- O POEMA QUE NÃO ESCREVI - Raymond Carver
- Eis o poema que eu iria escrever mais
cedo, mas não escrevi
porque ouvi você se mexendo....
Eu estava pensando de novo
naquela primeira manhã em Zurique.
Como acordamos antes do sol nascer.
Desorientados por um minuto. Mas fomos para
a varanda que tinha vista para
o rio e a parte antiga da cidade.
E simplesmente ficamos ali, calados.
Nus. Assistindo o céu clarear.
Tão emocionados e felizes. Como se
tivéssemos sido colocados ali
naquele instante.
***
THE POEM I DIDN’T WRITE
Here is the poem I was going to write
earlier, but didn’t
because I heard you stirring.
I was thinking again
about that first morning in Zurich.
How we woke up before sunrise.
Disoriented for a minute. But going
out onto the balcony that looked down
over the river, and the old of this city.
And simply standing there, speechless.
Nude. Watching the sky lighten.
So thrilled and happy. As if
we’d been put there
just at that moment. - (Raymond Carver, trad.:Edivaldo Ferreira)
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
Raymond Carver
segunda-feira, 8 de agosto de 2016
Sophia de Mello Breyner Andresen
DATA
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça
domingo, 7 de agosto de 2016
Angélica Freitas em homenagem a Ana Cristina Cesar
ANA C.
ana c. me salvou de ser técnica em eletrônica
aos dezesseis
quando entrou de vermelho
em minha vida
e me deixou
aos seus pés
aos dezesseis
quando entrou de vermelho
em minha vida
e me deixou
aos seus pés
eu não tive escolha
foi um baita clarão
soco na goela seguido
de cisco no olho
foi um baita clarão
soco na goela seguido
de cisco no olho
quem é ela
o que é isto
quem sou eu
o que é isto
quem sou eu
em 1989 a gente não tinha google
as bibliotecas eram enxames
pré-vestibulares
as bibliotecas eram enxames
pré-vestibulares
saber de ana c. e em seguida
de seu suicídio
fez de mim uma das mais jovens
viúvas de ana c.
de seu suicídio
fez de mim uma das mais jovens
viúvas de ana c.
eu me perguntava
mas por quê por quê por quê
você foi se matar
como se uma guria toda errada
míope descabelada
no fim do fundo do país
fosse fazer qualquer diferença
em sua vida ou anseio de continuidade
mas por quê por quê por quê
você foi se matar
como se uma guria toda errada
míope descabelada
no fim do fundo do país
fosse fazer qualquer diferença
em sua vida ou anseio de continuidade
mas foi assim que aconteceu em 89
e eu larguei os estudos de eletrônica
porque até ana c. eu não sabia que se podia
escrever assim e eu queria escrever
e eu larguei os estudos de eletrônica
porque até ana c. eu não sabia que se podia
escrever assim e eu queria escrever
também larguei por outros motivos
que não vêm ao caso aqui
e o que preciso dizer é
que não vêm ao caso aqui
e o que preciso dizer é
até hoje nós viúvas jovens e nem tanto de ana c.
sóbrias ou já meio loucas estamos procurando
uma noite de amor nas linhas de seus poemas
sóbrias ou já meio loucas estamos procurando
uma noite de amor nas linhas de seus poemas
rezando para que saia enfim a tal biografia
que nos conte o que mais houve
para darmos visões novas ao nosso amor
e novos cenários para o nosso tesão
que nos conte o que mais houve
para darmos visões novas ao nosso amor
e novos cenários para o nosso tesão
torcendo para saber que outras bocas ela beijava
porque afinal são sempre as nossas
porque afinal são sempre as nossas
e afinal são as nossas mãos que ela pega
até hoje quando escrevemos um verso, pelo amor -
até hoje quando escrevemos um verso, pelo amor -
Angélica Freitas é poeta. Seu livro "Rilke Shake" ganhou o prêmio Best Translated Book Award, da Universidade de Rochester, nos EUA.
terça-feira, 22 de março de 2016
Ana de Santana
ATLAS ANTIGO
Aquela cidade não há mais
A não ser nos mapas
E nos meus desenhos escolares
Madrugadinha Luzes todas apagadas
Esquecimento e fim
A herança do ermo Inclui fantasmas e folguedos
Aquela cidade me cartografa
Brinco nela quando me dá infância
Sou cabra-cega procurando a mim
A não ser nos mapas
E nos meus desenhos escolares
Madrugadinha Luzes todas apagadas
Esquecimento e fim
A herança do ermo Inclui fantasmas e folguedos
Aquela cidade me cartografa
Brinco nela quando me dá infância
Sou cabra-cega procurando a mim
Ana de Santana
Nonato Gurgel
OUT(R)ONO
... convoca aos afetos,
devolve turista e ainda chega com uma lua drummondiana,
deixando a gente comovido pra caralho...
Nada de tesão do talvez:
Nada de tesão do talvez:
vamos tomar mate às 5, no Largo, e eu te conto...
Nonato Gurgel
segunda-feira, 7 de março de 2016
(Mário Bortolotto)
Porque eu devia pegar leve. Não tenho mais idade pra fazer
diferente. É só um jeito de olhar com ternura pela janela quando a tempestade
se anuncia. Mas quem disse que eu sou capaz de
ficar na minha quando a temperatura sobe? Eu sempre aposto comigo e perco. Tem
certas pessoas no mundo que não nasceram pra ficar mocozadas. Mas mesmo assim
eu quero acreditar. E então insisto e ultrapasso a linha. Já não tenho pra onde
voltar. Tem gente que tem um jardim. Ou um papagaio. Ou uma tartaruga. Eu só
tenho o hálito frio de um fantasma que diz que não há com o que se preocupar.
Então eu não espero que me convidem. Eu furo o bloqueio. Eu não tenho
esqueletos no armário. Nem um jardim esperando por mim. Ou um papagaio. Ou uma
tartaruga. Eu só tenho uma ansiedade filha da puta que faz com que a minha
temperatura suba. E acreditem: nesse momento não levo nenhuma vantagem. I have
to dream alone.
(Mário Bortolotto)
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
FORA DE LINHA
para Antônio Nóbrega
Os homens obsoletos foram dispensados
como candidatos a recrutas, por excesso de contingente.
Os homens obsoletos vagam qual zumbis
em praças, parques e estações de metrô.
Os homens obsoletos alimentam-se de jornais
e engordam nos sofás diante da televisão.
Os homens obsoletos cumpriram as exigências:
faculdade, inglês e cursos de pós-graduação.
Os homens obsoletos mantiveram-se jovens
com dietas, ginástica e oficinas de auto-estima.
Os homens obsoletos tiveram bloqueados
seus crachás, suas senhas e cartões de crédito.
Os pais não querem os homens obsoletos.
— Ah, quanto dinheiro investido em sua educação!
Os amantes não querem amar os homens obsoletos
porque estes têm a pele com gosto de ferrugem.
O mercado não absorve os homens obsoletos,
pois não existe demanda para a exportação.
Não há como reciclá-los para que se encaixem
nos mutáveis programas de reengenharia.
Terapeutas recomendam aos homens obsoletos
que ocupem o tempo ocioso nos museus e galerias,
nas paróquias ou mesmo em clubes de filatelia.
Os homens obsoletos caíram em desuso
como os chapéus, as galochas e o jogo dFORA DE LINHAe bilboquê.
( Donizete Galvão )
Assinar:
Postagens (Atom)







