sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

FRUTA-PÃO



Para Leo Ventura

Minha madeleine
É a memória dessa fruta
Nas beiras litoral
Entre os coqueiros e a brisa
O cheiro de sol na areia
Os movimentos livres da infância
Os agitos soltos da juventude
O amor ancorado na pulsação quieta
A poesia inscrita no sabor

João Batista de Morais Neto

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A noite do Rei


Pela primeira vez em 50 anos de carreira, Roberto Carlos foi obrigado a adiar a gravação do seu especial de dezembro. O show, que deveria ter acontecido na semana passada, foi remarcado para ontem, terça-feira, no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Sem tocar no assunto das fortes dores musculares que o fustigaram no começo do mês, o cantor abriu o espetáculo falando da idade avançada e arrancou risos complacentes: "Desde que nasci – e sei que faz muito tempo...".
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Poucos artistas no mundo podem se dar o luxo de cantar o mesmo repertório ao longo de décadas e ainda assim continuar arrastando e emocionando multidões. Roberto é um deles. Tudo neste personagem mítico parece imutável: do corte de cabelo ao velho terno azul. A impressão é de que o Rei, assim como o Natal, sempre houve e sempre haverá.
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É possível buscar explicações racionais para o fascínio que sua figura exerce no palco – da produção global que o cerca ao naipe dos músicos que o acompanham, muitos são os fatores que fazem de Roberto Carlos o maior cantor popular do Brasil em todos os tempos. Mas só estas explicações não satisfazem.
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O Rei está impregnado na memória do povo brasileiro. Todos, em maior ou menor grau, temos uma lembrança envolvendo uma música de sua autoria, independente de faixa etária ou classe social. Esta memória coletiva – e afetiva – é a responsável pela catarse que acontece sempre que o mito repete o gesto de caminhar lentamente em direção ao microfone e, após a introdução apoteótica da orquestra, entoar com a inconfundível voz anasalada os versos atemporais: "Quando eu estou aqui/ eu vivo este momento lindo...".
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A abertura com Emoções é previsível, mas sempre única. Frank Sinatra também era previsível quando encerrava seus shows com New York, New York. No entanto, foi um crooner genial. Não seria a repetição uma virtude? Assim como as pessoas se sentem seguras quando constatam que a comida de seu restaurante preferido continua a mesma apesar da passagem inexorável do tempo, também os fãs do Rei se sentem acolhidos em canções como Detalhes. É como voltar para casa depois de uma viagem longa. E ele sabe disso.
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"Vou cantar agora uma música que nunca pode ficar de fora. Uma vez deixei de cantar e parece que ficou faltando alguma coisa", comentou o cantor no momento mais introspectivo da noite. Ao banquinho e munido de violão, tal e qual João Gilberto (Roberto iniciou a carreira imitando o pai da bossa nova), colocou a orquestra e a multidão em respeitoso silêncio: "Não adianta nem tentar me esquecer/ durante muito tempo em sua vida/ eu vou viver".
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A presença mais aguardada do evento era a da atriz Dira Paes, a nova musa de RC. Assim como Camila Pitanga no especial de 2007, Dira foi convidada a cantar Cama e Mesa. Ela fingiu se esquivar, como se tudo não tivesse sido ensaiado, e avisou que só cantava no chuveiro. "Infelizmente não foi possível montar o chuveiro aqui no palco", brincou Roberto, "mas eu gostaria muito que você cantasse comigo". A plateia masculina se manifestou efusivamente pela primeira vez. Como cantora, porém, Dira Paes mostrou ser uma boa atriz.
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O encerramento do show, tão previsível quanto a abertura, levantou o público nas arquibancadas do Ginásio do Ibirapuera: acompanhado por uma orquestra em êxtase, cantando Jesus Cristo enquanto distribuía rosas vermelhas aos convidados da primeira fila, o Rei repetiu uma história de Natal já muito conhecida dos brasileiros. Para a Psicologia, a repetição da estrutura mítica individual reedita o mito familiar. É impossível entender como ama a família brasileira sem entender a obra de Roberto Carlos.
Escrito por Bruno Ribeiro

LONELY DRUNK por Mário Bortolotto


Eu moro sozinho. Eu durmo numa rede. Sozinho. Eu ando sozinho por aí. Também ando acompanhado. Mas nem sempre me sinto sozinho. Só às vezes. Sozinho ou acompanhado. Eu aprendi que a solidão é algo que eu carrego dentro de mim. Solidão não é descer a Rua Augusta sozinho de madrugada, admirando as garotas na calçada. Solidão não é atravessar as ruas totalmente bêbado, descer as escadas do Gruta e não encontrar ninguém pra jogar bilhar, e ficar dando voltas em torno da mesa girando um taco imaginário. Solidão talvez seja ouvir as bolas caindo na caçapa. Solidão não é uma casa no meio da neve. Solidão talvez seja minha avó contando histórias de assombração. Um garoto de doze anos chorando sozinho numa cama com saudades de casa. Solidão não é ter o telefone desligado na sua cara. É você ouvir notícias de um país distante num rádio velho. O que eu quero dizer é que há pilhas de romances e poemas sobre a solidão. E você acha que eu nunca sinto medo? Eu penso em Hemingway com a espingarda na boca e Silvia abrindo o gás. Estamos chegando perto demais? O velho bêbado apaixonado pela garota de 23 anos e sonhando em fugir com ela pra Las Vegas. Existe algum outro tipo mais cruel de solidão? Não estou vaticinando meu fim. Estou sussurrando em seu ouvido um segredo. Você faz o que quiser com ele. Pensa bem se isso também não é solidão. Saber é solidão. Não é você ser abandonado no meio do mar. É você ter consciência num navio de bêbados. Não é uma tempestade sobre a cruz no Gólgota. É aquela cidade onde o sol nunca se põe. A solidão não é uma senhora de capuz parada na beira da estrada. Talvez seja o padre vociferando no púlpito. A solidão é um show de rock and roll e a garota gordinha modernete e cheia de opiniões e que vai voltar sozinha pra casa enquanto sua amiga burra e linda ficou com o guitarrista da banda. Não é o sujeito no caixão com as mãos em torno do rosário e o nariz entupido de algodão. Isso não é solidão. A solidão é o velório que sempre foi uma piada triste. A solidão é a passagem dos dias. A solidão não é um blues de Corey Harris. A solidão é o carnaval. A solidão é um farol. Eu apenas me deixo guiar. A solidão vai durar eternamente. O dia que eu sentir que não pode mais ser assim, juro que dou um jeito nisso. Ou então como diria o último boy scout, eu arrumo um cachorro. (mário bortolloto)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Uma crônica de Bruno Ribeiro


Tenho vontade de guardar meus amigos num frasco. De tê-los à mão para conversar deliberadamente. E sinto a necessidade de aprisionar o tempo - não para que ele não passe, mas para que retenha certos sentimentos que deveriam ser eternos. Certos bares nunca poderiam fechar suas portas e certas mulheres não deixariam de nos olhar com olhos de criança diante de um brinquedo novo. Eu tenho muitos sonhos impossíveis - na política, sobretudo, por conta da teimosia e da inesgotável esperança no futuro. Mas dos sonhos mais singelos que tenho, o mais querido é juntar numa festa todas as pessoas que amo ou amei: meus amigos, minhas mulheres, os escritores que fizeram minha cabeça, os jogadores de futebol inesquecíveis, os músicos e os compositores, os mendigos da minha infância, os cachorros que já morreram, os guerrilheiros do Araguaia, os donos dos bares onde afoguei as mágoas ou celebrei qualquer coisa. Todos estaríamos ao redor de uma mesa forrada com as comidas que eu gosto - rabada com angu e agrião, feijoada, torta de palmito, sardinha portuguesa à escabeche, bife à cavalo com fritas - e haveria uma grande confraternização e não faltaria cerveja, uísque e cachaça para ninguém. E aí, quando fosse domingo, depois de dois dias de extrema felicidade, eu morreria. Eu morreria numa cama imensa e macia, rodeado por todas as pessoas que amo ou amei. E, se não fosse pedir demais, haveria uma orquestra no telhado e ela executaria primeiro a A Cavalaria Rusticana e depois a Internacional Socialista e eu, fisgando um decote, diria alguma gracinha para uma ex-namorada, fecharia os olhos e pronto. Aí, como João Amazonas, pediria que minhas cinzas fossem jogadas no Araguaia, onde tombaram os companheiros. Só que no caminho alguém mudaria de idéia e me jogaria no rio Maracanã, onde minhas cinzas encontrariam as do Fernando Toledo e as cinzas dele perguntariam para as minhas: "E aí, como estão as coisas por lá? Continuam a mesma bosta?". E as minhas cinzas responderiam insolentes: "É, estão do mesmo jeito. Mas até que dá para o gasto, viu? Você faz falta, mano.." E então nossas cinzas entrariam pelo buraco de um encanamento qualquer e se juntariam no esgoto e, tal como na vida, faríamos parte da mesma merda. Sei lá, às vezes eu penso que só valeria a pena viver se fosse assim. E morrer também, o que acaba sendo quase a mesma coisa.
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domingo, 13 de dezembro de 2009

Cristiane Lisboa


aqui na segunda divisão, o mundo é duro, rapaz. sorte tua que mudaste de camiseta nos últimos minutos do segundo tempo. sinto a testa suar mesmo com temperaturas abaixo do normal para a primavera. me recolho em silêncio e ignoro as placas onde se lê "eu já sabia". me espanto com a facilidade de julgamentos, com o volátil do que eu acreditava ser tão real e com a quantidade de cacos depois da queda das nuvens. se desse certo, era culpa nossa. como deu errado, é problema meu. papai diz ao telefone "agora levanta e anda. antes que alguém te chute." alô, telefonista?

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Marlon Brando

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Mário Bortolotto


Podia sentar aqui e escrever um texto longo sobre exílio e desesperança. Sobre um sujeito triste e improdutivo se arrastando por aí. Podia simplesmente publicar o poema que terminei de escrever hoje à tarde ou transcrever aqui mais um poema do velho Buk. Eu podia ficar aqui na frente da tv apenas zapeando sem nenhuma urgência. Podia abrir aquela garrafa de Jack Daniels Silver Select. Podia ouvir o LP do Joe Cocker de 1.970. Mas eu não vou fazer nada disso. Vou continuar aqui fazendo o que comecei hoje à tarde. Vou terminar de assistir "Husbands" do John Cassavetes. Porque tá quase tudo lá. Porque as pessoas continuam. Tá pensando que eu não saquei isso? Todo mundo continua. E eu também vou. Mesmo porque não me ensinaram a fazer outra coisa. E os que tentaram, eu simplesmente ignorei. E não há nada de beligerante nisso. Sou tão vulnerável quanto qualquer um. E nunca me esqueço disso.