Caminho de hamster
Fedendo a cigarro e a mim mesmo
cruzo uma avenida
ao anoitecer
sirenes, carros
vozes abafadas
avenida larga e áspera
numa rua transversal
o cadáver de um cachorro
atropelado
rodas metálicas em ritmo lento
fedendo a esgotos e a mim mesmo
a um pouco de fogo, do isqueiro
fedendo como aquela maçã podre
fedendo a música estúpida
desses tempos
e a mim mesmo
o lixo recolhido exala
um cheiro nítido na calçada
fedendo a sapatos e a mim mesmo
a ratos, ao suor dos néons
a cadeiras e a mim mesmo
a notícias inúteis e a mim mesmo
fedendo sob a lua
narinas entupidas de gás carbônico
o som do motor do ônibus
fedendo as mesmas camisas
fedendo a miopia e a mim mesmo
fedendo a esquinas
exalando cheiros
fedendo a expectativas
que no entanto acabam
na próxima linha
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Guia de Tê para Ivan
Guia de Tê ao escrever esse belíssimo texto pra Ivan,cutucou nossas saudades,trouxe a tona uma época em que dançavamos ao som de Renato e ouvíamos Roberto Carlos .Como é doloroso dar adeus a um amigo que faz parte da nossa história de vida e parte precocemente!
Amigo Ivan resolvi ligar o som e ouvir Renato e seus Blues Caps.
Poderia ser o nosso Rei Roberto, ou tantos outros ídolos e artistas, da
saudosa jovem guarda naquele nosso pequeno grande mundo juventude e vida
tão intensa. Não se esse nosso primeiro contato à distância seria o
mais apropriado para o momento, mas a noticia de sua passagem me pegou
de surpresa, e de repente a emoção mais imediata foi a da minha pré-
adolescência apaixonada diante do seu primeiro sonho de amor – você.
Como me deleitava com a ilusão de que ao ouvir ‘menina linda’, essa
menina poderia ser eu, até compreender a minha natural fantasia e
entender que teria esse marco de beleza na minha história e que você
seria meu eterno amor fraterno. Crescemos juntos e nossa amizade de
vizinhos e primos foi de irmãos. Estou de luto amigo, porque perdi o
tempo que previa para nosso reencontro em Nova Palmeira como
antigamente, e, certamente iríamos falar da experiência de pais e avos e
tantas outras coisas nossas que só verdadeiros amigos falam. Estou
acometida de uma urgência de expressão verbal, como se as palavras o
fizessem parar para ouvir, olhar para trás e dar um tempo nesta viagem e
assim, todos nós de Nova Palmeira que amamos você teríamos tempo de
atualizar nossas histórias de vida e aprendizagens. Lembra amigo, das
nossas férias? Você vinha de Campina Grande com seus irmãos e amigos,
dos “assustados” na grande sala da sua casa, do amplificador a tocar e
na moda daquela época passeávamos na calçada a flertar encantadas. Mas
eu já falei tanto Ivan e de repente, entendo que você ainda está indo e
que vai levando em sua bagagem de experiências vividas e aprendizagens,
todo calor e sabor daquele nosso tempo de amizade verdadeira e convívio
jovial, na nossa velha e amada Nova Palmeira. Segue em paz amigo, leva
consigo nossa amizade, leva o alto astral de Ceiça, o canto das irmãs
Marizinha, Guia e Maluza, e tantas outras jovens que povoavam e
enriqueciam esse convívio de sonho e melodia. Leva a alegria dos banhos
de chuva quando ainda crianças, ficávamos feito bonecos parados de cara
pra cima e boca aberta a sorver as gotículas d’água a escorrer no nosso
rosto. Essas recordações “são uma brasa, mora”. Sorria amigo, porque seu
sorriso aberto e de alma será a imagem mais nítida que o materializará
na nossa memória. Amanhã vou olhar o céu e vou procurar uma nova estrela
palmeirense entre tantas estrelas amadas de cada um de nós, estrelas
inesquecíveis que tanto iluminaram enquanto relíquias de amor em nossas
vidas. Abrace a todos e leve noticias de nós. Ah, vou agora dedicar-lhe
Canção da América. Adeus... Até... quando..
Guia de Tê.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Marla de Queiroz
Vai,
menina. Desabotoa essa raiva, rasga essa angústia, berra tua
indignação. Mas preserve seu coração deste veneno. Não intoxique seu
sorriso com essa dor. Chore as lágrimas mais honestas que estiverem
embargando tua voz, enrugando tua face, mas livre-se deste entrave.
Vai, menina. O mundo não magoou você, mas o egoísmo arranjou uma brecha
para te atingir, reposicione-se, retome suas forças, empurre este
inverno para bem longe daqui. Não vês que doer não é pecado¿ Mas abra
espaço para respirar, você ainda pode dançar e crescer. Você ainda pode
permanecer onde está ou desaparecer. Você pode fazer tudo o que for cura
para tua tristeza. Mas não a envolva nesta tua delicadeza.
Vai, menina, grite para o vento que já doeu demais, que você quer viver agora outro momento.
Marla de Queiroz
domingo, 25 de agosto de 2013
Lembrança
Por Aécio Cândido
Resta de ti a saudade,
gasosamente infiltrada
em todos os espaços da casa;
resta de ti o eco doloroso
de tua voz batendo insistentemente
nas paredes descolando do cérebro
lembranças entranhadas.
Resta na sala,
no jardim,
em tudo acesamente,
tua presença escorregadia
vagando indiferente
à tempestades dos meus olhos.
Aécio Cândido é professor, ator, poeta e atual vice-reitor da Universidade do Estado do RN (UERN)
Resta de ti a saudade,
gasosamente infiltrada
em todos os espaços da casa;
resta de ti o eco doloroso
de tua voz batendo insistentemente
nas paredes descolando do cérebro
lembranças entranhadas.
Resta na sala,
no jardim,
em tudo acesamente,
tua presença escorregadia
vagando indiferente
à tempestades dos meus olhos.
Aécio Cândido é professor, ator, poeta e atual vice-reitor da Universidade do Estado do RN (UERN)
terça-feira, 13 de agosto de 2013
Ana Rusche
O Grande Plugue
À nossa geração nunca nos foi permitido ver o mar pela primeira vez.
Ele sempre esteve adentro, reluzente, o grande igual que nós mesmos
Rogamos tanto às noites que se faça novamente o escuro
mas quando as preces são atendidas
é só uma ilusão dos trouxas, uma ardentia nos olhos e
o mar esbraveja aqui dentro, monstro comedor de rocha
Já nascemos umas baleias mórbidas
pobres diabas afogadas neste papel de luz
E é tão mesquinho de pequeno o desejo
A gente só queria ver o maldito mar
por favor,
pela primeira vez.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
Ledo Ivo
Todos os dias volto a Maceió.
Chego nos navios desaparecidos, nos trens
[ sedentos,
[nos aviões cegos que só aterrizam ao anoitecer.
Nos coretos das praças brancas passeiam
[ caranguejos.
Entre as pedras das ruas escorrem rios de açúcar
fluindo docemente dos sacos armazenados nos
[ trapiches
e clareiam o sangue velho dos assassinados.
Assim que desembarco tomo o caminho do
[ hospício.
Na cidade em que meus ancestrais repousam em
[cemitérios marinhos
só os loucos de minha infância continuam vivos e
[à minha espera.
Todos me reconhecem e me saúdam com
[ grunhidos
e gestos obscenos ou espalhafatosos.
Perto, no quartel, a corneta que chia
separa o pôr-do-sol da noite estrelada.
Os loucos langorosos dançam e cantam entre
[ as grades.
Aleluia! Aleluia! Além da piedade
a ordem do mundo fulge como uma espada.
E o vento do mar oceano enche os meus olhos
[ de lágrimas.
terça-feira, 6 de agosto de 2013
Lúcio Lins
SEM TÍTULO
Senhor
sou eu
este infante
ou corsário louco
que vos tenta
a fala
trazendo nas mãos
as páginas
inda úmidas
doutras cartas
rasguei
todos os mares
depois de navegar
por mapas
náufrago de palavras
nunca dante navegadas
Senhor
vos digo mais
não existe mar
além do búzio
que tendes no peito
e no cais
nos espera
a mais antiga
das caravelas
(nosso barco de papel)
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