sábado, 19 de fevereiro de 2011

Jack Kerouac


"Estendido sobre a capota do carro olhando para o céu escuro era o mesmo que estar trancado dentro de um baú numa noite de verão. Pela primeira vez na vida, o clima não era algo que me envolvia, me acariciava, me enregelava ou fazia suar - mas era parte de mim mesmo! A atmosfera e eu nos tornamos a mesma coisa."
On the Road - Pé na Estrada, Jack Kerouac

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Sem perder a ternura



Linaldo Guedes

letargia que invade as avenidas do XXI
terra sem lei, com fardas dormindo igual aos fardões

cabeças baixas, bolsos vazios, pés descalços
maiakovski apenas como um poema desbotado na estante
patrulhas cercando o quintal do vizinho

: a nova ordem não vem de caetano,
veloso de todos os sonhos que fugiam do haiti

silêncio, é a palavra que barulheia todos os sentidos

mas as damas aristocráticas formam vassalos
na terra onde o verde quase se torna uma lembrança vã
e ainda dizem que existe o amanhã
e eu acredito
como acredito no gosto estranho da romã

vejo, na retina da memória, soldadinhos de papel
crianças correndo por ruas de barro
brincando e gingando para as dores que não conhecia
é verão – hora de lembrar lições guevarianas:
não podemos perder a ternura!

(poema inédito)



Escrito por Linaldo Guedes

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Poesia


Surto das Horas
num pequeno surto
quebrei o relógio
e joguei fora o ponteiro das horas
agora faltam só minutos
pra gente se ver


Caio Victor Bulla de Carvalho

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Fernando Bonassi


"você eu fui matando aos poucos. um dia depois do outro. bem devagar. deixei de perguntar. deixei de dizer. deixei de avisar. dobrei cobertores, empilhei discos, escondi travesseiros e fotografias. separei o que havia em dupla. livrei-me do que era único. usei as costas de bilhetes essenciais. varri todos os pêlos pra debaixo dos lençóis. abafei as minhas vontades com mãos postas em desespero. o telefone se esganando por um fio. fumei páginas e páginas da tua Bíblia. mudei horários. recolhi documentos. mandei recados. voltei aos ovos fritos e às notícias. comecei a passar reto onde fazia curva. fui matando você assim. devagarzinho mesmo. agora você está completamente assassinada."



Fernando Bonassi


--------------------------------------------------------------------------------

sábado, 29 de janeiro de 2011

Caio Fernando Abreu


“Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo; repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.” - Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Lya Luft


O amor nos tira o sono, nos tira do sério, tira o tapete debaixo dos nossos pés, faz com que nos defrontemos com medos e fraquezas aparentemente superados, mas também com insuspeitada audácia e generosidade. E como habitualmente tem um fim – que é dor – complica a vida. Por outro lado, é um maravilhoso ladrão da nossa arrogância.
Quem nos quiser amar agora terá de vir com calma, terá de vir com jeito. Somos um território mais difícil de invadir, porque levantamos muros, inseguros de nossas forças disfarçamos a fragilidade com altas torres e ares imponentes. 
A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranqüilidade, querer com mais doçura. 
Às vezes é preciso recolher-se.
Lya Luft

Célia - Não Se Vá