domingo, 15 de junho de 2014

Paulo Mendes Campos

ACORRENTADOS Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre.
Autor: Paulo Mendes Campos
Texto extraído do livro "
O Anjo Bêbado", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1969, pág. 105.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Trecho de Carta de Rubem Braga para Clarice Lispector

"Meio desempregado, enfrentei o verão (o maior de que tenho lembrança, e continua ainda) em meu novo e pequeno apartamento, e me entreguei à praia, ao uísque e aos levianos amores com estranha voracidade. Agora estou um tanto cansado - inclusive do Rio e do apartamento - e crivado de dívidas".

(Carta de Rubem Braga para Clarice Lispector, Rio, 23-05-53 do livro: Correspondências Clarice Lispector, organizado por Teresa Montero, p. 153)


http://vemcaluisa.blogspot.com.br/2010/06/praia-ao-uisque-e-aos-levianos-amores.html

sábado, 7 de junho de 2014

Lau Siqueira

DA IMORTALIDADE
POÉTICA


eternas mesmo
são as nuvens

essas dissonâncias
do infinito

eternas
e mutantes

mas a vida
e suas dobras
de estupidez e
coragem...

a vida é aqui
e agora

e é frágil
como uma caipora

é tão frágil a vida
que uma única morte
não basta

por isso sempre
amanheço um pouco
esta memória

o que está posto
poderia ser dito
numa oração

num tratado
numa tese
num conceito
reformado

mas eis aqui
um poema
besta

e hoje nem é sexta

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Iracema Macedo

"Se os outros envelhecem
como dizer que não perdi a juventude?
Tardes como essas houve muitas
e um vivo fervor de bicicletas e borboletas
Quem sou eu para ousar essa juventude
através de um tempo que cansa o rosto do meu pai?
Quem sou eu para ousar a flor e usá-la nos cabelos?
Que mulher eu sou?
O tempo só cria devorando
e não posso ousar contra as dores do parto
Entre o tempo e o nada
onde espichar o leite dos meus versos?"


Iracema Macedo


(Foto de Luiz-Cartier Bresson)

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Alice Sant'anna

a sandália nova branca com dedos
que se refestelam do lado de fora
como crianças que sabem o verão que vem
de repente a chuva mingua os planos
da calça jeans com sandália de dedos
uma combinação entre-estações
para não se sentir nem tão lá nem tão
cá os dedos curvados corcundas
como crianças tristes que sabem
o toró que se aproxima as unhas recém-cortadas
que planejaram se mostrar sobre a cadeira de rodinhas
que nada a água inundou a sexta
da janela os bambus se movem muito
chegam a parecer desesperados
as folhas penduradas são cabelos colados
que gritam novas rugas onde nada havia

sábado, 17 de maio de 2014

Carta à Virginia Woolf

Querida Virginia
Não sei como começo. Parabenizando-lhe pelos seus 129 anos? Eu acredito que sua idade vai muito além desses números, tão eternos para nós humanos comparados à nossa vida aqui e agora. Sua alma é antiga e sábia e deve estar rodando por aí (no céu?) ou em outro corpo que jamais saberei qual é. O importante é saber que sua alma também continua aqui, em cada livro seu, em cada vez que alguém lê sua obra – sublime e perfeita. A alma deve ser algo infinito.
Eu agradeço pelo dia em que o acaso colocou em meu colo um livro seu e agradeço também a sua paciência quando, no início, eu não entendia muito bem suas frases e pensava “essa mulher escreve difícil”. Mas eu soube ser persistente sem ser chata, acredito eu, pois fui lhe comendo pelas beiradas, saboreando as frases como se fossem feitas para mim, única e exclusivamente.
Agradeço também pelas noites que você me acompanhou e também peço desculpas pelas vezes que peguei no sono. A culpa foi toda minha que num lapso de concentração me peguei em devaneios que não me pertenciam mais e que não mereciam minha atenção. Mas foi justamente esses devaneios absurdos e você, ali do meu lado, que me fizeram compreender o que parecia tão incompreensível ao ponto de eu desistir.
Virginia, obrigada por não me fazer desistir.
Antes de você ter colocado as pedras no casaco você viveu bem, levou uma vida sincera, aproveitou os encontros com os seus amigos, admirou Londres como ninguém, amou e foi amada, trabalhou e produziu obras eternas. Virginia Woolf, você sabe que é eterna? Aí onde você está compreende que, tantos como eu, estão aqui na Terra admirados pelo seu trabalho e também pela pessoa que você foi? Você não foi triste, você não foi infeliz. Virginia Woolf era alegre, era bem humorada, eu sempre digo isso porque me sinto na obrigação de desfazer sua imagem de depressiva. Mas havia realmente uma depressão, sim, eu sei. Mas não era somente isso que fez você ser você. É isso que muitos não entendem, minha cara…
Eu ainda não li toda a sua obra, mas estou quase lá. Minha última leitura foi Orlando. Que belo livro, Virginia! Uma mistura de surrealismo e modernismo. Lindo. Mas não vou me aprofundar em análises sobre a sua obra. Deixo isso para seus amigos que estão aí com você, porque certas observações precisam ser faladas olhando nos olhos. Olhos que piscam, pois os seus são estáticos, mas me fitam através da foto com muito mais vida que meus próprios olhos.
Eu preciso lhe agradecer por muito mais. É um tanto que faz uma bolha de ar sair de meu coração, atravessar meu peito e parar em minha garganta. Quando abro a boca para falar, nada sai. E o agradecimento vira um suspiro mágico que lhe abraça onde quer que você esteja. Obrigada por ser parte de mim, obrigada por me permitir fazer isso.
Essa é minha primeira carta para você. Farei isso mais vezes.
Com carinho,
Francine Ramos



http://livroecafe.com/2011/01/25/carta-a-virginia-woolf/

domingo, 11 de maio de 2014

SAUDADE

Às vezes, sentir falta da pessoa que está na cama com você dói mais do que a saudade de quem está em outro continente.

O Castelo nos Pirineus (Jostein Gaarder)