terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Manoel de Barros

O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS

Manoel de Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras fatigadas de informar.
Dou mais respeito às que vivem
de barriga no chão tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos como as boas moscas.
Queria que minha voz tivesse um formato de canto.
Por que eu não sou da informática:
Eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

domingo, 22 de dezembro de 2013

A Paciência e seus limites

A Paciência e seus limites


Dá a entender que me ama,
mas não se declara.
Fica mastigando grama,
rodando no dedo sua penca de chaves,
como qualquer bobo.
Não me engana a desculpa amarela:
‘Quero discutir minha lírica com você’.
Que enfado! Desembucha, homem,
tenho outro pretendente
e mais vale para mim vê-lo cuspir no rio
que esse seu verso doente.

Adélia Prado

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Guillaume Apollinaire

A PONTE MIRABEAU
Sob a ponte Mirabeau corre o Sena
E nosso amor
É preciso trazê-lo à cena
A alegria vinha sempre após a pena
Venha a noite, soe a hora
Os dias se vão, não vou embora
De mãos dadas ficamos face a face
Enquanto que sob
A ponte dos nossos braços passa
Eternos olhares a onda tão lassa
Venha a noite, soe a hora
Os dias se vão, não vou embora
O amor se vai como água corrente
O amor se vai
Como a vida é lenta
Como a Esperança é violenta
Venha a noite, soe a hora
Os dias se vão, não vou embora
Passam os dias e as semanas
Nem o tempo passado
Nem o amor acena
Sob a Ponte Mirabeau flui o Sena
Venha a noite, soe a hora
Os dias se vão, não vou embora

Guillaume Apollinaire
Tradução: Virna Teixeira

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

ESPELHO

ESPELHO
 
Sylvia Plath
       Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício A. Mendonça

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro —
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, malhada. Há tanto tempo olho para ele
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele
[ falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.


Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça
[ sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem
[ verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um
[ peixe terrível.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Perfomarce

 
Performance

Não é só para apaziguar
as guerras
é para mudar de rosto, de roupa
de corpo
fraturar-se, quebrar-se
transformar-se
ser despedida e raiz
espanto
Não é só para cantar
é para mudar de ângulo
de geografia
como as nuvens mudam de forma
também mudamos de olhos e cílios
de hábitos e de lábios
 
Iracema Macedo

 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

setembro

setembro
Nunca mais será setembro,
nunca mais a tua voz dizendo
nunca mais, eu lembro,
nunca mais, eu não esqueço,
a pele, nunca mais,
o teu olhar quebrado,
dividido, vou esquecê-lo,
é o que digo, nunca mais
a minha mão no teu sorriso,
a tua voz cantando,
vou apagá-la para sempre,
e nossos dias, setembro, lembro
bem, dentro a tua voz dizendo não
( ouço ainda agora ), como se quebrasse
um copo, mil copos, contra o muro.
Rasgarei o que não houve, o que seria,
mesmo que tudo em mim me diga não
( e diz ), mas é preciso.
Como não se pensa mais um pensamento,
quero, prometo:
nunca mais será setembro.
( eucanaã ferraz )

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Praça da república dos meus sonhos - Roberto Piva

Praça da república dos meus sonhos - Roberto Piva


A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde Garcia Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa



Roberto Piva nasceu em São Paulo no dia 25 de setembro de 1937. Poeta ligado aos marginais dos anos 60, esteve na Antologia dos Novíssimos de Massao Ohno em 1961 e em 26 poetas hoje de Heloisa Buarque de Holanda. Foi professor na rede de ensino público, produtor de shows de rock e é um dos três únicos poetas brasileiros a ser citado no Dicionário Geral do Surrealismo publicado na França.


http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/11/18/praca-da-republica-dos-meus-sonhos-roberto-piva-515029.asp