domingo, 17 de novembro de 2013

eucanaã ferraz

piscina

Nem solidões, nem navios.
Netuno menino brinca no quintal
do vizinho, no jardim , terraço
do edifício: praia de bolso, praia

na bolsa, água e paredes de louça.
Doido , o verão não tem destino
certo, mas o desatino nesse oceano-
retângulo deixa-se emoldurar

em nuvens de vidro. Paisagem
breve. A calma aguarda
tempestades - trampolim! -
em copo d'água.

( eucanaã ferraz )

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Sanderson Negreiros


Ele voltou!Depois de um longo tempo sem publicar,o maior cronista do RN nos presenteia com essa linda crônica publicada na Tribuna do Norte:

O passarinheiro

Publicação: 03 de Novembro de 2013 às 00:00

Sanderson Negreiros - escritor

À memória de Pedro Vicente

Antônio de Águas Belas morava em um socavão de serra. Era seu reino, desencantado. De lá era capaz de se ouvir o ranger de rotação e translação da Terra como se o Universo fosse uma velha porteira que rangesse, ou um portal secular, cujas dobradiças enferrujadas multiplicassem o som gutural de seus movimentos em torno do sol.

Do seu buraco do mundo, Antônio, posto na sela de seu cavalo baio, alvíssimo e manco, subia a serra té atingir sua planície – a chã da serra onde o vento se equilibra como uma festa.

De sua casa, encravada em grotões pesados e difíceis, ele sentia a vida como lhe chegava: suada, pegajosa e tonitruante. Era preciso respirar mais em cima. Respirar como os bois faziam – aproveitando os descampados e a perspectiva de lonjura, sorvendo o tempo pelas narinas, o vento que lá em cima se fazia mais do que uma festa: uma carícia.

Antônio de Águas Belas visitava a pequena plantação de abacaxis, tirava um ângulo novo com o olhar percuciente da paisagem em volta; e mordia no canto da boca o cigarro de palha, cheirando a um convite. Discutia a melhor maneira de proteger os abacaxis incipientes contra o verão próximo e, no fim da discussão com os empregados, era novamente um ser livre, em doce disponibilidade.

Daí, Antônio dispunha-se a fazer o que mais lhe convinha e apetecia a vontade de dono de herdade obscura: colocava o alçapão no último galho de uma oiticica para ver se pegava um sabiá branco. Sabiás escuros, ele os apreendera às centenas – em cima da serra, com jeito, era possível conseguir-se o apanhamento de passarinhos, belos concrizes, vira-casacas virtuosas, bem-te-vis donos do milagre do canto, galos-de-campina que enchiam a vista, pintassilgos vivíssimos.

Mas toda sua vida, desde criança, ele sentia que seu destino era ser dono de um sabiá branco. Pois só esse tem o canto de que lhe falaram, na infância, os avós: um canto triste e alegre, ao mesmo tempo, de dar sorte, rival da patativa dourada naquelas regiões de Mata-Pasto-de-Dentro.

E o sabiá branco não aparecia. O compadre Lucas, colega de infância, ouvira falar que perto dali morava um passarinheiro, por necessidade e convicção, que conseguira pegar um sabiá branco, vendendo-o logo depois a um mascate. Antônio de Águas Belas procurou o fio da meada da história toda e constatou que tudo fora invenção. O passarinheiro morrera há muitos anos e apenas a viúva dele confirmara que o marido foi, vida inteira, um caçador infatigável de um sabiá branco – e nunca o encontrara.

Assim sendo, Antônio gostava de ir a cavalo até a ponta da serra – exatamente o lugar onde havia o abismo misturado de beleza irrefreável e uma paisagem primitiva – para ver, eu meditar a seu modo, na hora do poente. E ali ficava, boca da noite quase, no frio suave das alturas, a esperar que as luzes da cidade, lá longe, nas serras de Araruna, se acendessem. E, acesas, tremessem na distância, aflitas pela escuridão. Pois naquelas luzes, ele via constantemente a imagem do sabiá branco de que nunca pudera ser dono. Nem amigo.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Carlos Pena Filho

A solidão e sua porta

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha),

quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório
lembra-te que afinal te resta a vida

com tudo o que insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.

Clarissa Corrêa

"Quem é feliz não conta, não espalha, não grita aos quatro cantos. Quem é feliz, satisfaze-se por ser. E sabe que felicidade anda coladinha na inveja. Quem é feliz não precisa provar nada, simplesmente é. As pessoas felizes demais nunca me passaram confiança. Essa coisa de que a vida é uma festa e não existe nada errado, não me brilha aos olhos. Feliz é quem conhece o lado ruim e o respeita. Feliz é quem já foi infeliz. Somente quem já foi infeliz pode entender que a tristeza traz um punhado muito bom de aprendizados. Felicidade não é sobre quem grita mais alto; é sobre quem sorri mais fundo."

Clarissa Corrêa

sábado, 26 de outubro de 2013

Kerouac vs O meio


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

TIÊ

Ontem fui conferir a Cientec,queria muito ver o o show de Tiê.Confesso que fiquei emocionada,eram na sua grande maioria jovens,umas 5 mil pessoas,cantando e aplaudindo a cada música.Fiquei tocada,vale ressaltar porque não era nem um show do Chiclete,da Ivete e similares,e sim de uma cantora com um repertório intimista de muito bom gosto musical.Aqueles jovens acenderam em mim a esperança,nem tudo está perdido, ainda há vida inteligente neste planeta!

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

ORGIA ÍNTIMA

ORGIA ÍNTIMA

não aprendi
a domar meus avessos

meus inteiros despedaçados
recolhidos no olho do tumulto

(setembro guarda memórias
sumidas no ar)

não costurei minh'alma
no escárnio nem cantarei
em coro de grilo

no mais
sou tranquilo

(poema inédito, lau siqueira)