quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Nighthawks

Nighthawks

"Ficou olhando o quadro de Edward Hopper ali na sua frente, Night life e descobriu pasmada que nunca esse quadro teve tanta significação como nessa noite. O limpo e banal café de esquina de uma rua vazia de Nova York, o café quase vazio (só três pessoas no balcão) com o empregado de uniforme branco-azulado lavando coisas debaixo da torneira, xícaras? A longa fila dos banquinhos vazios contornando o balcão, tudo visto do lado de fora, através da comprida vitrine de vidro. O silêncio sem moscas. O vidro sem poeira.
E esse quadro estranhíssimo de um café noturno em alguma esquina de algum beco em Nova York. Havia vermelho mas nesse café até a cor vermelha era fria. A solidão medíocre."

Telles, Lygia Fagundes - As Horas Nuas

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A poesia

A poesia

Houve um tempo
em que Schmidt e Vinicius
dividiam as preferências 
como maior poeta do Brasil 
Quando por unanimidade ou quase
nesse jogo tolo
de se querer medir tudo
Drummond foi o escolhido
ele comentou
alguém já me mediu
com fita métrica
para saber se de fato sou
o maior poeta ?

Estava certo
Pois a poesia
quando ocorre
tem mesmo a perfeição
do metro –
nem o mais
nem o menos
– só que de um metro nenhum
um metro ninguém
um metro de nadas

( Francisco Alvim )

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Fruta Pao

FRUTA-PÃO

Para Leo Ventura

Minha madeleine
É a memória dessa fruta
Nas beiras litoral
Entre os coqueiros e a brisa
O cheiro de sol na areia
Os movimentos livres da infância
Os agitos soltos da juventude
O amor ancorado na pulsação quieta
A poesia inscrita no sabor

João Batista de Morais Neto

domingo, 26 de julho de 2015

Regis Bonvicini

NOTÍCIA DA SÍRIA
Um garoto libanês
camiseta verde-lunar
"I'm so keen on being looked at"
bermuda cinza
arranha palavras em português
seu irmão mais novo com uma cara meio sinistra
buraco entre os dentes incisivos de cima
a dez passos da mesquita
muro alto, largo, relevo áspero,
Soueid Têxtil
um tapume de zinco, tinta descascada
a porta de ferro e vidro em pé sem a casa
uma cadeira de escritório de aço tubular, vazia,
estofado de espuma e napa, rasgado
do lado de fora de uma casa
caindo aos pedaços
uma garota enverga um véu rosa claro
cabeça baixa
vestido preto longo
passa
um palestino,
de um campo de refugiados na Síria,
Aka,
o confisco total de víveres
imposto pela ditadura de Al-Assad
garotos comendo grama
bombardeios
um hibisco esguio sobre a marquise
agora trabalha no açougue e comida halal
de um sunita de Trípoli
cozinheiro, garçom, faz-tudo
em troca de cama e comida
e aqui de novo os fuzis
um ilegal metralhado ontem à noite na esquina
barraca "Envío dinero"
ao meio-dia se volta para Meca na calçada
cruzes enfiadas nas bocas das meninas
sem falar português
um garoto negro passa
carregando um manequim

domingo, 19 de julho de 2015

JANELA POÉTICA (III

JANELA POÉTICA (III)


Marize Castro


às margens de mim
o desejo é o mesmo

ir para nenhum lugar
correr para dentro

talvez voar



(A poeta Marize Castro nasceu em Natal. Editora e jornalista, é autora dos livros de poesia “Marrons Crepons Marfins” (1984), “Rito” (1993), “Poço.Festim.Mosaico”(1996), “Esperado Ouro” (2005), “Lábios-espelhos” (2009) e “Habitar Teu Nome” (2011). “Em seus versos há algo de fundamental, algo entre o belo e o verum, a verdade em beleza, um cuidado especial com a síntese, um encontro com a poesia” – afirma Haroldo de Campos)

domingo, 10 de maio de 2015

Marize Castro

AVISO

É perigoso, menina,
sair de casa
sem seu guarda-chuva
perolado
sem seu fogo mortífero
sem seu sexo
sempre aberto
aos apelos
do mundo.
É perigoso, menina,
se deixar para trás,
subir até a mais alta montanha
e de lá não se jogar.
É perigoso, menina,
(muito perigoso)
não parar de buscar
o paraíso
e se lambuzar de prazeres
alheios.
É perigoso, menina,
beijar a boca
de alguém tão mais velho
e se perder assim:
não mais saber
onde reside
a primeira luminância
a última escuridão.
É perigoso, menina,
acreditar na memória,
jogar-se de tal altura
inflar-se de clichês
quebrar suas tão jovens
asas

e não cair.

É perigoso, menina,
proteger-se e se armar demais
querer o outro, ser o outro
– habitar o inabitável.


Marize Castro

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Dylan Thomas

Não entres docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.
No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,...
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis ações ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.
E os loucos que colheram e cantaram o vôo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.
Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.
E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.
Dylan Thomas
Tradução: Fernando Guimarães
Ouvir aqui uma leitura do autor do poema:
 
 
 
Os créditos são de Carlão.Foi do facebook dele q pesquei.