sábado, 31 de dezembro de 2011

Cordialidade


Luiza Franco Moreira

Não pense por favor que a casa é sua.
Aqui a mesa posta
-venha sempre-
pode ser até agrado,
nada além.Não se engane.

A toalha de renda é de família
mas só abro os armários por vaidade
Ou vício.Talvez ócio nem sei mais.

Rosas brancas no vaso
para nos enfeitarem
escolhi
as mais escandalosas

Não faça cerimônia,apareça.
Se você exagerar,o azar é seu.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Marise Castro


numa velha cidade
um coração agonizava

sozinho

uma mobília antiga
o protegia do mundo

ele se cobria
no meio do dia e esperava
as mesmas lembranças
que sempre naquela mesma hora
o silencio e o sol
lhe traziam

há muito tempo ele se foi

saberá que parti com ele?
que jamais o deixei?

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Um slide


Um slide

[Sérgio Alcides, O ar das cidades, São Paulo, Nankin, 2000, págs. 30-31]



Mal consigo ler
a cidade no meio das letras
a gente fora dos outdoors.



Há muitos destroços
de palavras e luzes, rebites e bits
cobrindo o coração.



Suponho que tem um coração (e erro).



Não distingo seu ruído pelas ruas
que clamam Pour Élise.



Ponho este poema – um
slide – deitado na linha do horizonte.



Não desisto de desatar o enleio dos edifícios
na paisagem-pregão.



Se houver um desabamento
o poema ficará no ar
escorado

nos gritos.

Mas os letreiros, não.

domingo, 18 de dezembro de 2011

NÃO É SÓ MAIS UMA NOITE NO INFERNO


NÃO É SÓ MAIS UMA NOITE NO INFERNO

Você prometeu que estaria aqui quando eu voltasse
me esperando com uma garrafa de Jack e sorvete de caramelo
Você estaria ouvindo Headcat e ia ser uma noite longa num motel de beira de estrada
A gente ia rir como nos bons tempos
com minhas piadas sem graça e meu senso de humor sem nenhum senso de oportunidade
e ficar morgando na banheira de hidro ouvindo uma trilha sonora do inferno
Você me prometeu uma vida
sem abutres voando sobre minha cama na beira do abismo
Você prometeu que haveria um Deus que cuidaria de mim
e eu fui estúpido e inocente o suficiente
pra acreditar em você
Agora quando eu olho pra essa parede vazia
apenas com o retrato da Sasha Grey na parede
é que eu entendo que o tempo todo você tava mentindo pra mim
Eu só precisava perder o medo de te perder
pra não ter mais medo de nada

Mário Bortolotto

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O que acontece no meio


No meio, a gente descobre que precisa guardar a senha não apenas do banco, mas a que nos revela a nós mesmos

Vida é o que existe entre o nascimento e a morte. O que acontece no meio é o que importa.

No meio, a gente descobre que sexo sem amor também vale a pena, mas é ginástica, não tem transcendência nenhuma. Que tudo o que faz você voltar pra casa de mãos abanando (sem uma emoção, um conhecimento, uma surpresa, uma paz, uma ideia) foi perda de tempo.

Que a primeira metade da vida é muito boa, mas da metade pro fim pode ser ainda melhor, se a gente aprendeu alguma coisa com os tropeços lá do início. Que o pensamento é uma aventura sem igual. Que é preciso abrir a nossa caixa preta de vez em quando, apesar do medo do que vamos encontrar lá dentro. Que maduro é aquele que mata no peito as vertigens e os espantos.

No meio, a gente descobre que sofremos mais com as coisas que imaginamos que estejam acontecendo do que com as que acontecem de fato. Que amar é lapidação, e não destruição. Que certos riscos compensam – o difícil é saber previamente quais. Que subir na vida é algo para se fazer sem pressa.

Que é preciso dar uma colher de chá para o acaso. Que tudo que é muito rápido pode ser bem frustrante. Que Veneza, Mykonos, Bali e Patagônia são lugares excitantes, mas que incrível mesmo é se sentir feliz dentro da própria casa. Que a vontade é quase sempre mais forte que a razão. Quase? Ora, é sempre mais forte.

No meio, a gente descobre que reconhecer um problema é o primeiro passo para resolvê-lo. Que é muito narcisista ficar se consumindo consigo próprio. Que todas as escolhas geram dúvida, todas. Que depois de lutar pelo direito de ser diferente, chega a bendita hora de se permitir a indiferença.

Que adultos se divertem muito mais do que os adolescentes. Que uma perda, qualquer perda, é um aperitivo da morte – mas não é a morte, que essa só acontece no fim, e ainda estamos falando do meio.

No meio, a gente descobre que precisa guardar a senha não apenas do banco e da caixa postal, mas a senha que nos revela a nós mesmos. Que passar pela vida à toa é um desperdício imperdoável. Que as mesmas coisas que nos exibem também nos escondem (escrever, por exemplo).

Que tocar na dor do outro exige delicadeza. Que ser feliz pode ser uma decisão, não apenas uma contingência. Que não é preciso se estressar tanto em busca do orgasmo, há outras coisas que também levam ao clímax: um poema, um gol, um show, um beijo.

No meio, a gente descobre que fazer a coisa certa é sempre um ato revolucionário. Que é mais produtivo agir do que reagir. Que a vida não oferece opção: ou você segue, ou você segue. Que a pior maneira de avaliar a si mesmo é se comparando com os demais. Que a verdadeira paz é aquela que nasce da verdade. E que harmonizar o que pensamos, sentimos e fazemos é um desafio que leva uma vida toda, esse meio todo.

Martha Medeiros

domingo, 11 de dezembro de 2011

Carlos Drummond de Andrade



TAMBÉM JÁ FUI BRASILEIRO

Eu tambem já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bars
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas ha uma hora em que os bars se fecham
e todas as virtudes se negam.


Eu tambem já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrellas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céo tamanho
que minha poesia perturbou-se.


Eu tambem já tive um rithmo.
Fazia isto, fazia aquillo.
Meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu ironico deslisava
satisfeito de ter o meu rithmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não desliso mais não,
não sou ironico mais não,
não tenho rithmo mais não.


- Carlos Drummond de Andrade em “Alguma Poesia” da primeira edição, 1930.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Namore uma garota que lê – Rosemary Urquico


Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos.
Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.

Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criador pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro.

Compre para ela outra xícara de café.
Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gosta ou gostaria de ser a Alice.
É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound, cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa.

É que ela tem que arriscar, de alguma forma.
Minta. Se ela compreender sintaxe, vai perceber a sua necessidade de mentir. Por trás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. E isto nunca será o fim do mundo.

Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois.

Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto as da série Crepúsculo.

Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até porque, durante algum tempo, são mesmo.
Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype.
Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu [Cat in the Hat] e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.

Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê.

Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve.

Texto original: Date a girl who reads – Rosemary Urquico

Tradução e adaptação – Gabriela Ventura

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Pio Vargas


goiânia,
foi-me dado
o direito de falar contigo,
não pela língua dos jornais
ou dos livros,
mas pela janela deste outubro
que nos ameaça com seus olhos
de futuro
e a dor das flâmulas boiando
nos flamboyants.
não direi dos becos
da saudade de beca
dos rios sujos
das margens secas
dos gabinetes
dos shoppings
ou do césio
ardendo nestes dias atônitos.
não direi dos pêndulos
dos vincos
de pedro Ludovico
inscrito no silêncio
dos monumentos
(o eterno da história
é o momento).

domingo, 20 de novembro de 2011

DRUMMOND


A bruxa
A Emil Farhat

Nesta cidade do Rio,
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
anunciou vida ao meu lado.
Certo não é vida humana,
mas é vida. E sinto a bruxa
presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto...
Precisava de um amigo,
desses calados, distantes,
que lêem verso de Horácio
mas secretamente influem
na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
e a essa hora tardia
como procurar amigo?

E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
que entrasse neste minuto,
recebesse este carinho,
salvasse do aniquilamento
um minuto e um carinho loucos
que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes,
quantas mulheres prováveis
interrogam-se no espelho
medindo o tempo perdido
até que venha a manhã
trazer leite, jornal e clama.
Porém a essa hora vazia
como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
conheço vozes de bichos,
sei os beijos mais violentos,
viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão.

Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
querendo romper a noite
não é simplesmente a bruxa.
É antes a confidência
exalando-se de um homem.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Zila Mamede


A também poeta Iracema Macedo publicou no seu blog "foliasofia" esse belíssimo poema dedicado a Zila Mamede:

Zila
Nessas águas que entrei a vida inteira
Não busquei nem arcas, nem peixes, nem tesouros
Só quis a branda viração das ondas
E a branca luz dispersa sobre o mar

Tentei achar um abrigo
Me queimei em caravelas
Senti dor, medo, frio
Esqueci todo perigo

Nessas águas que entrei
Aprendi a ser espuma
Aprendi com as ondas a perder e a perdoar

E quem aprendeu assim a navegar
Quem se apartou da terra desse jeito
Não sabe mais como voltar

Iracema Macedo

Rita Apoena


DIÁLOGO

— E você, por que desvia o olhar?
(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarra-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)
— Ah. Porque eu sou tímida.”

Rita Apoena

sábado, 5 de novembro de 2011

Beta,Beta ,Bethania


Então ela chega e diz: “Dá
licença, rock and roll,
que a tia vai cantar o amor


Os muitos darks que me perdoem, mas Maria Bethânia é fundamental. Sei, vocês vão dizer que ela é brega, careta, exagerada, melodramática. Pode ser. Mas essa coisa chamada vida onde estamos metidos até o pescoço, às vezes não é brega, careta, melodramática? A Vida é mais Nelson Rodrigues ou mais Clarice Lispector? Mais Augusto dos Anjos ou Emily Dickinson? Fassbinder ou Jacques Demy? Philip Glass ou Dead Kennedys? Mais Sex Pistols ou mais Cecília Meireles? Bukowski ou Bergman?

Tudo isso, sim, e muito mais. O engarrafamento às seis da tarde de uma sexta-feira de chuva, na marginal do Tietê, pode ser uma emoção-Titãs (tipo Bichos Escrotos). Transar com a garota prostituta da rua Augusta, de minissaia de couro e correntinha no tornozelo pode ser uma emoção-Dalton Trevisan. Dar um espirro bem na hora de dizer eu-te-amo pode ser uma emoção-Woody Allen. Assim por diante, cada coisa sendo uma coisa diferente. Porque o que vai sendo vivido e sentido por cada um é tão particular que, mesmo lugar comum ou já cantado em prosa e verso, é para sempre também único. Infinitiva e indivisivelmente subjetivo.

Nosa, como estou me dispersando. O que quero dizer é muito simples – adoro Maria Bethânia. Por um tempo, aposentei Eurythmics, The Cure, Talking Heads, Legião Urbana, Sting, Paul Simon – só consigo Bethânia.

Ando tomado por emoções-Bethânia. Essas, que estão morrendo à míngua, poque não é moderno ter emoções. Não é in sentir amor, envolver-se. Ficou out dizer coisas como “quero ficar com você/ e é tão fundo que eu posso dizer/ que o fim do mundo não vai chegar mais” ou “parece bolero/ te quero, te quero/ dizer que não quero/ teus beijos nunca mais” ou “quando os caminhos se separam/ não tem razão que dê mais jeito” ou “é tão difícil ficar sem você/ o teu amor é gostoso demais”. É burro cantar coisas que eu, tu, ele, nós sentimos? É brega ter desejos e carências e dores e suspiros assim, de gente?

Sentir não é brega. Ao contrário: não existe nada mais chique. Emocione-se e seja o rei de sua insensatez. Seja nobre, seja divino no desconcerto das emoções. Maria Bethânia é muito chique, e quase ninguém está vendo isso. Em Dezembros, sem querer fazer nenhuma revolução, ela chega e diz: “Dá licença, rock and roll, que a titia vai cantar o amor”. E eu peço: Crianças, cessem as guitarras, os teclados, os sintetizadores – um minuto só – e prestem atenção na voz quente dessa mulher linda do jeito inverso da beleza, cantando (que ousadia!) o amor.

Sei: a Aids está solta, e o que era possibilidade de amor agora é possibilidade de morte. Nem por isso é possível parar de amar. Você consegue? Eu, não. E não tenho medo. Sem platonismos, nem zen-budismos: quero que pinte o amor-Bethânia, dançar de rosto colado, pegar na mão à meia-luz, desenhar com a ponta dos dedos cada um dos teus traços, ficar de olho molhado só de te ver, de repente e, se for preciso, também virar a mesa, dar tapa na cara, escândalo na esquina, encher a cara de gim, te expulsar de casa e te pedir pra voltar.

Darks, pós-modernos, minimalistas, gliters, apocalípticos, concretistas, skinheads, me perdoem. Na noite de sábado, caminhando sozinho pela avenida Paulista, o quarto-crescente brilhando sobre a torre da TV Globo, uma vontade desesperada de ter alguém – as únicas canções que me vieram à mente para cantar baixinho foram canções de Bethânia. Doía fundo estar perdido na grande cidade, era completamente sem remédio ser só uma pessoazinha machucada. Mas brotou então um orgulho tão grande de ser ainda capaz de sentir o coração cheio de emoções-Bethânia que era quase como uma felicidade. Sangrada, do avesso – que importa? Era real, era vivo. Isso é muito, e Bethânia canta.

Caio Fernando Abreu

(Caderno 2 – O ESP – 1987)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Ana Teresa Jardim


Lugares
"Lugares são a coisa mais atraente do mundo, até mesmo o som dos seus nomes nos transporta, como se o próprio nome já fosse um lugar. Chicago, Nova York, Katmandu, Lisboa, Barra da Tijuca, Budapeste, Barcelona, Leningrado, Roma, Manhattan, Cornualha, Rio, Iguaçu, Açores, Portobello, Manaus, Miami, Goa, Sevilha, Bratislava, Taormina, Corfu, Brooklyn, Dakar, Nápoles, Viena, Pasárgada, Combray, Ipanema. A gente quer sempre estar num lugar – um lugar onde tudo está por acontecer para nós, por nós, um lugar que se põe em movimento, como uma flor que se abre ao sol, e se recria conforme os nossos desígnios. Mas para chegar lá, é preciso percorrer tantos outros lugares, lugares desacertados, desencontrados, lugares onde se fazem silêncios embaraçados, onde sorrimos sem vontade, onde o tempo parece ser cumprido em vez de degustado, onde as pessoas não nos abalam ou alteram, onde invocamos secretamente o nome de outro lugar."
Ana Teresa Jardim

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

caio Fernando Abreu


“Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa. Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. Ela não desiste e leva bóias. E se ela se afogar, se recupera. Estranho é que ela já apanhou demais da vida. Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta. E quem não é?
A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas? A moça…ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando. Daí você espera por alguém que venha te curar. Às vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. E pra ela? Por quem ela espera? E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará." (por Caio Fernando Abreu)

domingo, 23 de outubro de 2011

Caio Fernando Abreu


Nave, ninho, poço, mata, luz,
abismo, plástico, metal,
espinho, gota, pedra, lata.
Passei o dia pensando – coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação – repetido, invertido – ação, cor – sem sentido – couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.
Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.
Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.
Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.
Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.
Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.
Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.
Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pos. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.
Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.
Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.
Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.
Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: “Im too pure for you or anyone”. Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.
Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.
Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.
Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.
Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.
Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.
Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos – ai de mim! ai, ai de mim!
Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também.
Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso. Acesa, aceso – vasto, vivo: meu coração teu.
Caio Fernando Abreu em Pequenas Epifanias

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Milágrimas / Anna Toledo




Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre
Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre

Alice Ruiz

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

MILA


Era pouco maior do que minha mão: por isso eu precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como eu não tinha muito jeito, encostei-a ao peito para que ela não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela também. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me fundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou.

Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?
Amá-la – foi a resposta, também acredito que ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam.

Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigiu a minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.
Tendo-a ao meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu “fumos fidalgos”, como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma lady, uma rainha de Sabá numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários.

No sábado, olhando-me nos olhos, com seu olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais que amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem maior do que meu peito, levei-a até o fim.

Eu me considerava um profissional decente. Até semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela.
Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.

© Carlos Heitor Cony.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A OUTRA NOITE


A OUTRA NOITE
Rubem Braga

Outro dia fui a São Paulo e resolvi voltar à noite, uma noite de vento sul e chuva, tanto lá como aqui. Quando vinha para casa de táxi, encontrei um amigo e o trouxe até Copacabana; e contei a ele que lá em cima, além das nuvens, estava um luar lindo, de lua cheia; e que as nuvens feias que cobriam a cidade eram, vistas de cima, enluaradas, colchões de sonho, alvas, uma paisagem irreal.

Depois que o meu amigo desceu do carro, o chofer aproveitou o sinal fechado para voltar-se para mim:

-O senhor vai desculpar, eu estava aqui a ouvir sua conversa. Mas, tem mesmo luar lá em cima?

Confirmei: sim, acima da nossa noite preta e enlamaçada e torpe havia uma outra - pura, perfeita e linda.

-Mas, que coisa...

Ele chegou a pôr a cabeça fora do carro para olhar o céu fechado de chuva. Depois continuou guiando mais lentamente. Não se sonhava em ser aviador ou pensava em outra coisa.

-Ora, sim senhor...

E, quando saltei e paguei a corrida, ele me disse um "boa noite" e um "muito obrigado ao senhor" tão sinceros, tão veementes, como se eu lhe tivesse feito um presente de rei.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

“NÓIS MUDEMO”


“NÓIS MUDEMO”

Fidêncio Bogo

Ônibus da Transbrasiliana deslizava manso pela Belém-Brasilia rumo ao Porto Nacional.
Era abril, mês das derradeiras chuvas. No céu, uma luzona enorme pra namorado nenhum botar defeito. Sob o luar generoso, o cerrado verdejante era um presépio, todo poesia e misticismo.

As aulas tinham começado numa segunda-feira. Escola de periferia, classes heterogêneas, retardatários. Entre eles, uma criança crescida, quase um rapaz.

- Por que você faltou esses dias todos?
- É que nóis mudemo onti, fessora. Nóis veio da fazenda.
Risadinhas da turma.
- Não se diz “nóis mudemo” menino! A gente deve dizer: nós mudamos, ta?
- Tá fessora!
No recreio as chacotas dos colegas: Oi, nóis mudemo! Até amanhã, nóis mudemo!
No dia seguinte, a mesma coisa: risadinhas, cochichos, gozações.
- Pai, não vô mais pra escola!
- Oxente! Módi quê?
Ouvida a história, o pai coçou a cabeça e disse:
- Meu fio, num deixa a escola por uma bobagem dessa! Não liga pras gozações da mininada!
Logo eles esquece.
Não esqueceram.
Na quarta-feira, dei pela falta do menino. Ele não apareceu no resto da semana, nem na segunda-feira seguinte. Aí me dei conta de que eu nem sabia o nome dele. Procurei no diário de classe e soube que se chamava Lúcio – Lúcio Rodrigues Barbosa. Achei o endereço.
Longe, um dos últimos casebres do bairro. Fui lá, uma tarde. O rapaz tinha partido no dia anterior para casa de um tio, no sul do Pará.
-É, professora, meu tio não agüentou as gozações da mininada. Eu tentei fazê ele continuá, mas não teve jeito. Ele tava chateado demais. Bosta de vida! Eu devia di tê ficado na fazenda coa famia. Na cidade nóis não tem veis. Nóis fala tudo errado.
Inexperiente, confusa, sem saber o que dizer. Engoli em seco e me despedi.

O episódio ocorrera há dezessete anos e tinha caído em total esquecimento, ao menos de minha parte.
Uma tarde, um povoado à beira da Belém-Brasília, eu ia pegar o ônibus, quando alguém me chamou.
Olhei e vi, acenando para mim, um rapaz pobremente vestido, magro, com aparência doentia.
-O que é, moço?
-A senhora não se lembra de mim, fessora?
Olhei para ele, dei tratos à bola. Reconstitui num momento meus longos anos de sacerdócio, digo de magistério. Tudo escuro.
-Não me lembro não, moço. Você me conhece? De onde? Foi meu aluno? Como se chama?
Para tantas perguntas, uma resposta lacônica:
-Eu sou “Nóis mudemo”, lembra?
Comecei a tremer.
-Sim, moço. Agora lembro. Como era mesmo o seu nome?
-Lúcio – Lúcio Rodrigues Barbosa.
- 0 que aconteceu? Ah! Fessora! É mais fácil dizê o que não aconteceu. Comi o pão que o diabo amasso. E êta diabo bom de padaria! Fui garimpeiro. Fui bóia-fria, um “gato” me arrecadou e levou num caminhão pruma fazenda no meio da mata. Lá trabaiei como escravo, passaei fome, fui baleado quando conseguir fugi. Peguei tudo quando é doença. Até na cadeia já fui pará. Nóis ignorante as veis fais coisa sem querê fazê. A escola fais uma farta danada. Eu não devia tê saído da quele jeito, fessora, mais não agüentei as gozação da turma. Eu vi logo que nunca ia consegui falá direito. Ainda hoje não sei.
-Meu Deus!
Aquela revelação me virou pelo avesso. Foi demais para mim. Descontrolada, comecei a soluçar convulsivamente. Como eu podia ter sido tão burra e má? E abracei o rapaz, o que restava do rapaz que me olhava ataratado.
O ônibus buzinou com insistência.
- O rapaz afastou-me se si suavemente.
- Chora não, fessora! A senhora não tem curpa.
Como? Eu não tenho culpa? Deus do céu!
Entrei no ônibus apinhado. Cem olhos eram cem flexas vingadoras apontadas para mim. O ônibus partiu. Pensei na minha sala de aula. Eu era uma assassina a caminho da guilhotina.

Hoje tenho raiva da gramática. Eu mudo, tu mudas, ele muda, nós mudamos... Super usada, mal usada, abusada, ela é uma guilhotina dentro da escola. A gramática faz gato e sapato da língua materna, a língua que a criança aprendeu com seus país e irmãos e colegas – e se torna o terror dos alunos. Em vez de estimular e fazer crescer, comunicando, ela reprime e oprime, cobrando centenas de regrinhas estúpidas para aquela idade.
E os lúcios da vida, os milhares lúcos da periferia e do interior, barrados nas salas de aula:
“Não é assim que se diz, menino!” Como se o professor quisesse dizer: “Você está errado! Os seus país estão errados! Seus irmãos e amigos e vizinhos estão errados! A certa sou eu! Imite-me!
Copie-me! Fale como eu! Você não seja você! Renegue suas raízes! Diminua-se ! Desfigure-se! Fique no seu lugar!
Seja uma sombra!”
E siga desarmado para o matadouro da vida...

domingo, 18 de setembro de 2011

Amar é Punk - Fernanda Mello


Eu já passei da idade de ter um tipo físico de homem ideal para eu me relacionar. Antes, só se fosse estranho (bem estranho). Tivesse um figurino perturbado. Gostasse de rock mais que tudo. Tivesse no mínimo um piercing (e uma tatuagem gigante). Soubesse tocar algum instrumento. E usasse All Star. Uma coisa meio Dave Grohl. Hoje em dia eu continuo insistindo no quesito All Star e rock´n roll, mas confesso que muita coisa mudou. É, pessoal, não tem jeito. Relacionamento a gente constrói. Dia após dia. Dosando paciência, silêncios e longas conversas. Engraçado que quando a gente pára de acreditar em “amor da vida”, um amor pra vida da gente aparece. Sem o glamour da alma gêmea. Sem as promessas de ser pra sempre. Sem borboletas no estômago. Sem noites de insônia. É uma coisa simples do tipo: você conhece o cara. Começa, aos poucos, a admirá-lo. A achá-lo foda. E, quando vê, você tá fazendo coraçãozinho com a mão igual uma pangaré. (E escrevendo textos no blog para que ele entenda uma coisa: dessa vez, meu caro, é diferente). Adeus expectativas irreais, adeus sonhos de adolescente. Ele vai esquecer todo mês o aniversário de namoro, mas vai se lembrar sempre que você gosta do seu pão-de-sal bem branco (e com muito queijo). Ele não vai fazer declarações românticas e jantares à luz de vela, mas vai saber que você está de TPM no primeiro “Oi”, te perdoando docemente de qualquer frase dita com mais rispidez. Ah, gente, sei lá. Descobri que gosto mesmo é do tal amor. DA PAIXÃO, NÃO. Depois de anos escrevendo sobre querer alguém que me tire o chão, que me roube o ar, venho humildemente me retificar. EU QUERO ALGUÉM QUE DIVIDA O CHÃO COMIGO. QUERO ALGUÉM QUE ME TRAGA FÔLEGO. Entenderam? Quero dormir abraçada sem susto. Quero acordar e ver que (aconteça o que acontecer), tudo vai estar em seu lugar. Sem ansiedades. Sem montanhas-russas. Antes eu achava que, se não tivesse paixão, eu iria parar de escrever, minha inspiração iria acabar e meus futuros livros iriam pra seção B da auto-ajuda, com um monte de margaridinhas na capa. Mas, caramba! Descobri que não é nada disso. Não existe nada mais contestador do que amar uma pessoa só. Amar é ser rebelde. É atravessar o escuro. É, no meu caso, mudar o conceito de tudo o que já pensei que pudesse ser amor. Não, antes era paixão. Antes era imaturidade. Antes era uma procura por mim mesma que não tinha acontecido. Sei que já falei muito sobre amor, acho que é o grande tema da vida da gente. Mas amor não é só poesia e refrão. Amor é reconstrução.É ritmo. Pausas. Desafinos. E desafios. Demorei anos pra concordar com meu querido Cazuza: “eu quero um amor tranqüilo, com sabor de fruta mordida”. Antes, ao ouvir essa música, eu sempre pensava (e não dizia): porra, que tédio! Ah, Cazuza! Ele sempre soube. Paixão é para os fracos. Mas amar - ah, o amor! - AMAR É PUNK.

Fernanda Mello

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Dez teses sobre Natal


Por Alyson Freire
NA CARTA POTIGUAR

Não há melhor maneira de descrever Natal do que segundo as coisas que seus próprios habitantes não param de repetir sobre sua cidade. Assim como em outros lugares, também em Natal, cristalizaram-se e generalizaram-se algumas atitudes emocionais poderosas. Os natalenses reprovam, com convicção, traços e hábitos que seriam inerentes a este pequeno pedaço de terra espremido na esquina do atlântico; o provincianismo arraigado, a mesquinhez camuflada de extravagância de suas classes abastadas, o gosto cultivado pelas classes médias locais por tudo o que é capaz de aparentar e enganar, o comodismo e a insensibilidade de seu povo, entre outros traços mais. O que distingue Natal de todas as outras capitais consiste na afinidade e na naturalidade com que seus habitantes convivem com a insatisfação de estarem onde estão; isto é, a intimidade com as poderosas associações negativas sobre as quais construíram e fundaram a autoimagem de sua cidade e população.

*

Natal é uma cidade melancólica, e não a cidade do prazer, como um dia quiseram nos fazer acreditar. Só conhece a melancolia de Natal que cresceu em seu regaço. Seus futuros tão prometidos por publicitários, empresários e políticos, como ramos secos, nunca se realizam. Cidade da falta. Natal é apontada por seus próprios filhos como desprovida de cultura e identidade próprias. Cidade da ausência, de filhos ilegítimos e órfãos de verdadeira cultura, assim a concebem seus próprios moradores. O existir para os natalenses é sempre uma questão de ausência; é da falta que irrompe todo sentido sobre o seu ser: a falta de cultura, a falta de identidade, a falta de alternativas, a falta de um senso urbano metropolitano, de civilidade e cosmopolitismo verdadeiros. Os outros – pernambucanos, paraibanos e cearenses – lhes são como espelhos negativos nos quais os natalenses vêem menos o que não são e mais o que lhes falta. O espelho, impiedoso, não lhes devolve com claridade os traços e contornos que seriam seus. Sua identidade é como uma imagem refletida num espelho desfocado. A inautenticidade é o que reluz mais radiante no olhar dos natalenses.

*

Nenhuma outra cidade é tão ferozmente ressentida consigo mesma quanto Natal. Esta só existe através da fala de seus habitantes, em suas queixas e frustrações. Por isso, Natal é mais a cidade que se descreve, do que a cidade que se vê; ela é, antes de qualquer coisa, o seu discurso, ou pelo menos, vive do seu próprio discurso ressentido. Natal vive da insatisfação de ser Natal. Ela é uma cidade que tem medo de se realizar, e, por isso mesmo, deseja ser menor do que realmente é, mais provinciana e menos moderna do que realmente é. Suas muralhas são os seus próprios medos. Seus obstáculos são os seus autoenganos acerca de si mesma.

*

Por aqui, moderno e província coexistem, se interpenetram, lutam e se repelem conflituosamente e sem síntese. Estranho paradoxo esse, mas que diz algo de fundamental com respeito à autoimagem dessa cidade. É sua ambigüidade, a violência do contraste observada no jogo entre o frívolo e o ressentimento, a alternância dos contrários, a tensão espiritual entre a extravagância e a excitação alienada de seus cidadãos-blasés com o permanente estado de mal-estar e deslocamento com o qual convivem diariamente parte de seus cidadãos descontentes, que conferem, por assim dizer, a dinâmica da qual nasce o “espírito” da capital do Rio Grande do Norte.

*

De sorte que Natal é simultaneamente a Natal das cadeiras e fofocas nas calçadas e do apreço por padres, médicos e advogados de renome, e a Natal das passarelas e travessias por onde os passantes inquietos escoam apertados e encolhidos e os olhares se cruzam sem quase nunca se fixar. É a cidade que se diz hospitaleira, calma e pacata, mas é também a cidade do automóvel, regida, como qualquer outra metrópole, em sua orquestra diária pelos sinais de trânsito, muito embora seu tamanho real afirme sua vocação pra bicicletas. É o provincinismo compartilhado de Natal que impede que se veja o quanto há de moderno nessa cidade, sacudida e revirada de fio à pavio desde os empreendimentos mobiliários aos fluxos transnacionais de modas, corpos, perversões e desejos; uma cidade globalizada pelos sites pornográficos e pela prostituição. Nosso provincinismo é essa atitude emocional habitual de envergonhar-se e encolher a si mesmo para negar nossa modernidade.

*

A cidade de Câmara Cascudo, deste que se definia como um “provinciano incurável”, também conheceu Mario de Andrade e Jorge Fernandes, esse último o nosso poeta modernista. Cidade das contradições e contra-sensos, das dubiedades e incongruências, de “vaqueiros motorizados” e “dandis jecas”.

*

Esta é também a cidade dos modismos. Nela nada dura o suficiente, e quase tudo é irritantemente passageiro e efêmero. Tudo se consome num prazo de dois verões. Ninguém cultua tanto o novo como o natalense; os novos bares e boates, os novos restaurantes, casas-de-show e teatros em shopping’s centers. Tal é, em geral, que cada novidade é veementemente celebrada, agitada, propalado às raias da comoção pública, pois significa mais uma ocasião para a ostentação e para o esporte predileto dos natalenses, a exibição, pois não se sabe ao certo o quanto essa mais nova novidade irá durar.

*

Aqui a aparência tem que ter sempre razão. Nesta cidade quase todos são vigiados pelo colunismo social. Por toda parte se estar cercado por um sem número de colunistas sociais ordinários que, por cima dos ombros, espiam sorrateiros de quais roupas, marcas, amigos e objetos seus vigiados se cercam. Aqui, nutrimos um gosto pelo acusatório, uma predileção por gestos reativos e pelo ressentimento semi-esclarecido. O ressentimento é o elemento intelectual desta cidade. Não se enganem, Natal é a mais pequeno-burguesa das cidades brasileiras, pois seus conterrâneos não cessam de atribuir à culpa e o mal aos outros – políticos, imprensa, o povo etc. – sem perceber como absurdo sua própria autoexclusão do contexto que denunciam.

*

Grande parte dos natalenses sente-se mal em sua própria casa, mas porque, de alguma maneira, se concebem como maiores, melhores e mais verdadeiros do que o restante da cidade. Os natalenses, em sua porção média, são estrangeiros em sua própria terra; dizem estar de passagem, de partida pra não sei onde – talvez para alguma cidade no Canadá. Porque Natal, em seu provincianismo e artificialidade, não os cabe, nem os merece e tão pouco os aquilata em sua singularidade e autenticidade.

*

Nossa vocação política é fabricar cartões-postais artificiais. Esta é uma cidade que não sonha porque nunca desperta. Natal não é nada do que fez crer – e desejou crer – de si. E, assim, aprendeu a conhecer somente medos e dúvidas, frustrações e fracassos. Uma cidade impossível…

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Bruna Beber


"Lusofeelings"

"quando formiga e arde
o nariz e o olho
engulo
choro com saliva ou qualquer
coisa que comprometa
a fala
a despedida é tão intrigante
quanto a saudade
desnecessária
ou quanto a rima
desnecessária
banho de água fria
se cura com um balde
de café
beijo a mão e aceno
para o espelho
o dedo do meio

terça-feira, 6 de setembro de 2011

às vezes nos reveses


às vezes nos reveses


penso em voltar para a england
dos deuses
mas até as inglesas sangram
todos os meses
e mandam her royal highness
à puta que a pariu.
digo: agüenta com altivez
segura o abacaxi com as duas mãos
doura tua tez
sob o sol dos trópicos e talvez
aprenderás a ser feliz
como as pombas da praça matriz
que voam alto
sagazes
e nos alvejam
com suas fezes
às vezes nos reveses

Angélica Freitas

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Religare (Muirakitan K. de Macedo)





este aqui não está aqui. mas, ficou.

olha o telefone, laptop e tickets de embarque.

silente.

este aqui possui galgos.

nos lábios, guarda pérolas roubadas.

no sobrolho, uma tatuagem.

nos bolsos, amuletos de Domenha.

entre os dois mamilos, o Etna.

este aqui congela relógios,

atrasa estações e nunca neva.

este aqui começa.

colhe inícios em tudo.

varre indícios do fim.

este aqui vasa pela argila que o contém.

enxuga cristais emplumados nos olhos dela.

este aqui a toma no colo.

abre os lençóis da cama e deita-a.

vela as pálpebras mornas de seu sono.

este aqui se alegra em núpcias.

acompanha-a pelo mundo.

este aqui se bastou com a eternidade.

e permanece.




Muirakitan K. de Macedo, em ‘Partícula Elementar’, Natal(RN): Flor do Sal, 2011



domingo, 21 de agosto de 2011

O Raio - texto de Ítalo Calvino‏


Aconteceu-me uma vez, num cruzamento, no meio da multidão, no vaivém. Parei, pisquei os olhos: não entendia nada. Nada, rigorosamente nada: não entendia as razões das coisas, dos homens, era tudo sem sentido, absurdo. E comecei a rir. Para mim, o estranho naquele momento foi que eu não tivesse percebido isso antes. E tivesse até então aceitado tudo: semáforos, veículos, cartazes, fardas, monumentos, essas coisas tão afastadas do significado do mundo, como se houvesse uma necessidade, uma coerência que ligasse umas às outras. Então o riso morreu em minha garganta, corei de vergonha. Gesticulei, para chamar a atenção dos passantes e – Parem um momento! – gritei – tem algo estranho! Está tudo errado! Fazemos coisas absurdas! Este não pode ser o caminho certo! Onde vamos acabar? As pessoas pararam ao meu redor, me examinavam, curiosas. Eu continuava ali no meio, gesticulava, ansioso para me explicar, torna-las participantes do raio que me iluminara de repente: e ficava quieto. Quieto, porque no momento em que levantei os braços e abri a boca a grande revelação foi como que engolida e as palavras saíram de mim assim, de chofre. - E daí? – perguntaram as pessoas. – O que o senhor quer dizer? Está tudo no lugar. Está tudo andando como deve andar. Cada coisa é conseqüência da outra. Cada coisa está vinculada às outras. Não vemos nada de absurdo ou de injustificado! E ali fiquei, perdido, porque diante dos meus olhos tudo voltara ao seu devido lugar e tudo me parecia natural, semáforos, monumentos, fardas, arranha-céus, trilhos de trem, mendigos, passeatas; e no entanto não me sentia tranqüilo, mas atormentado. - Desculpem – respondi. – Talvez eu é que tenha me enganado. Tive a impressão. Mas está tudo no lugar. Desculpem. – E me afastei entre seus olhares severos. Mas, mesmo agora, toda vez (freqüentemente) que me acontece não entender alguma coisa, então, instintivamente, me vem a esperança de que seja de novo a boa ocasião para que eu volte ao estado em que não entendia mais nada, para me apoderar dessa sabedoria diferente, encontrada e perdida no mesmo instante.
Calvino, Ítalo; Um general na biblioteca; São Paulo, Companhia das Letras, páginas16-17

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

João Batista de Morais Neto


A imprecisão das coisas
é fato decisivo
na cartografia indecisa
do cotidiano

O que pulverizaria a rotina?

Por trás do silêncio
Um amálgama de conflitos
O que se esconde?
O que se refrata?
O que escapa?

A tática do silêncio que julga
mais a que fala
O efeito do sentido quando o silêncio fala

Hordas de maledicências
vão tecendo a matéria vil
de um silêncio sem motivo

eis a dança das najas cotidianas
que soltam a peçonha do silêncio

também a tagarelice, esse signo vulgar,
não reúne as cores vivas
da surpresa

Vale o impreciso do silêncio
como um preceito búdico
que diz o branco do branco
e o escuro em que somem
os matizes
para reverberar tudo
na mistura da festa dos sentidos

(João Batista de Morais Neto)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Pirenópolis



Em viagem por Brasilia,tive o prazer de conhecer a encantadora cidadezinha de Pirenópolis.Em boa companhia com os amigos João e Josemária,juntou-se a nós,Tião ,Rejane e família.Aliás,foi idéia de Tião a viagem e ninguém melhor do que ele para nos apresentar a cidade.Deixo com ele o relato:

Dezembro em agosto


Tetê Bezerra em Brasília, show de Pedro Mendes no Feitiço Mineiro e a companhia de um casal que guarda nos poros a memória de uma cidade trouxeram de volta a Natal dos anos 80 para um fim de semana em Pirenópolis (GO)

Se o calor associado à baixa umidade do ar aí fora não fosse tão forte, eu diria que já é dezembro. Ocorre que é em novembro, dezembro, começo do fim do ano, que o mormaço da volta das chuvas traz e instala no ar da minha ideia uma febre de saudosismo da brisa potiguar e seus acessórios todos. Você pode chamar de verão ou de expectativa pelas festas de fim de ano mas posso muito bem dizer que se trata daquele dito desassossego de que fala Dominguinhos na não menos evocativa “Quando chega o verão”. Pois este ano parece que o verão chegou mais cedo. Seis meses antes. Ocorre que existem pessoas habitando Natal, vivendo em Brasília e agraciando com suas presenças a permanência da espécie humana sobre a superfície da Terra que são capazes de provocar este fenômeno – meteorológico, temporal e principalmente humano.

Vamos parar com a elucubração, explicar o que se passa e dar nome aos iluminados que aqui e ali aparecem para lustrar o que há de opaco neste negócio chamado vida, existência, o que for. Ocorre que chegou a Brasília semana passada e aqui está até esta segunda-feira a figura doce de Tetê Bezerra, alguém que com sua mansidão entre Paraíba e litoral, Nova Palmeira e Natal, carrega o espírito de um tempo de calma que só alguns privilegiados conseguem portar, ao não se intimidar diante da correria financista dos dias atuais. Tetê chegou e fomos mostrar a ela a cidade Pirenópolis, uma espécie de Pipa local para onde fogem brasilienses e goianos em buscar de um fim de semana de descanso, de aventura de cachoeiras ou de boemia mansa de mesas e cadeiras ao luar das ruas.



Na véspera, aquela Natal que quem conheceu guarda no relicário da memória – sem ressentimentos com os dias atuais, mas com a mais saudável nostalgia do que foi bonito enquanto durou – já vinha dando seus sinais. Na noite anterior à viagem, fomos eu e Rejane ao Feitiço Mineiro ver com Roberto Homem e sua troupe o show de Pedrinho Mendes. Nada mais evocativo do que o repertório clássico de Pedrinho, a Madeleine gustativa que faz presente no ambiente a antiga cidade das dunas ao mero soar dos primeiros acordes. Saí do Feitiço feliz porque finalmente consegui adquirir os dois primeiros discos do artista que – independente do que ele viria a fazer depois – vão permanecer sempre como os meus favoritos, e imagino que de muita gente mais.

Senti no show que Pedrinho se incomoda um pouco de cantar o repertório daqueles discos (cantou três faixas apenas), como se procurasse fugir do cancioneiro mais batido. Relaxa, Pedrinho, que até Caetano Veloso quando vai no programa de Jô Soares pega o violão de novo e mais uma vez canta “Alegria, Alegria” e suas mais repetidas (e belas) composições. Então imagina um show de Pedrinho longe de Natal, diante de uma comunidade saudosa da terra – e mais do que da terra, do tempo, dos anos 80 de Linda Baby (que, claro, ele teve de cantar) e de “Alegres Meninos” (que o danado omitiu)... A teoria da calda longa taí pra mostrar que mais do mesmo é necessidade estética tão forte e significativa quanto a novidade. De qualquer maneira, o show do Pedro consolidou algo que na verdade veio se desenhando uns dias atrás.

Aqui, no computador, tuitando com os amigos, Rubinho Lemos – outra figura que só de falar nele já quase posso ver a máquina do tempo bom abrindo a porta aqui do meu lado – contou que encontrara uns dias antes numa locadora de filmes meu velho amigo Jano Sérvio, a quem não vejo há tempos, mesmo indo regularmente a Natal. Pois a mera observação de Rubinho me trouxe de volta outro capítulo bom dos dez anos em que morei na cidade do sol, período de formação, tempos de universidade, verdes anos que a gente tem que manter vivo a todo custo – tem mesmo, trata-se de cada um encontrar o seu jeito de fazer isso. Este texto aqui mesmo é pra mim uma dessas maneiras. Este blogue, a Hamaca, é outra.



O tuite tombém, ora. E foi tuitando no mar da insônia que esbarrei em outro pequeno marco daquela Natal que, como dizia no início, normalmente chega com força em dezembro mas este ano se antecipou pelas mãos de Tetê Bezerra e mais duas pessoas de quem falo já, paciência. Tuitando, como dizia, velejava nas enseadas do YouTube em busca de coisas do tempo e do lugar para recomendar aos amigos online (um deles, Valdir Julião, outro representante daquela Natal) quando esbarro em algo de que mal lembrava mesmo tendo ouvido tanto: Arrigo Barnabé e outra Tetê, a Espíndola, cantando “Pô, Amar é Importante”. Como ouvi essa música, quantas e quantas vezes. Não sei bem se na casa do meu amigo Jano ou sob o teto do meu outro amigo Carlos de Souza: só sei que ouvi muito, que não lembrava absolutamente disso e que, assim como a “Linda Baby” de Pedrinho, essa é uma música ligeira que, por força do que representa para a memória e a reconstituição de um tempo que, como todos os outros, enfim passou, é um achado parecido com tônico da juventude. Não existe, mas você bem pode inventá-lo com a força da memória e da emoção (não por outro motivo, “Pô...” é a postagem anterior a esta aqui na Hamaca).

Há um derradeiro e igualmente evocativo parágrafo nesta postagem que conta sobre o verão antecipado que chegou com Pedrinho, Arrigo e as duas Tetês – a Bezerra e a Espíndola: ocorre que Tetê levou para Pirenópolis com a gente o casal potiguar João e Josemária – ele de Caicó, ela de Macau. Não sei se pela origem comum seridoense, mas João se mostrou aquela pessoa que você vê pela primeira vez e tem a impressão de quem sempre conviveu com ela. O cidadão que, identificado com os mesmos pontos de partida, a mesma geografia humana pretérita, torna-se instantaneamente um amigo com quem se está tão à vontade como se conhecesse desde o jardim de infância. E é bom que isso ainda aconteça quando a gente tem 45 anos, vive numa cidade onde os contatos pessoais são menos efusivos do que na costa nordestina e onde, por questão de vida profissional e familiar mesmo, acha até que não vai mais encontrar novos amigos. João, com seu sorriso de caicoense tranqüilo, contraria tudo isso.



E junto com ele, tem Josemária – que eu conhecia, ora. Sabia que conhecia antes de encontrar na partida para Pirenópolis aqui perto na igrejinha do Setor Militar. Você também deve lembrar de Josemária, uma figura marcante da Natal dos anos 80 e que hoje está instalada em Brasília, cidade que adotou, botou no braço pra ninar e não pretende deixar tão cedo. Josemária Patrício foi uma revolução no sistema policial potiguar da década de 80, como delegada de Defraudações e de Roubo de Veículos num tempo em que qualquer feminismo era batalha muito mais ferrenha. Agora você imagine no campo do trabalho policial, minha leitora e meu leitor identificado com as coisas do tempo e do lugar. O que eu ignorava é que Josemária é um livro de memórias sobre a Natal dos tempos em que Ponta Negra não tinha água encanada nem telefone, da época em que o meio estudantil da UFRN misturava direito com filosofia (como ela própria fez), de uma era em que a gente ria sem maldade de certa figura apelidada (pela turma de Josemária, veja só) de “Pinote de Cabra”.

Dias atrás houve no tuite um pequeno movimento que lembrava a “Natal das antigas”. Josemária não usa o tuíte ou qualquer outra rede social. Se usasse, teria dado show no “Natal das antigas” com as lembranças que mostrou pra gente no final de semana em Pirenópolis, durante este encontro que cimentou a impressão dispersa no ar da minha percepção de que, sim, este ano o verão chegou mais cedo. Ou pelo menos deu uma prévia de presente neste restinho de pausa de meio de ano, a tempo de a gente respirar fundo e se agüentar até o dezembro propriamente dito, quando a sina do tempo lembrado se completa e se renova. E esta postagem é o meu muito obrigado a todos os aqui citados e que permitiram, favoreceram, contribuíram para que essa bonança extemporânea acontecesse.

http://hamacadepoti.blogspot.com/2011/08/dezembro-em-agosto.html

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Adélia Prado


AMOR NO ÉTER
.


Adélia Prado
.

Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.

terça-feira, 26 de julho de 2011

são sebastião


Nel Meirelles

as ruas
me atravessam

as esquinas
guardam meus pedaços

as largas avenidas
amaciam meus passos

o sol do arpoador
me descobre a alma

bangu, campo grande, realengo
são trilhas de longas caminhadas

tijuca, ipanema e são cristóvão
canções de todos os carnavais

e minha mangueira
plantada no alto do morro
é a alma desse rio de janeiro
que vive e revive em mim

sábado, 23 de julho de 2011

GERAÇÃO 60



a carta branca do montilla
não era de alforria.
o papagaio era calado.
o cuba-libre nos prendia.
e em barris de carvalho
o tempo envilecia.

sérgio de castro pinto


A belíssima foto é do fotógrafo potiguar João Maria.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Aniversário


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Versos escritos por Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Álvaro de Campos, em 1929.

sábado, 9 de julho de 2011

Separação


Desmontar a casa e o amor.
Despregar os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas após a tempestade
das conversas.

O amor não resistiu às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros, discos e remorsos.
Esperar o infernal juízo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo modo de botar a mesa.
Amou-se um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas,
tropas de insultos malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem numa
colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa mais que uma mala de chumbo.


Por Affonso Romano de Sant'ana

terça-feira, 5 de julho de 2011

Sorriso Maroto


Sabe? Nesses tempos meio desesperançados, meio doidos e doídos, preciso fazer uma confissão pública: tenho inveja de quem não tem seguidor, não defende uma reputação, não segue qualquer escola de pensamento, não se filiou a um partido político, não precisa vestir paletó (fato, irmãos portugueses), não guarda dinheiro na poupança, não tem eira nem beira.
Puxa, como deve ser gostoso sentar e escrever o que quiser sem precisar explicar que continua coerente com o que redigiu há seis anos. Quando crescer ainda vou ser um anarquista! E quando morrer quero que o meu céu seja bem bagunçado, cheio de gente conversando, lotado de mesas desarrumadas e sem etiqueta social. Quero ser recebido por um anjo com a camisa para fora das calças e de chinelo. (Lá, vou palitar meus dentes sem cobrir a boca).
Penso em começar a escrever usando um pseudônimo. Talvez eu vá me chamar de “Zé Alguma Coisa” – ou talvez opte por um nome árabe, já que os escritores de lá ganham muito dinheiro empinando pipas. Se algum dia eu me tornar um “Zé Alguma Coisa” vou anarquizar com todo mundo, começando por mim mesmo e elogiar os que não merecerem.
Quero ter a liberdade de xingar as imbecilidades religiosas, falar de perdão para os piores pecadores e oferecer esperança para os tipos mais estranhos. Para isso, vou valer-me de metáforas insanas e de argumentos bem absurdos.
Prometo assumir minha legítima verve cearense. Ainda vou tornar-me um repentista, comediante ou romancista regionalista. Ambiciono transitar desde o José de Alencar até o Tiririca. Ora, na minha terra, que é seca, até o sol é vaiado quando rompe com as nuvens e estraga a perspectiva da chuva. Sendo assim, espero poder vaiar quem eu quiser - inclusive a mim mesmo.
Vou apupar os professores que papagaiam teologias sistemáticas redondinhas, copiadas de compêndios fundamentalistas da década de 1940. (acontece que já não agüento teorias que mostram um Javé sanguinário, que antes das pessoas nascerem, as condenou ao fogo eterno); vou zombar dos “levitas” emplumados que tentam parecer com os artistas da Globo; vou rir dos “apóstolos”, especialistas em curar caroços do corpo.
Ainda hei de voltar a dormir com meu sorriso maroto da adolescência - chega de cenhos franzidos. Sinto que a vida tem que ser levada mais na esportiva, na “maciota” como dizem os boêmios, e é assim que almejo encarar meus últimos dias: sem a sofreguidão dos austeros ambientes farisáicos.
Ah, como tenho ciúmes de quem se rodeia de amigos que sabem fazer batucada na mesa, transformando cada refeição numa gostosa farra enquanto se abraçam publicamente.
Quero aprender a usar a vida como argamassa para minha pobre poesia. E se alguém rotular-me de maluco, responder com uma gostosa risada; se avisar que perdi o senso, aplaudir; se advertir que caminho para a perdição eterna, agradecer com um beijo na testa.
Sem lenço, sem documento, sem peso nos ombros e sem culpas persecutórias, vou assumir minha Ricardice - dizem que isso previne vários tipos de câncer.
Soli Deo Gloria.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Mudança dos Ventos - Nana Caymmi.wmv



Mudança dos Ventos
Nov

11

Ivan Lins & Vitor Martins
Canta: Nana Caymmi
Ah, vem cá, meu menino
Pinta e borda comigo
Me revista, me excita
Me deixa mais bonita

Ah, vem cá, meu menino
Do jeito que imagino
Me tira essa canseira
Me tira essas olheiras
De esperar tanto tempo
A mudança dos ventos
Pra me sentir com forças
Prá me sentir mais moça

Ah, vem cá, meu menino
Pinta e borda comigo
Me revista, me excita
Me deixa mais bonita

Ah, vem cá, meu menino
Do jeito que imagino
Me tira essa vergonha
Me mostre, me exponha
Me tire uns 20 anos
Deixa eu causar inveja
Deixa eu causar remorsos
Nos meus, nos seus, nos nossos...

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Eu,modo de usar


Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Acordo pela manhã com ótimo humor mas … permita que eu escove os dentes primeiro. Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza. Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais. Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo. Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sózinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. ( Então fique comigo quando eu chorar, combinado?). Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem… gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade. Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate que isto é coisa de gente triste. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.
Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca … Goste de música e de sexo. goste de um esporte não muito banal. Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua familia… isso a gente vê depois … se calhar … Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora. Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos … me faça massagem nas costas. Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções. Me rapte! Se nada disso funcionar … experimente me amar!

MARTHA MEDEIROS

Foto: ingrid bergman

sábado, 4 de junho de 2011

Elisabeth Bishop (carta)


Marianne sempre usava uma trança enrolada no alto da cabeça, creio que um penteado de 1900, mais ou menos; jamais usou outro. Sua pele era clara, translúcida, embora já um pouco descorada quando a conheci. Seu rosto pálido corava tão depressa que ela me lembrava a Rima do romance de W.H.Hudson, Green mansions. Seus olhos brilhavam, mas não no sentido comum da expressão – ou seja, de que eram vivos. Eram vivos também, mas realmente brilhavam, como os olhos de um animal pequeno, e muitas vezes olhavam de relance para o interlocutor – rapidamente, ao final de uma frase que saíra particularmente boa, só para ver se ela tinha surtido efeito.
Elisabeth Bishop
(Em: Esforços do afeto, Cia da Letras, 2006. Tradução de Paulo Henriques Britto).

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Vinicius de Moraes


Ausência
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinícius de Moraes

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O que eu quero de vc


Quero acordar do seu lado num domingo de manhã e saber que não temos hora para sair da cama. E, depois, ir tomar café na padaria e ler o jornal com você. Quero ouvir você me contar sobre o trabalho e falar detalhadamente de pessoas que eu não conheço, e nem vou conhecer, como se fossem meus velhos amigos. Quero ver você me olhar entre um gole de café e outro, sem nada para dizer, e apenas sorrir antes de voltar a folhar o caderno de cultura. Quero a sua mão no meu cabelo, dentro do carro, no caminho do seu apartamento. Quero deitar no sofá e ver você cuidar das plantas, escolher a playlist no ipod e dobrar, daquele seu jeito metódico e perfeccionista, as roupas esquecidas em cima da cama. E que, sem mais nem menos, você desista da arrumação, me jogue sobre a bagunça, me beije e me abrace como nunca fez antes com outra pessoa. E que pergunte se eu quero ver um DVD mais tarde. Quero tomar uma taça de vinho no fim do dia e deitar do seu lado na rede, olhando a lua e ouvindo você me contar histórias do passado. Quero escutar você falar do futuro e sonhar com minha imagem nele, mesmo sabendo que eu provavelmente não estarei lá. Quero que você ignore a improbabilidade da nossa jornada e fale da casa que teremos no campo. Quero que você a descreva em detalhes, que fale do jardim que construiremos, e dos cachorros que compraremos. E que faça tudo isso enquanto passa a mão nas minhas costas e me beija o rosto. Quero que você nunca perca de vista a música da sua existência, e que me prometa ter entendido que a felicidade não é um destino, mas a viagem. E que, por isso, teremos sido felizes pelos vários domingos na cama e pelos sonhos que comparilhamos enquanto olhávamos a lua. Que você acredite que não me deve nada simplesmente porque os amores mais puros não entendem dívida, nem mágoa, nem arrependimento. Então, que não se arrependa. Da gente. Do que fomos. De tudo o que vivemos. Que você me guarde na memória, mais do que nas fotos. Que termine com a sensação de ter me degustado por completo, mas como quem sai da mesa antes da sobremesa: com a impressão que poderia ter se fartado um pouco mais. E que, até o último dia da sua vida, você espalhe delicadamente a nossa história, para poucos ouvintes, como se ela tivesse sido a mais bela história de amor da sua vida. E que uma parte de você acredite que ela foi, de fato, a mais bela história de amor da sua vida. Que você nunca mais deixe de pensar em mim quando for a Londres, escutar Dream' Bout Me ou ler Nick Hornby. E, por fim, que você continue a dançar na sala. Para sempre. Mesmo quando eu não estiver mais olhando.
Milly Lacombe é cronista do Blônicas

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Maria Rita Kehl: o Rio não para de chegar


Armandíssimo,

Engraçado te escrever uma carta dias depois de ter conversado tanto tanto com você e Cri, aí no Rio, do nosso jeito: na copa enquanto o molho apurava no fogão, a portas fechadas, depois passando para a sala de jantar, e a de “visitas” – estranho a permanência desse nome no espaço mais generoso da casa, mas não aceito chamá-lo de living – e ainda na calçada à espera do táxi, perto do cocô do cachorro, até os 47 minutos do segundo tempo.

E agora, por escrito, o que mais? Sua última carta é ótima e me faz suspirar pela promessa da poesia escrita na resignação. Quem sabe, se eu conseguisse escrever assim, ficaria mais zen – bem que meus filhos gostariam.

Filhos: vou de trás pra frente, desenrolando o novelo da conversa do sábado. Ninguém nos confronta mais com o que nós somos do que os filhos. Corrijo: ninguém nos confronta mais com o pior do que somos do que os filhos. Nem o cônjuge, para quem tem um, que palavra horrível para designar o amor da vida das pessoas. Nem os críticos, para aqueles que escrevem, filmam, compõem etc. Nem o público, para quem é da vida pública. Ninguém melhor ou pior do que os filhos para nos colocarem na berlinda, mostrarem a nossa cara num espelho mesquinho, egoísta, brutal, distraído, banal.

Ponto. É só um desabafo mais ou menos atualizado.

Agora, o Rio. Gosto tanto do Rio que tenho medo de abraçar a cidade de vez, virar carioca e me decepcionar. Um namorado que veio do Rio para viver em São Paulo e você sabe quem é, uma vez me disse diante da janela do Novo Mundo aberta para a baía de Guanabara: “É como se eu fosse o ex-marido da Catherine Deneuve. Sei que ela é linda, desejável, amável, uma unanimidade internacional. Mas só eu conheço as histerias, os achaques, as crises e a chatice dela. Não volto, não. Prefiro sentir saudades de longe”. Outro comentário dele que muito me fez pensar foi quando eu disse que deveria ser maravilhoso morar no Rio de Janeiro, e ele me respondeu de pronto: “Até o dia em que você precisar de um encanador”. Poderia ser marceneiro, pedreiro, mecânico, sapateiro. Entendi na hora. Talvez só meus amigos muito ricos, que pagam caro por profissionais de ponta, não assinassem em baixo dessa observação amargurada.

Também vale indagar o que diriam os encanadores, mecânicos, pedreiros, sapateiros e marceneiros a respeito do profissionalismo, na outra ponta da corda, dos doutores “sangue bom” e das madames cariocas.

Então: às vezes penso que o melhor do Rio é, sem tirar nem pôr, idêntico ao pior dele. O pré-capitalismo, por exemplo, em que a cidade ainda se mantém (com exceção da Barra, mas a Barra pra mim é outro município). O pré-capitalismo que conserva dentro do Rio de agora o século XIX, os anos 1930, 1960, ou seja, o tal “caldeirão de mitos”, que é como meu amigo Rubens Machado nomeou o significado do Rio para o cinema do Bressane. O pré-capitalismo que faz dos pequenos bairros cariocas recantos caseiros, provincianos, dominados pelo povo miúdo que ocupa as ruas a seu gosto e vive como pode e como quer. No entanto são pedaços da cidade que certamente valem milhões. Ai que medo do Eike Batista: os melhores sonhos modernizantes dele se parecem com meus pesadelos. O pré-capitalismo que é o pior defeito do Rio das relações de trabalho atrasadas, dos favores políticos, das “500 famílias” como você diz – e que também faz o encanto da cidade. Vai do traçado urbano, muito pedestre perto do centro, que permite a permanência de quarteirões tão inacreditáveis que nem vou mencionar por escrito para não dar ideias a algum empreiteiro; e que atinge também a sociabilidade descompromissada, passante, entre desconhecidos que não fazem cerimônia com os outros, tanto na simpatia quanto no mau humor. O Rio me dá saudades do Brasil. Quando vou a sua casa e passo pelo lindo prédio da UFRJ que traz na fachada “Universidade do Brasil”, eu penso, sim: cheguei no Brasil. Vim de São Paulo e cheguei no Brasil.

Sentia o mesmo ao descer no Santos Dumont, da escadinha do avião para a pista, e sentia o bafo do Rio, o cheiro sexual da maresia: cheguei no Brasil. Há uns cinco anos escrevi um poema, outro da “Suíte do Rio”, prevendo o fim desse jeito de chegar na cidade que me deixava comovida feito o diabo.

1. Santos Dumont


Mas vai chegar o dia em que a nave atracará num finger

e em vez da maresia o vento mastigado

em vez do bafo a assepsia.


Dia de a fibra arrefecer

a pisada do viajante

o abraço do sol


e um intervalo morto

adiar a refrega

entre a cidade

e o corpo.


Chegou o dia, mais depressa do que eu esperava. Desço do avião que pousa na ponta da baía e entro no tubo de borracha e ar condicionado. O impacto da cidade demora uns minutos mais.

Mas como assim? Estamos condenados a amar sempre o que já foi? Amamos o que já foi porque é o que conhecemos. Mas reformulo. Não tenho saudades do Brasil do atraso, da miséria, da desigualdade e tudo o mais que conheço tão bem. Nem do Rio do esgoto a céu aberto, adolescentes de fuzil na mão, elite mal-educada, carros estacionados nas calçadas.

Tenho saudades do sonho de um Rio de Janeiro que a transformação daquele outro prometia. Tenho saudades do Brasil sonhado por muitos de nós antes do golpe militar, por exemplo. Mas a transformação não virá como nos nossos sonhos. Virá com a histeria da Copa, a especulação imobiliária, a multiplicação dos bilionários, dos grandes empreendimentos, e daquilo que você muito bem observou, os carros brutais vestidos de luto com motoristas-fantasma que passam por cima do mundo sem olhar pra trás.

O Rio que eu adoro não é o clichê turístico da festa: parece mais uma doce melancolia. Onde a cidade é mais pobre, ninguém perde uma oportunidade de ser feliz. Chamo essa parte de Rio ruim. São ruas apertadas e sujas, perto do centro, do Catete, do Cosme Velho (adoro esse nome). Ruas cheias de gente ocupada com as atividades mais improváveis, instalada nos cantos mais absurdos para montar pequenas bancas a oferecer servicinhos e produtos modestíssimos, conversando em voz alta como se estivessem em casa, bebendo cerveja na calçada suja, vivendo do mínimo do mínimo. Economia de subsistência com uma vontade de alegria invencível.

Por este Rio ruim eu ando a esmo, dobro uma esquina, sou tomada por um cheiro velho ou pela mudança da luz filtrada pela copa de uma amendoeira e me espanto, com o quê? Vou roubar um verso que você escreveu para a Cri no Cabeça de homem, acho, para expressar esse espanto: “você não para de chegar”. É o que eu sinto, a cada vez: o Rio não para de chegar.

Maria Rita Kehl

sábado, 7 de maio de 2011

"Namoro o Tejo!"


Tejo Lindo Tejo!"

Nas tuas margens passeio sozinho,
Caminho ao longo da beleza,
Da rara doçura, com certeza,
Sempre acolhedor e calminho.

Chego-me de ti muito pertinho,
Meto a mão em ti, sinto a frieza
Dos longos séculos e a firmeza
Do teu leito bem Formosinho.

Tejo lindo Tejo, que escutas
O meu coração ferido de amor,
Sentes compaixão desta minha dor.

Tejo lindo Tejo, que me contas?
Histórias de encantar e cor,
Se, mas vendes estou comprador

Felipe Mendes

OBS: A foto que ilustra esse poema é de Carlos Gomes.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Caio F. Abreu


“Olha, estou escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem sempre que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não queria que fosse assim. eu queria que tudo fosse muito mais limpo e muito mais claro, mas eles não me deixam, você não me deixa. Hoje eu achei que ia conseguir, que ia conseguir dizer, quero dizer, dizer tudo aquilo que escondo desde a primeira vez que vi você…" Caio F. Abreu

terça-feira, 19 de abril de 2011

A renúncia de Roberto Carlos


Hoje ele acordou com 70 anos. Não é uma sensação agradável, nem mesmo para quem sabe que será homenageado com uma festa, receberá presentes, será lembrado. Mas Roberto Carlos não tem motivos para comemorar: sua coleção de perdas pessoais é enorme e difícil de suportar. Sua filha mais velha morreu há poucos dias. A mãe foi embora há um ano. O grande amor parece que também se foi há alguns anos. Ele acordou só, com seus 70 anos.

O herói vocal do Brasil não gosta que comentem sua vida privada. Talvez nem mesmo ele queira pensar nela. Mas há momentos inevitáveis, em que as canções e as emoções convergem ao mesmo ponto. E o músico teve de adiar o espetáculo que faria amanhã em Vitória, por ocasião de seu aniversário. A produção do show justifica que naturalmente Roberto está de luto. O que leva os admiradores a imaginar o que ele está passando agora que completa uma data tão importante e, de certo modo, tão grave – sobretudo para um artista que ostentou, nos anos 60, nos tempos da Jovem Guarda, o título de “o Rei da Juventude”. Com o tempo, virou apenas “o Rei”. Quem um dia foi jovem não pode mais ser jovem, eis a tragédia. Restam as emoções vividas, como Roberto diz numa canção, e a arte: a arte do canto, à qual se dedicou ao longo de 52 anos de carreira, e pela qual conquistou a glória. O que tudo isso significa? Nesta data querida, o músico brasileiro mais celebrado parece mostrar que sua vida foi dedicada à arte, a ponto de ter renunciado muitas vezes às suas alegrias, em nome da missão maior de cantar diante das multidões, compartilhando seu coração com elas. Não, como diz Paulo Coelho em um tuíte recente, alegria não é pecado, sacrifício não é virtude. Na arte de Roberto Carlos, porém, a oposição arte-vida faz todo o sentido. E é talvez a senha para compreender suas cerca de 450 composições próprias, para não mencionar aquelas que interpretou, infundindo nelas um sopro genial.

Sonhei esta noite com as canções do Roberto, certamente porque desde menino eu as tenha introjetado. Na semana passada, ao elaborar para a revista ÉPOCA uma lista de 20 delas, metade conhecida e metade não, percebi espantado que as sabia de cor. Logo eu, que esqueço tudo que é letra de música. Foi assim que sonhei com as canções, entoando-as inteirinhas, umas cinco ou seis, como se fossem minhas. Elas se gravaram no meu subconsciente. Imagino que muita gente também cante essas músicas sem nem pensar. Esse fenômeno pode indicar, entre outros, o papel fundamental de Roberto na cultura brasileira. Sua voz vibra nos ouvintes em um plano aquém da razão.

O que quero dizer é um truísmo, uma aparente obviedade: a trajetória de Roberto Carlos está registrada em suas canções. As emoções experimentadas tão intensamente pelo homem se impregnaram na sua arte. É o que acontece com todos os artistas. No entanto, examinadas em conjunto e em perspectiva, as músicas de Roberto contêm uma peculiaridade. Elas contam uma história de fragilidade, abandono, paixão, fé e resignação. Seu percurso é pedagógico, iniciático. Vida e obra parecem se confundir no início, para depois seguirem caminhos divergentes. O acidente que lhe tirou uma perna quando tinha 5 anos na cidade natal de Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo (onde nasceu em 19 de abril de 1941), deixou evidentemente marcas profundas em sua personalidade – e em sua atividade artística. Ao iniciar a carreira, em 1959, incentivado pelo produtor Carlos Imperial, imitava o estilo do inovador vocal do momento: João Gilberto e sua bossa-nova. Cantava sambas líricos e melancólicos, como “João e Maria”, lançado em compacto simples em 1959.

A guinada alegre veio em seguida, quando adotou o rock’n’roll no estilo bubble gum de Tony e Celly Campello. Daí resultaram músicas como “Splish splash” (1962) e “É proibido fumar” (1964). Da alegria, Roberto saltou para a atitude rebelde. Isso aconteceu por volta de 1965, quando começou a lançar rocks atrevidos misturados ao rhythm’n’blues do parceiro Erasmo carlos. O exemplar mais interessante dessa fase é “Quero que vá tudo pro inferno”, um rock que preconiza a transgressão amorosa como solução para a felicidade. Líder da Jovem Guarda, Roberto consagrou o iê-iê-iê, como passou a denominar o rock que sua turma lançava no programas de televisão de domingo. Roberto e a Jovem Guarda exaltavam alegremente o consumismo e a realização de todas as pulsões.

Na segunda metade da década de 60, Roberto fez a apologia do sexo e da velocidade, em canções que podiam lembrar as dos Beatles, mas já continham o gérmen da originalidade. Em baladas como “As curas da estrada de Santos”, e “120... 150... 200 km por hora”, o poeta se atira à alta velocidade para assim não ter de encarar a vida. A velocidade dissipa as formas, mistura as cores e apaga o vínculo do sujeito com o mundo concreto.

No finalzinho dos anos 60, o lirismo e as canções românticas assomaram na obra do músico. Foi em 1971 que Roberto lançou, no seu terceiro disco com o título Roberto Carlos (quase todos levariam este nome doravante), sua canção mais famosa e bonita: “Detalhes”. Reparando bem, a melodia soa como uma seresta e seus versos, povoados de reticências, propõem a abnegação e mesmo a negação do amor. O poeta se dirige ao objeto amado, tomado pela saudade, o fatalismo e a incapacidade de obter prazer novamente. Os seguintes versos são o cerne da canção: “Se alguém tocar/ Seu corpo como eu/ Não diga nada/ Não vá dizer meu nome/ À pessoa errada... Pensando ter amor/ Nesse momento/ Desesperada você/ Tenta até o fim/ E até nesse momento/ Você vai/ lembrar de mim...” A projeção do poeta sobre o desejo da amada é dramática na junção do amor ideal com o carnal: nem ela, a musa, será capaz de chegar ao orgasmo sem seu velho amor. O cantor soa como um fantasma a rondar a vida de sua antiga amante, como num conto gótico. No fundo, todo amor resulta impossível, pois não é lícito viver a um só tempo o prazer físico e a transcendência espiritual. Não existe canção de Roberto mais romântica e emblemática que “Detalhes”.

Sobrevém um travo amargo nessa música, como em quase todas que advirão na vida do cantor. Ali se encontra a irreconciliável dualidade entre vida e arte, entre espírito e corpo, entre mundo e artista. Sua fuga posterior será rumo à religião, aos hinos católicos que veem na elevação do espírito a redenção dos pecados. Porque amar, no fim das contas, na obra do músico, não deixa de ser o mais sonhado dos pecados terrenos. O artista começou imitando os modelos que admirava, seguiu assumindo a atitude irresponsável da juventude transviada, mergulhou no desejo e finalmente viu Jesus Cristo.

Roberto é, assim, o exemplo do artista que se sacrifica à arte, que encara a vida como um campo de experiências que resultam em canções puras e simples. Para esculpir sua obra, como o escultor francês François-Auguste René Rodin, o músico se dedicou ao apostolado da grande arte, do trabalho interminável da canção perfeita. Um segredo que, infelizmente, ele próprio foi perdendo, à medida que quis subir aos céus da transcendência devocional. Curiosamente, ao abdicar da carne, o artista extraviou o que tinha de mais denso e lírico. Nesse sentido, nessa monumental e comovente derrocada que é sua arte, Roberto Carlos se revela profundamente romântico, não no sentido banal do termo, mas no da estética do movimento romântico do século XIX. A exemplo dos poetas românticos, ele se retirou do mundo dos homens comuns, isolou-se nos palcos dos estádios lotados e sacrificou sua arte a Deus. Mas talvez não tenha havido outra saída para o indivíduo e sua coleção de sofrimentos. Hoje ele acordou com 70 anos. E todos nós, seus admiradores, também despertamos com o fardo de tanta beleza.

(Luís Antônio Giron escreve às terças-feiras na revista época).