terça-feira, 19 de agosto de 2014

ESPANTALHO DESCARADO

ESPANTALHO DESCARADO
– para Fabio Henriques


ando assim
tipo um erro flácido ambulante
sem êxito, hesitante
disco riscado
fora de catálogo
no pó do instante
ando assim oco, uma crosta
vodu cansado que com a sorte
nem mais dialoga – diamante
ando assim sem linguagem
sem faro, espantalho fora de foco
ando assim
mais opaco que olímpico
esquivo, íntimo, insípido
um mastodonte pensando
desamparado
aspirando a paralelepípedo
ando assim meio buster keaton
um tanto de lágrima hasteando o riso
ando assim raso
indiferente
me divertindo um bocado
eu ando mijando no poste
porque o banheiro
está sempre lotado

Marcelo Montenegro
[in "Orfanato Portátil", AtritoArt, PR, 2003 - Annablume, SP, 2012]

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

RESTOS DE ESTÚDIO

RESTOS DE ESTÚDIO

Cada cigarro fumado na madrugada fria do posto
de uma cidadezinha absurda qualquer
durante a parada do ônibus.
Quantas imagens apodrecidas
na garganta seca das descrições,
canções que não chegaram a tempo.

Quantos dentes pintados de preto
nos retratos sérios dos livros de História,
tanto amor que virou desespero.
Cada silêncio perdido no grito,
tantos cacos de vidro em cima dos muros,
como se eu mesmo os tivesse escrito.

Quantos versos criados a bordo e não anotados,
tanto rancor latejando
na mudez de socos não redigidos,
tanta fita cassete e as gargalhadas
de todos os loucos
espanando o sublime do mundo.
Quantas giletes cuspidas de um pulso,

tanto caderno novo começado,
quantas falas roubadas de amigos,
tantos pântanos não soletrados.
Quanta inocência colhida em varandas de abismos
que eu carrego comigo
como um tesouro afundado.

Marcelo Montenegro
[in "Garagem Lírica", Annablume, SP, 2012]

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Ana Paula Oliveira.

Deixou o raio
o quarto
o risco

e se foi com a dança
de apanhar gravetos

Deixou o raio
o quarto
o risco

E esse vício tão sublime
de brincar de abismos.

Ana Paula Oliveira.

terça-feira, 15 de julho de 2014

A Boa Manhã*

Apenas passo os olhos pelos jornais; jogo-os fora, alegremente, porque eles pretendem dar-me notícia de muitos problemas, e eu não tenho nem quero problema nenhum.

Acordei um pouco tarde, abri todas as janelas para o sábado louro e azul, e o mar me deu bom-dia. Passa um pequeno barco branco no mar de safira: como vai ligeiro, como vai contente, com seu bigodinho de espumas brilhantes! Uma ave se detém um instante peneirando, depois mergulha na vertical em grande estilo; quando volta, um pequeno peixe brilha em seu bico.

Chupo uma laranja, e isto me dá prazer. Estou contente. Estou contente da maneira mais simples – porque tomei banho e me sinto limpo, porque meus braços e pernas e pulmões funcionam bem; porque estou começando a ficar com fome e tenho comida quente para comer, água fresca para beber.

Nenhuma tristeza do mundo nem de meu passado me pega neste momento. Tenho prazer em ver que a Ilha Rasa está lá direitinha, em seu lugar, com o farol branco. Vejo ao longe, saindo da praia, dois amigos; estão conversando e rindo. Tomaram seu banho de mar, vão almoçar; estou contente porque os amigos vão bem e suas mulheres esperam crianças. Saúde e prosperidade! Estou contente porque recebi uma boa notícia. Nada de extraordinário, mas uma notícia muito simpática.

Sei que o mundo está cheio de horríveis problemas – e eu mesmo, pensando bem, tenho alguns bem chatos. Mas não estou pensando neles; estou vivendo nesta fresca manhã um momento de bem-estar, de felicidade.

Ora, considerando que a felicidade é uma suave falta de assunto, eu me despeço de todos com um cordial bom-dia e vou almoçar. Não quero contar prosa, mas tenho arroz, feijão, carne, alface, laranja, pão, tudo o que um ser humano necessita para viver bem.

Um velho amigo vem honrar a minha mesa; falaremos com simpatia das mulheres bonitas desta formosa capital. Conversa de brasileiros! Bom dia, passem bem todos com suas mulheres, com seus amigos, com suas amantes também.




(*) In, Rubem Braga. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Record, 2004, p. 118


segunda-feira, 7 de julho de 2014

Marcelo Montenegro

AURÉOLAS EM LATAS DE BISCOITO

Comprar jornal na esquina e na volta
conferir a caixa postal telefônica. Morder o
ponto do dente onde já se sabe que a dor
dói com exatidão. Guardar dinheiro antigo
na carteira. Olhar as lombadas dos livros
numa estante desconhecida à espera de
alguém. Errar as medidas do café fora de
casa. Estar perto de perceber alguma
coisa. Encantar-se com parques de
diversão desativados. Pisar de meia no
quintal molhado pela chuva de ontem.

Marcelo Montenegro
[in "Garagem Lírica", Annablume, SP, 2012]

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Alice SantAnna

eu sabia
que mesmo depois que me
despedisse e fechasse
a porta

e descesse todos
os degraus troteando
a escada em espiral

e entrasse no táxi, boa-noite
siga reto, por favor, à
direita, o troco, obrigada
e acenasse para o porteiro

mesmo depois que eu apertasse
o botão do elevador, procurando
o chaveiro na bolsa

abrisse a porta de casa
tirasse os sapatos, os brincos
escovasse os dentes, os cabelos

mesmo depois que eu
dormisse e sonhasse e até a hora
em que acordasse, você ainda estaria

com os olhos
presos
à porta.