo os lábios solidamente selados. Fico imaginando uma primeira conversa e excita-me a idéia de todas as coisas inesperadas que ela reserva para mim.
Por fim, existem pessoas que amo há anos, sem que elas possam suspeitar disso. Envelheço, torno-me cada vez mais velho, e deve certamente parecer uma ilusão absurda a idéia de que algum dia eu venha falar-lhes de meu amor, ainda que, na imaginação, viva continuamente da expectativa desse momento divino. Sem esses meticulosos preparativos para o futuro, eu não poderia existir: eles são para mim, se perscruto a mim mesmo com rigor, não menos importantes do que as surpresas repentinas que surgem como que do nada e nos subjugam de imediato." (Elias Canetti, O Jogo dos Olhos (História de uma vida/ 1931-1937)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Matéria de poesia


"Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para poesia.

O homem que possui um pente e uma árvore serve para a poesia. Terreno de 10 por 20, sujo de mato, e os detritos que nele gorjeiam, como, por exemplo, latas, servem para poesia.

As coisas que levam a nada têm grande importância. Cada coisa ordinária é um elemento de estima; cada coisa sem préstimo tem seu lugar na poesia.

As coisas que não pretendem, como, por exemplo, pedras que cheiram água, homens que atravessam períodos de árvore, se prestam para poesia. Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma e que você não pode vender no mercado, como, por exemplo, o coração verde dos pássaros, serve para poesia.

Os loucos de água e estandarte servem demais para a poesia.

O traste é ótimo, o pobre-diabo é colosso. As pessoas desimportantes dão para a poesia.

Qualquer pessoa ou escada, o que é bom para o lixo é bom para a poesia. As coisas jogadas fora têm grande importância. Um homem jogado fora também é objeto de poesia. Aliás, saber qual o período médio que um homem jogado fora pode permanecer na terra sem nascerem em sua boca as raízes da escória também dá poesia!

Tudo aquilo que a nossa civilização rejeita, pisa e mija em cima, serve para poesia."
(Manuel de Barros)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Uma crônica de Bruno Ribeiro


Tenho vontade de guardar meus amigos num frasco. De tê-los à mão para conversar deliberadamente. E sinto a necessidade de aprisionar o tempo - não para que ele não passe, mas para que retenha certos sentimentos que deveriam ser eternos. Certos bares nunca poderiam fechar suas portas e certas mulheres não deixariam de nos olhar com olhos de criança diante de um brinquedo novo. Eu tenho muitos sonhos impossíveis - na política, sobretudo, por conta da teimosia e da inesgotável esperança no futuro. Mas dos sonhos mais singelos que tenho, o mais querido é juntar numa festa todas as pessoas que amo ou amei: meus amigos, minhas mulheres, os escritores que fizeram minha cabeça, os jogadores de futebol inesquecíveis, os músicos e os compositores, os mendigos da minha infância, os cachorros que já morreram, os guerrilheiros do Araguaia, os donos dos bares onde afoguei as mágoas ou celebrei qualquer coisa. Todos estaríamos ao redor de uma mesa forrada com as comidas que eu gosto - rabada com angu e agrião, feijoada, torta de palmito, sardinha portuguesa à escabeche, bife à cavalo com fritas - e haveria uma grande confraternização e não faltaria cerveja, uísque e cachaça para ninguém. E aí, quando fosse domingo, depois de dois dias de extrema felicidade, eu morreria. Eu morreria numa cama imensa e macia, rodeado por todas as pessoas que amo ou amei. E, se não fosse pedir demais, haveria uma orquestra no telhado e ela executaria primeiro a A Cavalaria Rusticana e depois a Internacional Socialista e eu, fisgando um decote, diria alguma gracinha para uma ex-namorada, fecharia os olhos e pronto. Aí, como João Amazonas, pediria que minhas cinzas fossem jogadas no Araguaia, onde tombaram os companheiros. Só que no caminho alguém mudaria de idéia e me jogaria no rio Maracanã, onde minhas cinzas encontrariam as do Fernando Toledo e as cinzas dele perguntariam para as minhas: "E aí, como estão as coisas por lá? Continuam a mesma bosta?". E as minhas cinzas responderiam insolentes: "É, estão do mesmo jeito. Mas até que dá para o gasto, viu? Você faz falta, mano.." E então nossas cinzas entrariam pelo buraco de um encanamento qualquer e se juntariam no esgoto e, tal como na vida, faríamos parte da mesma merda. Sei lá, às vezes eu penso que só valeria a pena viver se fosse assim. E morrer também, o que acaba sendo quase a mesma coisa.
__________________________________________________

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Data de vencimento


Há alguns dias eu compartilhava uma mesa de bar com dois amigos. Um deles estava bem, como pareceu estar sempre bem ao longo de todos estes anos que a gente se conhece. O outro estava um caco. Tinha acabado um namoro de quase um ano, chorava na nossa frente e dizia ter certeza de que aquela mulher de quem ele começava agora a se afastar era a mulher da vida dele. Eu nunca sei bem o que dizer diante de alguém que chora. É como se as lágrimas brotassem de algum lugar aonde as palavras não chegam. Eu prestava muita atenção ao que o amigo dizia, tentava compreender sua dor e, por algum motivo qualquer, achava que ele tinha razão. Naquele momento – e ainda que aquele momento não viesse a durar para sempre – a mulher por quem ele chorava era mesmo a mulher da vida dele.

O outro amigo, cuja praticidade eu sempre invejei, ouvia tudo calado como eu, movimentando apenas o braço direito, que levava o copo de chope até a boca. Então, quando o desabafo do nosso amigo triste parecia ter chegado ao fim, ele pediu a palavra para dar seu surpreendente diagnóstico – que depois eu cheguei a me perguntar se seria sempre este o diagnóstico masculino.

- Chore mesmo – disse o amigo prático. - Chore e esperneie tudo o que você tem de espernear. Sofra, pragueje, vá ao fundo da sua dor. Mas calcule um tempo exato para este sofrimento: um mês, a contar de hoje. Daqui a um mês você deve se levantar, olhar para o espelho e dizer: agora acabou. Vou partir para outra porque esta dor ficou antiga. Chega de sofrer por isso.

Eu, que já estava quieto, resolvi me calar ainda mais, na tentativa de acreditar que fosse possível estipular um prazo para o fim da dor. Depois pensei muito no que tem sido a vida deste amigo prático durante todos esses anos que o conheço. E tive de admitir que ele sempre seguiu à risca seu próprio conselho. Não importava o tamanho do amor ou do luto, do prazer ou da dor: uma manhã qualquer ele levantava e decretava o fim daquilo que sentia.

Nunca acreditei que nossa supremacia sobre os sentimentos pudesse chegar a este nível. Reagir à dor é possível – mas que possível, talvez seja saudável. Quanto a dizer em que momento ela deve terminar, isso eu já não sei. Se pudéssemos controlar a dor com tanta aritmética, talvez pudéssemos fazer o mesmo em relação ao amor, à saudade e a tudo aquilo que faz de nós ser o que somos. Depois pensei se haveria teatro, literatura, cinema e música se a dor tivesse prazo de validade. Pensei em todas as peças, filmes e livros que só nasceram porque a dor e o amor fugiram totalmente do controle de algum autor. Talvez nós estejamos aqui porque um dia o amor e o desejo fugiram ao controle dos nossos pais.

E se eu soubesse que o que eu sinto agora poderia ser controlado daqui a um mês, acho que eu não seria nada e nem ninguém. Talvez um boleto bancário, talvez um calendário preso na parede, no máximo um aviso colado na porta da geladeira. Eu acho que a gente é bem mais do que isso porque a nossa dor e o nosso amor vão sobreviver mais do que um mês. Vão sobreviver a nós mesmos.
(http://roveriblog.blogspot.com/)

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A Cidade


"Podem publicar estatísticas e contar as populações às centenas de milhares, mas, para cada homem, uma cidade consiste em apenas algumas ruas, algumas casas, algumas pessoas. Removidas essas poucas coisas, essa cidade já não existe, exceto como uma saudade dolorosa, como a dor de uma perna amputada que já se foi."

Graham Greene, Nosso homem em Havana

Escova de dentes


Conheci uma jovem médica no feriado de Corpus Christi. Loira, bonita, sorriso fácil e dona de um humor difícil de ser decifrado à primeira vista, ela me foi apresentada por um amigo, também médico, na comemoração do seu aniversário em um bar da Vila Madalena. Ao ser informado de que ela fazia residência médica, automaticamente perguntei em qual especialidade. “Anatomia patológica”, ela me respondeu. “Lâminas, eu só quero lâminas na minha frente”, completou antes de dar mais um gole em seu copo de cerveja. Soube que medicina foi a terceira carreira universitária a que ela deu início – e a única que concluiu. Antes, havia estudado línguas e cinema.

Não conversei tanto assim com ela, até porque fiquei pouco no aniversário. Mas tive a chance de ouvir uma frase, uma frase longa, que agora está martelando na minha cabeça. Sem nenhum resquício de mágoa ou morbidez, ela me disse o seguinte: “Se soubéssemos como algumas coisas iriam terminar, nós não as teríamos começado”, disse antes de soltar um longo sorriso. “Se soubéssemos como algumas coisas iriam terminar, talvez não fizéssemos nada. Nem da higiene pessoal eu cuidaria, nem os dentes escovaria. Apenas ficaria quieta”.


Não é algo que se diz impunemente, pensei. E nem a qualquer um. Ela não se dirigia especificamente a mim. Jogou esta frase na mesa, em um momento oportuno, admito, mas não sei se alguém carregou a frase para casa como eu fiz. E agora não paro de pensar quais coisas eu não teria começado se eu soubesse, de antemão, como elas terminariam. Claro que neste pensamento cabem respostas radicais: a gente poderia se matar ainda no berçário alegando já saber que nosso fim é o túmulo. Mas eu prefiro uma interpretação mais sutil e mais carregada de possibilidades. Talvez o importante não seja saber como as coisas vão terminar, mas o que faremos com elas, ou o que elas farão com a gente, neste longo intervalo entre o início e o fim. Algo me diz que não são as extremidades que importam tanto neste caso, e sim o recheio. Como eu pretendo continuar escovando meus dentes, talvez seja melhor não saber como será o fim de algumas coisas nas quais me apego – ou não.


A frase me atormentou porque, de certo modo, me obrigou a uma revisão inesperada da minha vida. Algumas coisas muito boas que eu tive terminaram em dor: a dor da perda, da separação, da ausência, da incompatibilidade, do abandono, da saudade. A dor da solidão. A dor que é inerente às coisas que terminam e que foram um dia boas. E terminam porque tudo nesta vida tem de terminar – tenhamos ou não culpa ou responsabilidade pelo desfecho. Então eu me pergunto, caso fosse me dada a chance, se eu deixaria de ter vivido o que vivi em determinado momento para me safar de uma dor futura? Penso que a resposta é não. Eu não teria aberto mão dos momentos felizes que mais tarde, por um desvio qualquer que minha vida tomou, me deixaram com os olhos sem brilho. Me lembrei de um amigo que costumava dizer que não acreditava nos momentos felizes prometidos pelas drogas. “A gente tem de fazer por merecer a felicidade”, ele me dizia. “A felicidade, além de não nos chegar sem luta, custa muito mais caro do que um papelote de cocaína”, ele me ensinou.

Penso que as coisas boas são boas em sua essência, e não deixam de ser boas porque em algum momento não podemos mais contar com elas. Quem sabe este seja o princípio da saudade, não sei. Prefiro seguir sem saber o que me aguarda e mesmo hoje, especificamente hoje, quando estou sendo mais movido pela saudade que pelo prazer, quero continuar escovando meus dentes direitinho. Uma hora dessas, mais cedo do que a gente imagina, a gente volta a sorrir. A sorrir do inesperado, do imprevisto e do acaso. A sorrir justamente porque a gente não sabe como as coisas vão terminar. (http://roveriblog.blogspot.com/)