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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Nighthawks

Nighthawks

"Ficou olhando o quadro de Edward Hopper ali na sua frente, Night life e descobriu pasmada que nunca esse quadro teve tanta significação como nessa noite. O limpo e banal café de esquina de uma rua vazia de Nova York, o café quase vazio (só três pessoas no balcão) com o empregado de uniforme branco-azulado lavando coisas debaixo da torneira, xícaras? A longa fila dos banquinhos vazios contornando o balcão, tudo visto do lado de fora, através da comprida vitrine de vidro. O silêncio sem moscas. O vidro sem poeira.
E esse quadro estranhíssimo de um café noturno em alguma esquina de algum beco em Nova York. Havia vermelho mas nesse café até a cor vermelha era fria. A solidão medíocre."

Telles, Lygia Fagundes - As Horas Nuas

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

ROBERTO BOLAÑO

“Se tivesse que assaltar o banco mais vigiado da Europa e pudesse eleger livremente meus companheiros de malfeitorias, sem dúvida escolheria um grupo de cinco poetas. Cinco poetas verdadeiros, apolíneos ou dionisíacos, tanto faz, mas verdadeiros, quer dizer, com um destino de poetas e com uma vida de poetas. Não há ninguém no mundo mais valente que eles. Não há ninguém no mundo que encare o desastre com maior dignidade e lucidez. São, em aparência, débeis, leitores de Guido Cavalcanti e de Arnaut Daniel, leitores do desertor Arquíloco que atravessou um campo de ossos, e trabalham no vazio da palavra, como astronautas perdidos em planetas sem saída possível, num deserto onde não há leitores nem editores, só construções verbais ou canções idiotas cantadas não por homens mas por fantasmas. No grêmio dos escritores são a joia maior e menos cobiçada. Quando um enlouquecido jovem de dezesseis ou dezessete anos decide ser poeta, é desastre familiar com certeza. Judeu homossexual, meio negro, meio bolchevique, a Sibéria do seu desterro só cobre de opróbio também sua família: os leitores de Baudelaire não se dão bem no ensino médio, nem com seus companheiros de classe nem muito menos com seus professores. Sua fragilidade, no entanto, é enganosa. Também seu humor e as manifestações caprichosas do seu amor. Por trás dessas sombras vagas se encontram talvez os tipos mais duros do mundo e seguramente os mais valentes. Não por nada descendem de Orfeu, que marcava a cadência de remo dos Argonautas e que desceu ao inferno e voltou a subir, menos vivo que antes da façanha, mas vivo ao fim e ao cabo. Se tivesse que assaltar o banco mais protegido da América, no meu bando só haveria poetas. O assalto terminaria, provavelmente, de forma desastrosa, mas seria bonito.”

ROBERTO BOLAÑO, 1999

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Clarissa Corrêa

"Quem é feliz não conta, não espalha, não grita aos quatro cantos. Quem é feliz, satisfaze-se por ser. E sabe que felicidade anda coladinha na inveja. Quem é feliz não precisa provar nada, simplesmente é. As pessoas felizes demais nunca me passaram confiança. Essa coisa de que a vida é uma festa e não existe nada errado, não me brilha aos olhos. Feliz é quem conhece o lado ruim e o respeita. Feliz é quem já foi infeliz. Somente quem já foi infeliz pode entender que a tristeza traz um punhado muito bom de aprendizados. Felicidade não é sobre quem grita mais alto; é sobre quem sorri mais fundo."

Clarissa Corrêa

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Guia de Tê para Ivan


Guia de Tê ao escrever esse belíssimo texto pra Ivan,cutucou nossas saudades,trouxe a tona uma época em que dançavamos ao som de Renato e ouvíamos Roberto Carlos .Como é doloroso dar adeus a um amigo que faz parte da nossa história de vida e parte precocemente!

Amigo Ivan resolvi ligar o som e ouvir Renato e seus Blues Caps. Poderia ser o nosso Rei Roberto, ou tantos outros ídolos e artistas, da saudosa jovem guarda naquele nosso pequeno grande mundo juventude e vida tão intensa. Não se esse nosso primeiro contato à distância seria o mais apropriado para o momento, mas a noticia de sua passagem me pegou de surpresa, e de repente a emoção mais imediata foi a da minha pré- adolescência apaixonada diante do seu primeiro sonho de amor – você. Como me deleitava com a ilusão de que ao ouvir ‘menina linda’, essa menina poderia ser eu, até compreender a minha natural fantasia e entender que teria esse marco de beleza na minha história e que você seria meu eterno amor fraterno. Crescemos juntos e nossa amizade de vizinhos e primos foi de irmãos. Estou de luto amigo, porque perdi o tempo que previa para nosso reencontro em Nova Palmeira como antigamente, e, certamente iríamos falar da experiência de pais e avos e tantas outras coisas nossas que só verdadeiros amigos falam. Estou acometida de uma urgência de expressão verbal, como se as palavras o fizessem parar para ouvir, olhar para trás e dar um tempo nesta viagem e assim, todos nós de Nova Palmeira que amamos você teríamos tempo de atualizar nossas histórias de vida e aprendizagens. Lembra amigo, das nossas férias? Você vinha de Campina Grande com seus irmãos e amigos, dos “assustados” na grande sala da sua casa, do amplificador a tocar e na moda daquela época passeávamos na calçada a flertar encantadas. Mas eu já falei tanto Ivan e de repente, entendo que você ainda está indo e que vai levando em sua bagagem de experiências vividas e aprendizagens, todo calor e sabor daquele nosso tempo de amizade verdadeira e convívio jovial, na nossa velha e amada Nova Palmeira. Segue em paz amigo, leva consigo nossa amizade, leva o alto astral de Ceiça, o canto das irmãs Marizinha, Guia e Maluza, e tantas outras jovens que povoavam e enriqueciam esse convívio de sonho e melodia. Leva a alegria dos banhos de chuva quando ainda crianças, ficávamos feito bonecos parados de cara pra cima e boca aberta a sorver as gotículas d’água a escorrer no nosso rosto. Essas recordações “são uma brasa, mora”. Sorria amigo, porque seu sorriso aberto e de alma será a imagem mais nítida que o materializará na nossa memória. Amanhã vou olhar o céu e vou procurar uma nova estrela palmeirense entre tantas estrelas amadas de cada um de nós, estrelas inesquecíveis que tanto iluminaram enquanto relíquias de amor em nossas vidas. Abrace a todos e leve noticias de nós. Ah, vou agora dedicar-lhe Canção da América. Adeus... Até... quando..
Guia de Tê.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Marla de Queiroz

Vai, menina. Desabotoa essa raiva, rasga essa angústia, berra tua indignação. Mas preserve seu coração deste veneno. Não intoxique seu sorriso com essa dor. Chore as lágrimas mais honestas que estiverem embargando tua voz, enrugando tua face, mas livre-se deste entrave.
Vai, menina. O mundo não magoou você, mas o egoísmo arranjou uma brecha para te atingir, reposicione-se, retome suas forças, empurre este inverno para bem longe daqui. Não vês que doer não é pecado¿ Mas abra espaço para respirar, você ainda pode dançar e crescer. Você ainda pode permanecer onde está ou desaparecer. Você pode fazer tudo o que for cura para tua tristeza. Mas não a envolva nesta tua delicadeza.

Vai, menina, grite para o vento que já doeu demais, que você quer viver agora outro momento.

Marla de Queiroz

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Marla de Queiroz

Eu me torno emocionalmente saudável quando consigo desconstruir todas as tolices sobre amores salva-vidas e jogar a ideia surreal do príncipe encantado no lixo. Eu me torno emocionalmente saudável quando acredito que namorar deve ser leve mesmo quando intenso, e divertido mesmo quando há um sério comprometimento. Eu me torno emocionalmente saudável quando o que me ocupa é a minha vida e não a reação que tenho ao comportamento alheio. Eu me torno emocionalmente saudável quando percebo que determinada história não me abrange, me deixa inadequada, fere a minha autoestima e sinto que isto é o suficiente para eu tentar ser feliz e me abrir para outras possibilidades. Eu me torno emocionalmente saudável quando escolho os meus parceiros pelo que me agregam de luz e crescimento, não pelo desafio que me trazem quando se mostram emocionalmente indisponíveis ou abertos para viverem outras relações que não a nossa. Eu me torno emocionalmente saudável quando me permito ficar sozinha até atrair um alguém que esteja disposto a trocar, desbravar paisagens juntos, que esteja inteiro no lugar que escolheu. Eu me torno emocionalmente saudável quando, estar ou não estar com alguém sexo-afetivamente, não se torna a prioridade da minha vida, mas somente um dos meus desejos. Eu me torno emocionalmente saudável quando aprendo a dar nome aos meus sentimentos: e não confundo posse com excitação, dependência com paixão, rejeição com confusão alheia...

Eu me torno emocionalmente saudável quando dou amor, não carência.

Livrai-me do que desbota a minha lucidez e da alienação de achar que a felicidade está no Outro e não em mim. Que seja assim.

Marla de Queiroz

terça-feira, 2 de julho de 2013

As outras

Fernanda que não me escute: mas quando saio andando por aí, me apaixono muitas vezes. Pode ser no caminho do trabalho, de casa, da padaria, do banco. Cho...va ou faça sol entre nuvens. Basta que as Melissinhas daquela mulher atravessem a rua em câmera lenta – o céu azula todinho, o queixo cai e ainda arrasta os olhos.
Basta que o gari dê uma sambadinha entre uma lixeira e outra. Que a vó não resista às bochechas indecentemente fofas da neta e leve o pão doce. Que o motorista do ônibus deixe o volante para ajudar o tiozinho a subir com as sacolas do mercado. Que os amigos dos tempos da brilhantina se encontrem na esquina para rir bem alto das atuais carequices.
Que o ambulante cumprimente até o sujeito que jamais compra nem alfinete pirata.

Que aquele sobrado esteja sempre no mesmo lugar, entre os dois fura-céus: a árvore esparramando sua copa sobre o quintal, o senhor de óculos grisalhos bebendo a caneca na janela do segundo andar, a mulher de vestido gordo varrendo as folhas com a mangueira, o molecote de shortinho verde correndo da água com as mãos sujas de terra e biscoito maizena.

Basta que um pingo da cena tinja a calçada, respingue nos meus pés, que o meu coração, em vez de acelerar, cameralenta – no mesmo passo daquelas Melissinhas.

Basta que, de repente, o mp3 replaye a canção que eu já tinha esquecido que um dia existiu. Que ela sirva de trilha para o beijo do casal diante dos jornais expostos na banca. Que os jornais da manhã anterior cubram o sem-teto que insiste em repetir o mesmo poema para quem vai apressado.

Que um verso se solte do asfalto.
Basta isso para que eu tropece de amores mais uma vez, e a vida – incansavelmente generosa – prove que não se contenta com a monogamia.
 
 Postado por Fábio Flora no Pasmatório – http://pasmatorio.blogspot.com.br/

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Marla de Queiroz 2




(...) Que haja alguma suavidade nos meus olhos diante do cotidiano e que eu não me emocione exageradamente com esta delicadeza. Que eu possa contemplar o mar sem que ele me afogue por completo. Que eu possa olhar o céu imenso e que isso não me aniquile por lucidez extrema. E que quando eu escrever um texto, ao ser publicado, assim, despido de qualquer revisão emocional, dotado apenas da intuição que me foi dada, que encontre a fonte precisa que agasalhe a palavra “palavra”. Que eu não viva só em caixa alta, com esses gritos que arranham silêncios e desgovernam melodias. Que eu saiba dizer sem que isso me machuque demais. Que eu saiba calar sem que isso me provoque uma tagarelice interna inquieta...

Marla de Queiroz

terça-feira, 5 de junho de 2012

Marla de Queiroz


"Feira Hippie, BH" Pintura de Jean Paulo
Não encontrei o mar revolto em Pessoa, mas vi em Hilda Hilst seu jeito destemido de ser tão obscena e obcecada. Não fui moça casadoira como Adélia Prado, eu me inseri na babilônia da lascívia de Anais Nin, entre a loucura, a delícia e a razão fantasiada. Eu quis salvar a vida de Ana C. que virou passarinho em Manoel de Barros. Estive com Clarice, Caio e Mia Couto, mas quis que Guimarães me amasse qual neblina Diadorim: faltou meu Riobaldo, um rio nosso, terra seca e a boca molhada de neologismos pra mulher amada.
(Fui quase injusta em desejar que as coisas tivessem sempre um real tamanho, que as fomes fossem saciadas sempre pelo melhor gosto, que a chuva só desabasse em tempos de matar a sede.) Tranquei meus dias ruins nas cores de um Miró aceso. Fui tão constrangedora não sendo infeliz como escritora, preferindo de qualquer maneira a incerteza da existência da verdade inteira. Se quase sucumbi num poço de tristeza, me reergo até hoje, constante e amiúde, fazendo o meu melhor_ fiz o maior que pude. Mas não me preservei: ainda sou lanhada pelos galhos de matas fechadas que são o meu altar, minha estrada.
Engulo o amargo da saudade sem fazer careta, absorvo o azedo da rejeição sem me achar menor, abro os braços para a escuridão contando estrelas, gasto cada gota de suor e sangue nas minhas entregas. E não economizo gargalhadas, mas pago o preço alto do inconveniente de viver no mundo paralelo e metafísico onde vivem as palavras.
Estive em muitas páginas. Grifei muitos parágrafos. Sorvi tantas inglórias e orgasmos e vitórias.
E estive com você além de mim. Fui burra, mas foi bom. Fui pura, mas fui tola. E toda a malícia vinda na hora inadequada me fez desconfiada por tudo, por nada.
Eu tenho um jeito enorme de amar pra sempre, mas sou desajeitada.
Eu tenho um jeito imenso de ser comovente, mas sempre concluo as histórias na hora errada.

Marla de Queiroz
 

sexta-feira, 30 de março de 2012

Cascudo por Veríssimo de Melo


Veríssimo de Melo

Eu trabalhei muitos anos no jornal A República, ficava quase vizinho à casa de Cascudo. E achava estranho, todo dia, às duas horas da tarde, ele saía de casa, paletó, gravata, chapéu, charutão no bico, sozinho, em direção à Ribeira. O que é que Cascudo vai fazer todos os dias, duas horas da tarde, lá pra Ribeira, bairro comercial nosso? Um dia vou seguir Cascudo, pra saber o que faz.
Certo dia eu o segui. Ele atravessou a rua Doutor Barata, conversando com um com outro, abraçando um e outro, finalmente dobrou a avenida Tavares de Lyra e entrou num barzinho, um barzinho vagabundo. Eu tive até certo acanhamento de entrar. Demorei um pouco, finalmente tomei coragem e entrei: ele estava sentado na cabeceira de uma mesa, ao lado uma garçonete, e do outro lado um motorista da praça, todos os três tomando cerveja. Eu disse:
- Mestre, o que está fazendo aqui?
- Você num está vendo, meu filho, estudando costumes.

Depoimento de Veríssimo de Melo sobre Câmara Cascudo.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Presença de Clarice - Ferreira Gullar


Presença de Clarice - Ferreira Gullar

MEU primeiro encontro com Clarice Lispector foi numa tarde de domingo na casa da escultora Zélia Salgado, em Ipanema, creio que em 1956. Eu havia lido, quando ainda vivia em São Luís, o seu romance "O Lustre", que me deixara impressionado pela atmosfera estranha e envolvente, mas a impressão que me causou sua figura de mulher foi outra: achei-a linda e perturbadora. Nos dias que se seguiram, não conseguia esquecer seus olhos oblíquos, seu rosto de loba com pômulos salientes.
Voltei a encontrá-la, pouco tempo depois, no "Jornal do Brasil", durante uma visita que fez à redação do "Suplemento Dominical". Conversamos e rimos, mas não voltamos a nos ver num espaço de uns dez anos. De fato, só voltei a encontrá-la logo após voltar do exílio, em 1977. Ela ligou para minha casa: queria entrevistar-me para a revista "Fatos e Fotos", para a qual colaborava naquela época.
Clarice já era então uma mulher de quase 60 anos, marcada por acidente que resultara em sérias queimaduras que lhe deixaram marcas na mão direita. Já quase nada tinha da jovialidade de antes, embora continuasse perturbadora em sua natural dramaticidade. Depois de ouvir dela algumas palavras carinhosas, decidi revelar-lhe como me fascinara em nosso primeiro encontro.
-Você era linda, tão linda que saí dali apaixonado.
-Quer dizer que eu "era" linda?
-E ainda é, apressei-me em afirmar..
Terminada a entrevista, despedimo-nos carinhosamente, mas no dia seguinte ela ligou de novo. Queria encontrar-me para conversar. Fui até sua casa, no Leme, e de lá fomos caminhamos até a Fiorentina, que ficava perto.
Lembro-me que Glauber Rocha, vendo-nos ali, veio sentar-se em nossa mesa e começou a elogiar o governo militar. Clarice me olhava para com espanto, sem entender. Ele, depois daquele discurso fora de propósito, mudou de mesa.
-Ele veio provocar você, disse Clarice. Com que intenção falou essas coisas?
-Glauber agora cismou de defender os milicos. É piração.
Depois dessa noite, voltei a vê-la num encontro que ela promoveu em sua casa com alguns amigos, entre os quais Fauzi Arap, José Rubem...
Foi a última vez que a vi. A roda-viva daqueles tempo me arrastou para longe dela, em meio a problemas de toda ordem, crises na família, filhos drogados, clínicas psiquiátricas. De repente, soube que ela havia sido internada num hospital em estado grave. Localizei o hospital, telefonei para o seu quarto e acertei com a pessoa que me atendeu ir visitá-la no dia seguinte. Mas, ao chegar à redação do jornal, antes de sair para a visita, a telefonista me passou um recado: "Clarice pede ao senhor que não vá vê-la no hospital. Deixe para visitá-la quando ela voltar para casa". E se ela não voltasse mais para casa? Dobrei o papel com o recado e guardei-o no bolso, desapontado.
Àquela noite, quando contei o ocorrido a minha mulher, ela explicou: "Clarice, vaidosa como era, não queria que você a visse no estado em que estava". Pode ser, mas, de qualquer forma, até hoje lamento não ter podido vê-la uma última vez.
Dois ou três dias depois do recado, ela morria. Ao sair do banho, pela manhã, alguém me informou: "Clarice Lispector morreu". De viagem marcada para São Paulo, entrei num táxi que me levou pela lagoa Rodrigo de Freitas. Não poderia ir a seu sepultamento. O táxi corria dentro de uma manhã luminosa, enquanto a brisa balançava alegremente os ramos das árvores. Clarice morrera e a natureza o ignorava. No avião, escrevi um poema falando nisso. Que mais poderia fazer?
Alguns meses atrás, quando aceitei fazer a curadoria da exposição sobre ela, no Museu da Língua Portuguesa, todas essas lembranças me acudiram. Ia ser bom voltar a pensar nela, reler seus livros, pois é neles e só neles que é possível reencontrá-la agora e nunca naquele saárico túmulo do Cemitério Israelita do Caju, aonde certo dia, sob sol escaldante, fui, com Cláudia Ahimsa, visitá-la. Não havia Clarice nenhuma sob aquela laje de pedra, sem flores. E não havia porque, de fato, o que Clarice efetivamente foi, o que fazia dela uma pessoa única e exasperada, era sua patética entrega ao insondável da existência -e a necessidade de escrever, de tentar incansavelmente dizer o indizível, mas certa de que, ao torná-lo dizível, o dissiparia.
Não obstante, isso era tudo o que valia a pena fazer na vida, conforme afirmou: "Quando não escrevo, estou morta".
Em compensação, quando a lemos, ressuscita.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Novas Vidas


Escrito por Elifas Andreato


São essas pequenas criaturas a razão deste texto, feito com Nuno ainda no ventre de minha filha. Em breve poderei tê-lo nos braços, para contar-lhe que a vida é mistério, que cada um obedece a leis diferentes, que cada qual traça o seu próprio destino.


No mês passado, completei 66 anos. Ninguém chega a esta idade sem pensar no tempo. Vivi anos suficientes para saber que a negação do tempo é tão vã quanto ele próprio. O tempo é apenas uma série sucessiva de presentes, um caminho perpetuamente destruído e recomposto, pelo qual avançamos sem parar.

Não sou mais tão jovem para não dar ao tempo que ainda disponho a importância de cada novo dia. O tempo tem hoje para mim o significado de uma estrada que não sei onde termina. Nela, o que hoje parece ter relevância, amanhã não passará de simples acessório. Por isso, busco o valor das virtudes com a mesma sinceridade dos anos passados.

Tudo passa, enquanto o tempo assiste, imóvel, ao desfile de alegrias e tristezas – cortejo de que se compõe a vida. A dor, as desilusões, as frustrações não são redenção, mas evolução. É preciso ter esgotado todo o sofrimento para chegar ao tempo tranquilo que precede a aurora de uma nova vida. Ainda que tardia, ela pode ser produtiva e feliz.

Hoje sou capaz de aceitar a infinita diversidade da minha natureza, que me conduziu por caminhos divergentes, mas sempre em busca da felicidade. Felicidade que hoje tenho razões de sobra para compartilhar com todos os que amo. Sobretudo com as novas vidas que me tratam carinhosamente como nono ou vovô. São essas pequenas criaturas a razão deste texto, feito com Nuno ainda no ventre de minha filha. Em breve poderei tê-lo nos braços, para contar-lhe que a vida é mistério, que cada um obedece a leis diferentes, que cada qual traça o seu próprio destino. Mesmo que ele não compreenda, direi que os séculos passam e o mundo se desgasta, mas a alma, essa sim, deve sempre permanecer jovem – como sinto a minha hoje, depois de 66 carnavais.

Gostaria de encerrar dizendo que acredito firmemente no esquecimento de tudo que não quero, para assim construir o triunfo do que quero viver e ser.Espero que o tempo seja generoso, me concedendo alguns anos mais para que possa repetir exaustivamente a essas novas vidas que os objetos da nossa felicidade estão à nossa frente. São eles que mantém acesa a luz em nossos olhos, para que a vida seja preciosa enquanto durar.


Obs: Reprodução/Desenho de Elifas Andreato
Clementina de Jesus: desenho da cantora é, para Elifas, o seu melhor;
Hermínio Bello de Carvalho o vê como ‘a nossa Monalisa’

domingo, 18 de setembro de 2011

Amar é Punk - Fernanda Mello


Eu já passei da idade de ter um tipo físico de homem ideal para eu me relacionar. Antes, só se fosse estranho (bem estranho). Tivesse um figurino perturbado. Gostasse de rock mais que tudo. Tivesse no mínimo um piercing (e uma tatuagem gigante). Soubesse tocar algum instrumento. E usasse All Star. Uma coisa meio Dave Grohl. Hoje em dia eu continuo insistindo no quesito All Star e rock´n roll, mas confesso que muita coisa mudou. É, pessoal, não tem jeito. Relacionamento a gente constrói. Dia após dia. Dosando paciência, silêncios e longas conversas. Engraçado que quando a gente pára de acreditar em “amor da vida”, um amor pra vida da gente aparece. Sem o glamour da alma gêmea. Sem as promessas de ser pra sempre. Sem borboletas no estômago. Sem noites de insônia. É uma coisa simples do tipo: você conhece o cara. Começa, aos poucos, a admirá-lo. A achá-lo foda. E, quando vê, você tá fazendo coraçãozinho com a mão igual uma pangaré. (E escrevendo textos no blog para que ele entenda uma coisa: dessa vez, meu caro, é diferente). Adeus expectativas irreais, adeus sonhos de adolescente. Ele vai esquecer todo mês o aniversário de namoro, mas vai se lembrar sempre que você gosta do seu pão-de-sal bem branco (e com muito queijo). Ele não vai fazer declarações românticas e jantares à luz de vela, mas vai saber que você está de TPM no primeiro “Oi”, te perdoando docemente de qualquer frase dita com mais rispidez. Ah, gente, sei lá. Descobri que gosto mesmo é do tal amor. DA PAIXÃO, NÃO. Depois de anos escrevendo sobre querer alguém que me tire o chão, que me roube o ar, venho humildemente me retificar. EU QUERO ALGUÉM QUE DIVIDA O CHÃO COMIGO. QUERO ALGUÉM QUE ME TRAGA FÔLEGO. Entenderam? Quero dormir abraçada sem susto. Quero acordar e ver que (aconteça o que acontecer), tudo vai estar em seu lugar. Sem ansiedades. Sem montanhas-russas. Antes eu achava que, se não tivesse paixão, eu iria parar de escrever, minha inspiração iria acabar e meus futuros livros iriam pra seção B da auto-ajuda, com um monte de margaridinhas na capa. Mas, caramba! Descobri que não é nada disso. Não existe nada mais contestador do que amar uma pessoa só. Amar é ser rebelde. É atravessar o escuro. É, no meu caso, mudar o conceito de tudo o que já pensei que pudesse ser amor. Não, antes era paixão. Antes era imaturidade. Antes era uma procura por mim mesma que não tinha acontecido. Sei que já falei muito sobre amor, acho que é o grande tema da vida da gente. Mas amor não é só poesia e refrão. Amor é reconstrução.É ritmo. Pausas. Desafinos. E desafios. Demorei anos pra concordar com meu querido Cazuza: “eu quero um amor tranqüilo, com sabor de fruta mordida”. Antes, ao ouvir essa música, eu sempre pensava (e não dizia): porra, que tédio! Ah, Cazuza! Ele sempre soube. Paixão é para os fracos. Mas amar - ah, o amor! - AMAR É PUNK.

Fernanda Mello

domingo, 21 de agosto de 2011

O Raio - texto de Ítalo Calvino‏


Aconteceu-me uma vez, num cruzamento, no meio da multidão, no vaivém. Parei, pisquei os olhos: não entendia nada. Nada, rigorosamente nada: não entendia as razões das coisas, dos homens, era tudo sem sentido, absurdo. E comecei a rir. Para mim, o estranho naquele momento foi que eu não tivesse percebido isso antes. E tivesse até então aceitado tudo: semáforos, veículos, cartazes, fardas, monumentos, essas coisas tão afastadas do significado do mundo, como se houvesse uma necessidade, uma coerência que ligasse umas às outras. Então o riso morreu em minha garganta, corei de vergonha. Gesticulei, para chamar a atenção dos passantes e – Parem um momento! – gritei – tem algo estranho! Está tudo errado! Fazemos coisas absurdas! Este não pode ser o caminho certo! Onde vamos acabar? As pessoas pararam ao meu redor, me examinavam, curiosas. Eu continuava ali no meio, gesticulava, ansioso para me explicar, torna-las participantes do raio que me iluminara de repente: e ficava quieto. Quieto, porque no momento em que levantei os braços e abri a boca a grande revelação foi como que engolida e as palavras saíram de mim assim, de chofre. - E daí? – perguntaram as pessoas. – O que o senhor quer dizer? Está tudo no lugar. Está tudo andando como deve andar. Cada coisa é conseqüência da outra. Cada coisa está vinculada às outras. Não vemos nada de absurdo ou de injustificado! E ali fiquei, perdido, porque diante dos meus olhos tudo voltara ao seu devido lugar e tudo me parecia natural, semáforos, monumentos, fardas, arranha-céus, trilhos de trem, mendigos, passeatas; e no entanto não me sentia tranqüilo, mas atormentado. - Desculpem – respondi. – Talvez eu é que tenha me enganado. Tive a impressão. Mas está tudo no lugar. Desculpem. – E me afastei entre seus olhares severos. Mas, mesmo agora, toda vez (freqüentemente) que me acontece não entender alguma coisa, então, instintivamente, me vem a esperança de que seja de novo a boa ocasião para que eu volte ao estado em que não entendia mais nada, para me apoderar dessa sabedoria diferente, encontrada e perdida no mesmo instante.
Calvino, Ítalo; Um general na biblioteca; São Paulo, Companhia das Letras, páginas16-17

terça-feira, 5 de julho de 2011

Sorriso Maroto


Sabe? Nesses tempos meio desesperançados, meio doidos e doídos, preciso fazer uma confissão pública: tenho inveja de quem não tem seguidor, não defende uma reputação, não segue qualquer escola de pensamento, não se filiou a um partido político, não precisa vestir paletó (fato, irmãos portugueses), não guarda dinheiro na poupança, não tem eira nem beira.
Puxa, como deve ser gostoso sentar e escrever o que quiser sem precisar explicar que continua coerente com o que redigiu há seis anos. Quando crescer ainda vou ser um anarquista! E quando morrer quero que o meu céu seja bem bagunçado, cheio de gente conversando, lotado de mesas desarrumadas e sem etiqueta social. Quero ser recebido por um anjo com a camisa para fora das calças e de chinelo. (Lá, vou palitar meus dentes sem cobrir a boca).
Penso em começar a escrever usando um pseudônimo. Talvez eu vá me chamar de “Zé Alguma Coisa” – ou talvez opte por um nome árabe, já que os escritores de lá ganham muito dinheiro empinando pipas. Se algum dia eu me tornar um “Zé Alguma Coisa” vou anarquizar com todo mundo, começando por mim mesmo e elogiar os que não merecerem.
Quero ter a liberdade de xingar as imbecilidades religiosas, falar de perdão para os piores pecadores e oferecer esperança para os tipos mais estranhos. Para isso, vou valer-me de metáforas insanas e de argumentos bem absurdos.
Prometo assumir minha legítima verve cearense. Ainda vou tornar-me um repentista, comediante ou romancista regionalista. Ambiciono transitar desde o José de Alencar até o Tiririca. Ora, na minha terra, que é seca, até o sol é vaiado quando rompe com as nuvens e estraga a perspectiva da chuva. Sendo assim, espero poder vaiar quem eu quiser - inclusive a mim mesmo.
Vou apupar os professores que papagaiam teologias sistemáticas redondinhas, copiadas de compêndios fundamentalistas da década de 1940. (acontece que já não agüento teorias que mostram um Javé sanguinário, que antes das pessoas nascerem, as condenou ao fogo eterno); vou zombar dos “levitas” emplumados que tentam parecer com os artistas da Globo; vou rir dos “apóstolos”, especialistas em curar caroços do corpo.
Ainda hei de voltar a dormir com meu sorriso maroto da adolescência - chega de cenhos franzidos. Sinto que a vida tem que ser levada mais na esportiva, na “maciota” como dizem os boêmios, e é assim que almejo encarar meus últimos dias: sem a sofreguidão dos austeros ambientes farisáicos.
Ah, como tenho ciúmes de quem se rodeia de amigos que sabem fazer batucada na mesa, transformando cada refeição numa gostosa farra enquanto se abraçam publicamente.
Quero aprender a usar a vida como argamassa para minha pobre poesia. E se alguém rotular-me de maluco, responder com uma gostosa risada; se avisar que perdi o senso, aplaudir; se advertir que caminho para a perdição eterna, agradecer com um beijo na testa.
Sem lenço, sem documento, sem peso nos ombros e sem culpas persecutórias, vou assumir minha Ricardice - dizem que isso previne vários tipos de câncer.
Soli Deo Gloria.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Eu,modo de usar


Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Acordo pela manhã com ótimo humor mas … permita que eu escove os dentes primeiro. Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza. Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais. Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo. Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sózinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. ( Então fique comigo quando eu chorar, combinado?). Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem… gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade. Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate que isto é coisa de gente triste. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.
Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca … Goste de música e de sexo. goste de um esporte não muito banal. Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua familia… isso a gente vê depois … se calhar … Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora. Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos … me faça massagem nas costas. Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções. Me rapte! Se nada disso funcionar … experimente me amar!

MARTHA MEDEIROS

Foto: ingrid bergman

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Maria Rita Kehl: o Rio não para de chegar


Armandíssimo,

Engraçado te escrever uma carta dias depois de ter conversado tanto tanto com você e Cri, aí no Rio, do nosso jeito: na copa enquanto o molho apurava no fogão, a portas fechadas, depois passando para a sala de jantar, e a de “visitas” – estranho a permanência desse nome no espaço mais generoso da casa, mas não aceito chamá-lo de living – e ainda na calçada à espera do táxi, perto do cocô do cachorro, até os 47 minutos do segundo tempo.

E agora, por escrito, o que mais? Sua última carta é ótima e me faz suspirar pela promessa da poesia escrita na resignação. Quem sabe, se eu conseguisse escrever assim, ficaria mais zen – bem que meus filhos gostariam.

Filhos: vou de trás pra frente, desenrolando o novelo da conversa do sábado. Ninguém nos confronta mais com o que nós somos do que os filhos. Corrijo: ninguém nos confronta mais com o pior do que somos do que os filhos. Nem o cônjuge, para quem tem um, que palavra horrível para designar o amor da vida das pessoas. Nem os críticos, para aqueles que escrevem, filmam, compõem etc. Nem o público, para quem é da vida pública. Ninguém melhor ou pior do que os filhos para nos colocarem na berlinda, mostrarem a nossa cara num espelho mesquinho, egoísta, brutal, distraído, banal.

Ponto. É só um desabafo mais ou menos atualizado.

Agora, o Rio. Gosto tanto do Rio que tenho medo de abraçar a cidade de vez, virar carioca e me decepcionar. Um namorado que veio do Rio para viver em São Paulo e você sabe quem é, uma vez me disse diante da janela do Novo Mundo aberta para a baía de Guanabara: “É como se eu fosse o ex-marido da Catherine Deneuve. Sei que ela é linda, desejável, amável, uma unanimidade internacional. Mas só eu conheço as histerias, os achaques, as crises e a chatice dela. Não volto, não. Prefiro sentir saudades de longe”. Outro comentário dele que muito me fez pensar foi quando eu disse que deveria ser maravilhoso morar no Rio de Janeiro, e ele me respondeu de pronto: “Até o dia em que você precisar de um encanador”. Poderia ser marceneiro, pedreiro, mecânico, sapateiro. Entendi na hora. Talvez só meus amigos muito ricos, que pagam caro por profissionais de ponta, não assinassem em baixo dessa observação amargurada.

Também vale indagar o que diriam os encanadores, mecânicos, pedreiros, sapateiros e marceneiros a respeito do profissionalismo, na outra ponta da corda, dos doutores “sangue bom” e das madames cariocas.

Então: às vezes penso que o melhor do Rio é, sem tirar nem pôr, idêntico ao pior dele. O pré-capitalismo, por exemplo, em que a cidade ainda se mantém (com exceção da Barra, mas a Barra pra mim é outro município). O pré-capitalismo que conserva dentro do Rio de agora o século XIX, os anos 1930, 1960, ou seja, o tal “caldeirão de mitos”, que é como meu amigo Rubens Machado nomeou o significado do Rio para o cinema do Bressane. O pré-capitalismo que faz dos pequenos bairros cariocas recantos caseiros, provincianos, dominados pelo povo miúdo que ocupa as ruas a seu gosto e vive como pode e como quer. No entanto são pedaços da cidade que certamente valem milhões. Ai que medo do Eike Batista: os melhores sonhos modernizantes dele se parecem com meus pesadelos. O pré-capitalismo que é o pior defeito do Rio das relações de trabalho atrasadas, dos favores políticos, das “500 famílias” como você diz – e que também faz o encanto da cidade. Vai do traçado urbano, muito pedestre perto do centro, que permite a permanência de quarteirões tão inacreditáveis que nem vou mencionar por escrito para não dar ideias a algum empreiteiro; e que atinge também a sociabilidade descompromissada, passante, entre desconhecidos que não fazem cerimônia com os outros, tanto na simpatia quanto no mau humor. O Rio me dá saudades do Brasil. Quando vou a sua casa e passo pelo lindo prédio da UFRJ que traz na fachada “Universidade do Brasil”, eu penso, sim: cheguei no Brasil. Vim de São Paulo e cheguei no Brasil.

Sentia o mesmo ao descer no Santos Dumont, da escadinha do avião para a pista, e sentia o bafo do Rio, o cheiro sexual da maresia: cheguei no Brasil. Há uns cinco anos escrevi um poema, outro da “Suíte do Rio”, prevendo o fim desse jeito de chegar na cidade que me deixava comovida feito o diabo.

1. Santos Dumont


Mas vai chegar o dia em que a nave atracará num finger

e em vez da maresia o vento mastigado

em vez do bafo a assepsia.


Dia de a fibra arrefecer

a pisada do viajante

o abraço do sol


e um intervalo morto

adiar a refrega

entre a cidade

e o corpo.


Chegou o dia, mais depressa do que eu esperava. Desço do avião que pousa na ponta da baía e entro no tubo de borracha e ar condicionado. O impacto da cidade demora uns minutos mais.

Mas como assim? Estamos condenados a amar sempre o que já foi? Amamos o que já foi porque é o que conhecemos. Mas reformulo. Não tenho saudades do Brasil do atraso, da miséria, da desigualdade e tudo o mais que conheço tão bem. Nem do Rio do esgoto a céu aberto, adolescentes de fuzil na mão, elite mal-educada, carros estacionados nas calçadas.

Tenho saudades do sonho de um Rio de Janeiro que a transformação daquele outro prometia. Tenho saudades do Brasil sonhado por muitos de nós antes do golpe militar, por exemplo. Mas a transformação não virá como nos nossos sonhos. Virá com a histeria da Copa, a especulação imobiliária, a multiplicação dos bilionários, dos grandes empreendimentos, e daquilo que você muito bem observou, os carros brutais vestidos de luto com motoristas-fantasma que passam por cima do mundo sem olhar pra trás.

O Rio que eu adoro não é o clichê turístico da festa: parece mais uma doce melancolia. Onde a cidade é mais pobre, ninguém perde uma oportunidade de ser feliz. Chamo essa parte de Rio ruim. São ruas apertadas e sujas, perto do centro, do Catete, do Cosme Velho (adoro esse nome). Ruas cheias de gente ocupada com as atividades mais improváveis, instalada nos cantos mais absurdos para montar pequenas bancas a oferecer servicinhos e produtos modestíssimos, conversando em voz alta como se estivessem em casa, bebendo cerveja na calçada suja, vivendo do mínimo do mínimo. Economia de subsistência com uma vontade de alegria invencível.

Por este Rio ruim eu ando a esmo, dobro uma esquina, sou tomada por um cheiro velho ou pela mudança da luz filtrada pela copa de uma amendoeira e me espanto, com o quê? Vou roubar um verso que você escreveu para a Cri no Cabeça de homem, acho, para expressar esse espanto: “você não para de chegar”. É o que eu sinto, a cada vez: o Rio não para de chegar.

Maria Rita Kehl

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Fernando Bonassi


"você eu fui matando aos poucos. um dia depois do outro. bem devagar. deixei de perguntar. deixei de dizer. deixei de avisar. dobrei cobertores, empilhei discos, escondi travesseiros e fotografias. separei o que havia em dupla. livrei-me do que era único. usei as costas de bilhetes essenciais. varri todos os pêlos pra debaixo dos lençóis. abafei as minhas vontades com mãos postas em desespero. o telefone se esganando por um fio. fumei páginas e páginas da tua Bíblia. mudei horários. recolhi documentos. mandei recados. voltei aos ovos fritos e às notícias. comecei a passar reto onde fazia curva. fui matando você assim. devagarzinho mesmo. agora você está completamente assassinada."



Fernando Bonassi


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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Lya Luft


O amor nos tira o sono, nos tira do sério, tira o tapete debaixo dos nossos pés, faz com que nos defrontemos com medos e fraquezas aparentemente superados, mas também com insuspeitada audácia e generosidade. E como habitualmente tem um fim – que é dor – complica a vida. Por outro lado, é um maravilhoso ladrão da nossa arrogância.
Quem nos quiser amar agora terá de vir com calma, terá de vir com jeito. Somos um território mais difícil de invadir, porque levantamos muros, inseguros de nossas forças disfarçamos a fragilidade com altas torres e ares imponentes. 
A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranqüilidade, querer com mais doçura. 
Às vezes é preciso recolher-se.
Lya Luft

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Bambina se foi....


Quem me conhece sabe do meu amor por gatos e cachorros.Perdi um cachorro que me deu o prazer da sua companhia por 17 anos.Hoje tenho uma gata vira lata que já tem 9 anos,mas com muita fé em Deus,ela ainda vai viver muitos anos.Essa semana compartilhei com um amigo a perda de Bambina,a cachorrinha de estimação dele e da sua sobrinha.A dor dele ainda foi maior do que a minha porque o meu cachorro morreu de velhice,não tive que sacrificá-lo,a dele foi para o sacrifício,não havia mais condição,a doença chegara na fase terminal.Ele escreveu um texto lindo e comovente que socializo com vocês;

Faz uma semana que Bambina nos deixou,uma coker spainnell iluminada com suas olheirinhas esvoaçantes e douradas;era nossa alegria e o tormenento de lagartixas e canteiros debaldes,estamos tão sozinhos sem ela que nossas mãos ficaram fazias e a enexorabilidade de sua ausencia pesa-nos.Parece que carregávamos a eternidade ao alçar o saquinho com seu corpo mirrado pela doença e o tormento,é triste dizer adeus,mais triste ainda não poder ter dito,foram 11 anos de silencios cumpliciosos e de um amor surdo e temperado entre risos e folguedos,o único ser que nos remete à infância são os cães,daí que sua ausencia presentida doer como um entardecer precoce.Ficou tudo impregnado de sua ausência,latidos,rosnados,um toquinho de rabo a denunciar felicidade agora é uma saudade sem nexo,nunca falamos nada,raças difusas que eramos,mas parece que sua ida me deixou na garganta um nó surdo de palavras impregnadas de ternuras que se diluiram no tempo,assim espero...
adeus minha querida,vou uivar para a noite em que me velavas.

André Pereira