segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Senha

Senha

Eu sou uma mulher sem nenhum mel
eu não tenho um colírio nem um chá
tento a rosa de seda sobre o muro
minha raiz comendo esterco e chão.
Quero a macia flor desabrochada
irado polvo cego é meu carinho.
Eu quero ser chamada rosa e flor
Eu vou gerar um cacto sem espinho.

Adélia Prado

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Manoel de Barros

O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS

Manoel de Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras fatigadas de informar.
Dou mais respeito às que vivem
de barriga no chão tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos como as boas moscas.
Queria que minha voz tivesse um formato de canto.
Por que eu não sou da informática:
Eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

domingo, 22 de dezembro de 2013

A Paciência e seus limites

A Paciência e seus limites


Dá a entender que me ama,
mas não se declara.
Fica mastigando grama,
rodando no dedo sua penca de chaves,
como qualquer bobo.
Não me engana a desculpa amarela:
‘Quero discutir minha lírica com você’.
Que enfado! Desembucha, homem,
tenho outro pretendente
e mais vale para mim vê-lo cuspir no rio
que esse seu verso doente.

Adélia Prado

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Guillaume Apollinaire

A PONTE MIRABEAU
Sob a ponte Mirabeau corre o Sena
E nosso amor
É preciso trazê-lo à cena
A alegria vinha sempre após a pena
Venha a noite, soe a hora
Os dias se vão, não vou embora
De mãos dadas ficamos face a face
Enquanto que sob
A ponte dos nossos braços passa
Eternos olhares a onda tão lassa
Venha a noite, soe a hora
Os dias se vão, não vou embora
O amor se vai como água corrente
O amor se vai
Como a vida é lenta
Como a Esperança é violenta
Venha a noite, soe a hora
Os dias se vão, não vou embora
Passam os dias e as semanas
Nem o tempo passado
Nem o amor acena
Sob a Ponte Mirabeau flui o Sena
Venha a noite, soe a hora
Os dias se vão, não vou embora

Guillaume Apollinaire
Tradução: Virna Teixeira

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

ESPELHO

ESPELHO
 
Sylvia Plath
       Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício A. Mendonça

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro —
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, malhada. Há tanto tempo olho para ele
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele
[ falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.


Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça
[ sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem
[ verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um
[ peixe terrível.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Perfomarce

 
Performance

Não é só para apaziguar
as guerras
é para mudar de rosto, de roupa
de corpo
fraturar-se, quebrar-se
transformar-se
ser despedida e raiz
espanto
Não é só para cantar
é para mudar de ângulo
de geografia
como as nuvens mudam de forma
também mudamos de olhos e cílios
de hábitos e de lábios
 
Iracema Macedo

 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

setembro

setembro
Nunca mais será setembro,
nunca mais a tua voz dizendo
nunca mais, eu lembro,
nunca mais, eu não esqueço,
a pele, nunca mais,
o teu olhar quebrado,
dividido, vou esquecê-lo,
é o que digo, nunca mais
a minha mão no teu sorriso,
a tua voz cantando,
vou apagá-la para sempre,
e nossos dias, setembro, lembro
bem, dentro a tua voz dizendo não
( ouço ainda agora ), como se quebrasse
um copo, mil copos, contra o muro.
Rasgarei o que não houve, o que seria,
mesmo que tudo em mim me diga não
( e diz ), mas é preciso.
Como não se pensa mais um pensamento,
quero, prometo:
nunca mais será setembro.
( eucanaã ferraz )

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Praça da república dos meus sonhos - Roberto Piva

Praça da república dos meus sonhos - Roberto Piva


A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde Garcia Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa



Roberto Piva nasceu em São Paulo no dia 25 de setembro de 1937. Poeta ligado aos marginais dos anos 60, esteve na Antologia dos Novíssimos de Massao Ohno em 1961 e em 26 poetas hoje de Heloisa Buarque de Holanda. Foi professor na rede de ensino público, produtor de shows de rock e é um dos três únicos poetas brasileiros a ser citado no Dicionário Geral do Surrealismo publicado na França.


http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/11/18/praca-da-republica-dos-meus-sonhos-roberto-piva-515029.asp

domingo, 17 de novembro de 2013

eucanaã ferraz

piscina

Nem solidões, nem navios.
Netuno menino brinca no quintal
do vizinho, no jardim , terraço
do edifício: praia de bolso, praia

na bolsa, água e paredes de louça.
Doido , o verão não tem destino
certo, mas o desatino nesse oceano-
retângulo deixa-se emoldurar

em nuvens de vidro. Paisagem
breve. A calma aguarda
tempestades - trampolim! -
em copo d'água.

( eucanaã ferraz )

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Sanderson Negreiros


Ele voltou!Depois de um longo tempo sem publicar,o maior cronista do RN nos presenteia com essa linda crônica publicada na Tribuna do Norte:

O passarinheiro

Publicação: 03 de Novembro de 2013 às 00:00

Sanderson Negreiros - escritor

À memória de Pedro Vicente

Antônio de Águas Belas morava em um socavão de serra. Era seu reino, desencantado. De lá era capaz de se ouvir o ranger de rotação e translação da Terra como se o Universo fosse uma velha porteira que rangesse, ou um portal secular, cujas dobradiças enferrujadas multiplicassem o som gutural de seus movimentos em torno do sol.

Do seu buraco do mundo, Antônio, posto na sela de seu cavalo baio, alvíssimo e manco, subia a serra té atingir sua planície – a chã da serra onde o vento se equilibra como uma festa.

De sua casa, encravada em grotões pesados e difíceis, ele sentia a vida como lhe chegava: suada, pegajosa e tonitruante. Era preciso respirar mais em cima. Respirar como os bois faziam – aproveitando os descampados e a perspectiva de lonjura, sorvendo o tempo pelas narinas, o vento que lá em cima se fazia mais do que uma festa: uma carícia.

Antônio de Águas Belas visitava a pequena plantação de abacaxis, tirava um ângulo novo com o olhar percuciente da paisagem em volta; e mordia no canto da boca o cigarro de palha, cheirando a um convite. Discutia a melhor maneira de proteger os abacaxis incipientes contra o verão próximo e, no fim da discussão com os empregados, era novamente um ser livre, em doce disponibilidade.

Daí, Antônio dispunha-se a fazer o que mais lhe convinha e apetecia a vontade de dono de herdade obscura: colocava o alçapão no último galho de uma oiticica para ver se pegava um sabiá branco. Sabiás escuros, ele os apreendera às centenas – em cima da serra, com jeito, era possível conseguir-se o apanhamento de passarinhos, belos concrizes, vira-casacas virtuosas, bem-te-vis donos do milagre do canto, galos-de-campina que enchiam a vista, pintassilgos vivíssimos.

Mas toda sua vida, desde criança, ele sentia que seu destino era ser dono de um sabiá branco. Pois só esse tem o canto de que lhe falaram, na infância, os avós: um canto triste e alegre, ao mesmo tempo, de dar sorte, rival da patativa dourada naquelas regiões de Mata-Pasto-de-Dentro.

E o sabiá branco não aparecia. O compadre Lucas, colega de infância, ouvira falar que perto dali morava um passarinheiro, por necessidade e convicção, que conseguira pegar um sabiá branco, vendendo-o logo depois a um mascate. Antônio de Águas Belas procurou o fio da meada da história toda e constatou que tudo fora invenção. O passarinheiro morrera há muitos anos e apenas a viúva dele confirmara que o marido foi, vida inteira, um caçador infatigável de um sabiá branco – e nunca o encontrara.

Assim sendo, Antônio gostava de ir a cavalo até a ponta da serra – exatamente o lugar onde havia o abismo misturado de beleza irrefreável e uma paisagem primitiva – para ver, eu meditar a seu modo, na hora do poente. E ali ficava, boca da noite quase, no frio suave das alturas, a esperar que as luzes da cidade, lá longe, nas serras de Araruna, se acendessem. E, acesas, tremessem na distância, aflitas pela escuridão. Pois naquelas luzes, ele via constantemente a imagem do sabiá branco de que nunca pudera ser dono. Nem amigo.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Carlos Pena Filho

A solidão e sua porta

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha),

quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório
lembra-te que afinal te resta a vida

com tudo o que insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.

Clarissa Corrêa

"Quem é feliz não conta, não espalha, não grita aos quatro cantos. Quem é feliz, satisfaze-se por ser. E sabe que felicidade anda coladinha na inveja. Quem é feliz não precisa provar nada, simplesmente é. As pessoas felizes demais nunca me passaram confiança. Essa coisa de que a vida é uma festa e não existe nada errado, não me brilha aos olhos. Feliz é quem conhece o lado ruim e o respeita. Feliz é quem já foi infeliz. Somente quem já foi infeliz pode entender que a tristeza traz um punhado muito bom de aprendizados. Felicidade não é sobre quem grita mais alto; é sobre quem sorri mais fundo."

Clarissa Corrêa

sábado, 26 de outubro de 2013

Kerouac vs O meio


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

TIÊ

Ontem fui conferir a Cientec,queria muito ver o o show de Tiê.Confesso que fiquei emocionada,eram na sua grande maioria jovens,umas 5 mil pessoas,cantando e aplaudindo a cada música.Fiquei tocada,vale ressaltar porque não era nem um show do Chiclete,da Ivete e similares,e sim de uma cantora com um repertório intimista de muito bom gosto musical.Aqueles jovens acenderam em mim a esperança,nem tudo está perdido, ainda há vida inteligente neste planeta!

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

ORGIA ÍNTIMA

ORGIA ÍNTIMA

não aprendi
a domar meus avessos

meus inteiros despedaçados
recolhidos no olho do tumulto

(setembro guarda memórias
sumidas no ar)

não costurei minh'alma
no escárnio nem cantarei
em coro de grilo

no mais
sou tranquilo

(poema inédito, lau siqueira)

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Melina Flynn

Gosto de uísque no fundo da garganta
fiz cara de vítima, esfreguei meu corpo no dele
saí andando, contei vantagem
cansei de ser assim
dona do mundo e de mim
desordenada e inacabada
falo o que não devo e o que não posso
porque gosto
eu não presto e já te disse
não me afronta não me nega
que eu fico louca
imploro uma esperança impossível
a Deus
e sei que ele me olha
e sei que não devo
mas sou e assumo cada dano meu.
Tão cruel é existir.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Nivaldete Ferreira

gosto dos textos que (me) procuram
gosto dos textos que (me) curam
gosto até dos textos que me curram
quando a minha mente está muito pura

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Regis Bonvicino

Caminho de hamster



Fedendo a cigarro e a mim mesmo
cruzo uma avenida
ao anoitecer
sirenes, carros

vozes abafadas
avenida larga e áspera
numa rua transversal
o cadáver de um cachorro

atropelado
rodas metálicas em ritmo lento
fedendo a esgotos e a mim mesmo
a um pouco de fogo, do isqueiro

fedendo como aquela maçã podre
fedendo a música estúpida
desses tempos
e a mim mesmo

o lixo recolhido exala
um cheiro nítido na calçada
fedendo a sapatos e a mim mesmo
a ratos, ao suor dos néons

a cadeiras e a mim mesmo
a notícias inúteis e a mim mesmo
fedendo sob a lua
narinas entupidas de gás carbônico

o som do motor do ônibus
fedendo as mesmas camisas
fedendo a miopia e a mim mesmo
fedendo a esquinas

exalando cheiros
fedendo a expectativas
que no entanto acabam
na próxima linha

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Guia de Tê para Ivan


Guia de Tê ao escrever esse belíssimo texto pra Ivan,cutucou nossas saudades,trouxe a tona uma época em que dançavamos ao som de Renato e ouvíamos Roberto Carlos .Como é doloroso dar adeus a um amigo que faz parte da nossa história de vida e parte precocemente!

Amigo Ivan resolvi ligar o som e ouvir Renato e seus Blues Caps. Poderia ser o nosso Rei Roberto, ou tantos outros ídolos e artistas, da saudosa jovem guarda naquele nosso pequeno grande mundo juventude e vida tão intensa. Não se esse nosso primeiro contato à distância seria o mais apropriado para o momento, mas a noticia de sua passagem me pegou de surpresa, e de repente a emoção mais imediata foi a da minha pré- adolescência apaixonada diante do seu primeiro sonho de amor – você. Como me deleitava com a ilusão de que ao ouvir ‘menina linda’, essa menina poderia ser eu, até compreender a minha natural fantasia e entender que teria esse marco de beleza na minha história e que você seria meu eterno amor fraterno. Crescemos juntos e nossa amizade de vizinhos e primos foi de irmãos. Estou de luto amigo, porque perdi o tempo que previa para nosso reencontro em Nova Palmeira como antigamente, e, certamente iríamos falar da experiência de pais e avos e tantas outras coisas nossas que só verdadeiros amigos falam. Estou acometida de uma urgência de expressão verbal, como se as palavras o fizessem parar para ouvir, olhar para trás e dar um tempo nesta viagem e assim, todos nós de Nova Palmeira que amamos você teríamos tempo de atualizar nossas histórias de vida e aprendizagens. Lembra amigo, das nossas férias? Você vinha de Campina Grande com seus irmãos e amigos, dos “assustados” na grande sala da sua casa, do amplificador a tocar e na moda daquela época passeávamos na calçada a flertar encantadas. Mas eu já falei tanto Ivan e de repente, entendo que você ainda está indo e que vai levando em sua bagagem de experiências vividas e aprendizagens, todo calor e sabor daquele nosso tempo de amizade verdadeira e convívio jovial, na nossa velha e amada Nova Palmeira. Segue em paz amigo, leva consigo nossa amizade, leva o alto astral de Ceiça, o canto das irmãs Marizinha, Guia e Maluza, e tantas outras jovens que povoavam e enriqueciam esse convívio de sonho e melodia. Leva a alegria dos banhos de chuva quando ainda crianças, ficávamos feito bonecos parados de cara pra cima e boca aberta a sorver as gotículas d’água a escorrer no nosso rosto. Essas recordações “são uma brasa, mora”. Sorria amigo, porque seu sorriso aberto e de alma será a imagem mais nítida que o materializará na nossa memória. Amanhã vou olhar o céu e vou procurar uma nova estrela palmeirense entre tantas estrelas amadas de cada um de nós, estrelas inesquecíveis que tanto iluminaram enquanto relíquias de amor em nossas vidas. Abrace a todos e leve noticias de nós. Ah, vou agora dedicar-lhe Canção da América. Adeus... Até... quando..
Guia de Tê.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Marla de Queiroz

Vai, menina. Desabotoa essa raiva, rasga essa angústia, berra tua indignação. Mas preserve seu coração deste veneno. Não intoxique seu sorriso com essa dor. Chore as lágrimas mais honestas que estiverem embargando tua voz, enrugando tua face, mas livre-se deste entrave.
Vai, menina. O mundo não magoou você, mas o egoísmo arranjou uma brecha para te atingir, reposicione-se, retome suas forças, empurre este inverno para bem longe daqui. Não vês que doer não é pecado¿ Mas abra espaço para respirar, você ainda pode dançar e crescer. Você ainda pode permanecer onde está ou desaparecer. Você pode fazer tudo o que for cura para tua tristeza. Mas não a envolva nesta tua delicadeza.

Vai, menina, grite para o vento que já doeu demais, que você quer viver agora outro momento.

Marla de Queiroz

domingo, 25 de agosto de 2013

Lembrança


Por Aécio Cândido
Resta de ti a saudade,
gasosamente infiltrada
em todos os espaços da casa;
resta de ti o eco doloroso
de tua voz batendo insistentemente
nas paredes descolando do cérebro
lembranças entranhadas.
Resta na sala,
no jardim,
em tudo acesamente,
tua presença escorregadia
vagando indiferente
à tempestades dos meus olhos.

Aécio Cândido é professor, ator, poeta e atual vice-reitor da Universidade do Estado do RN (UERN)

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Ana Rusche




O Grande Plugue


À nossa geração nunca nos foi permitido ver o mar pela primeira vez.
Ele sempre esteve adentro, reluzente, o grande igual que nós mesmos

Rogamos tanto às noites que se faça novamente o escuro
mas quando as preces são atendidas
é só uma ilusão dos trouxas, uma ardentia nos olhos e
o mar esbraveja aqui dentro, monstro comedor de rocha
Já nascemos umas baleias mórbidas
pobres diabas afogadas neste papel de luz
E é tão mesquinho de pequeno o desejo

A gente só queria ver o maldito mar
por favor,
pela primeira vez.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Ledo Ivo

ASILO SANTA LEOPOLDINA
Todos os dias volto a Maceió.
Chego nos navios desaparecidos, nos trens
[ sedentos,
[nos aviões cegos que só aterrizam ao anoitecer.
Nos coretos das praças brancas passeiam
[ caranguejos.
Entre as pedras das ruas escorrem rios de açúcar
fluindo docemente dos sacos armazenados nos
[ trapiches
e clareiam o sangue velho dos assassinados.
Assim que desembarco tomo o caminho do
[ hospício.
Na cidade em que meus ancestrais repousam em
[cemitérios marinhos
só os loucos de minha infância continuam vivos e
[à minha espera.
Todos me reconhecem e me saúdam com
[ grunhidos
e gestos obscenos ou espalhafatosos.
Perto, no quartel, a corneta que chia
separa o pôr-do-sol da noite estrelada.
Os loucos langorosos dançam e cantam entre
[ as grades.
Aleluia! Aleluia! Além da piedade
a ordem do mundo fulge como uma espada.
E o vento do mar oceano enche os meus olhos
[ de lágrimas.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Lúcio Lins


SEM TÍTULO


Senhor
sou eu
este infante
ou corsário louco
que vos tenta
a fala
trazendo nas mãos
as páginas
inda úmidas
doutras cartas
rasguei
todos os mares
depois de navegar
por mapas
náufrago de palavras
nunca dante navegadas
Senhor
vos digo mais
não existe mar
além do búzio
que tendes no peito
e no cais
nos espera
a mais antiga
das caravelas
(nosso barco de papel)

terça-feira, 30 de julho de 2013

Perspectiva da sala de jantar

Perspectiva da sala de jantar

  Murilo Mendes

A filha do modesto funcionário público
dá um bruto interesse à natureza-morta
da sala pobre no subúrbio.
O vestido amarelo de organdi
distribui cheiros apetitosos de carne morena
saindo do banho com sabonete barato.
O ambiente parado esperava mesmo aquela vibração:
papel ordinário representando florestas com tigres,
uma Ceia onde os personagens não comem nada
a mesa com a toalha furada
a folhinha que a dona da casa segue o conselho
e o piano que eles não têm sala de visitas.
A menina olha longamente pro corpo dela
como se ele hoje estivesse diferente,
depois senta-se ao piano comprado a prestações
e o cachorro malandro do vizinho
toma nota dos sons com atenção.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Marla de Queiroz

Eu me torno emocionalmente saudável quando consigo desconstruir todas as tolices sobre amores salva-vidas e jogar a ideia surreal do príncipe encantado no lixo. Eu me torno emocionalmente saudável quando acredito que namorar deve ser leve mesmo quando intenso, e divertido mesmo quando há um sério comprometimento. Eu me torno emocionalmente saudável quando o que me ocupa é a minha vida e não a reação que tenho ao comportamento alheio. Eu me torno emocionalmente saudável quando percebo que determinada história não me abrange, me deixa inadequada, fere a minha autoestima e sinto que isto é o suficiente para eu tentar ser feliz e me abrir para outras possibilidades. Eu me torno emocionalmente saudável quando escolho os meus parceiros pelo que me agregam de luz e crescimento, não pelo desafio que me trazem quando se mostram emocionalmente indisponíveis ou abertos para viverem outras relações que não a nossa. Eu me torno emocionalmente saudável quando me permito ficar sozinha até atrair um alguém que esteja disposto a trocar, desbravar paisagens juntos, que esteja inteiro no lugar que escolheu. Eu me torno emocionalmente saudável quando, estar ou não estar com alguém sexo-afetivamente, não se torna a prioridade da minha vida, mas somente um dos meus desejos. Eu me torno emocionalmente saudável quando aprendo a dar nome aos meus sentimentos: e não confundo posse com excitação, dependência com paixão, rejeição com confusão alheia...

Eu me torno emocionalmente saudável quando dou amor, não carência.

Livrai-me do que desbota a minha lucidez e da alienação de achar que a felicidade está no Outro e não em mim. Que seja assim.

Marla de Queiroz

domingo, 28 de julho de 2013

Everton Behenck

PARA ISADORA LER QUANDO TIVER SEU CORAÇÃO PARTIDO A PRIMEIRA VEZ.



A vida
Não é fácil, querida
Mas é possível
E é incrível estar vivo
Mesmo que agora não pareça
As vezes a vida
Se ausenta
Faz parte
Fique forte
No pensamento
De que tudo se move
Sua vida está indo
E não há sofrimento
Definitivo
Colecione suas dores
Com carinho
Um dia
Até elas farão falta
E devemos
Atravessar o tempo
Com todos os nossos
Pertences
E a dor está entre eles
Mas a dor passa
E sem dor
Não se faz nada

Everton Behenck

terça-feira, 23 de julho de 2013

Flávio Machado

torpor



esse desejo absolutamente inexplicável
de apagar da memória o nome dela
fingir que não a conheço
atravessar a rua
mudar de calçada


quem sabe alterar a rota dos planetas
fazer girar ao contrário a Terra
retirar do nada
alguma vontade renovada
e sair pela rua madrugada a dentro
expondo todo o remorso e ressentimento
pelo abandono que herdei.




Flávio Machado

terça-feira, 16 de julho de 2013

Ar de família

(Armando Freitas Filho)

Só sei ser íntimo ou não sei ser.
O que escrevo me ameaça de tão perto.
Amassa mãe, pai, filhos, mulheres
os de sangue símil, os de romance
os de tinta de impressão, de árvore
venosa de folhas variáveis no vento
das estações, no ferido almofariz
com o mesmo pilão de pedra
sem lavar, e entre uma socada e outra
o silêncio do punho fechado.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

leminski

nunca quis ser
freguês distinto
pedindo isso e aquilo
vinho tinto
obrigado
hasta la vista

queria entrar
com os dois pés
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho
- cala a boca
e pro relógio
- abaixo os ponteiros

p leminski

terça-feira, 2 de julho de 2013

As outras

Fernanda que não me escute: mas quando saio andando por aí, me apaixono muitas vezes. Pode ser no caminho do trabalho, de casa, da padaria, do banco. Cho...va ou faça sol entre nuvens. Basta que as Melissinhas daquela mulher atravessem a rua em câmera lenta – o céu azula todinho, o queixo cai e ainda arrasta os olhos.
Basta que o gari dê uma sambadinha entre uma lixeira e outra. Que a vó não resista às bochechas indecentemente fofas da neta e leve o pão doce. Que o motorista do ônibus deixe o volante para ajudar o tiozinho a subir com as sacolas do mercado. Que os amigos dos tempos da brilhantina se encontrem na esquina para rir bem alto das atuais carequices.
Que o ambulante cumprimente até o sujeito que jamais compra nem alfinete pirata.

Que aquele sobrado esteja sempre no mesmo lugar, entre os dois fura-céus: a árvore esparramando sua copa sobre o quintal, o senhor de óculos grisalhos bebendo a caneca na janela do segundo andar, a mulher de vestido gordo varrendo as folhas com a mangueira, o molecote de shortinho verde correndo da água com as mãos sujas de terra e biscoito maizena.

Basta que um pingo da cena tinja a calçada, respingue nos meus pés, que o meu coração, em vez de acelerar, cameralenta – no mesmo passo daquelas Melissinhas.

Basta que, de repente, o mp3 replaye a canção que eu já tinha esquecido que um dia existiu. Que ela sirva de trilha para o beijo do casal diante dos jornais expostos na banca. Que os jornais da manhã anterior cubram o sem-teto que insiste em repetir o mesmo poema para quem vai apressado.

Que um verso se solte do asfalto.
Basta isso para que eu tropece de amores mais uma vez, e a vida – incansavelmente generosa – prove que não se contenta com a monogamia.
 
 Postado por Fábio Flora no Pasmatório – http://pasmatorio.blogspot.com.br/

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Nivaldete Ferreira







tenho fé
nas pessoas
de Pessoa.

devíamos ter também
nas nossas.

quem amanheceu
a mesma pessoa
de ontem?

basta um olhar
ou a falta disso
basta um tom diferente
na voz
ou um silêncio
basta qualquer coisa,
até nada.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Manoel de Barros


A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou – eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

NIvaldete Ferreira








de solidão em solidão
construí
uma multidão de mim.
assim posso habitar-me
sem ti
sem medo
 
 
 
 
(A foto é do Mirante da Redinha)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ana Peluso

foram as catarses ditas infiéis
que fizeram o inferno do céu ao meio-dia
um tombadilho a queda uma alforria
de ventos soprando a vida um segundo
para a frente
quem teme o corpo livre no espaço?
tudo já foi dito ou há esperança?
o amanhã é laranja ou acidentado?
quem sabe mais do que quem sobre tudo?
em ângulos tímidos
vãos surgem através das portas
deixam ver a poeira do sempre
e nada do sublime que não se previa
a fé que no escuro o silêncio faça eco
a descrença na infidelidade
como única virtude
desse momento em diante
foram as catarses que escreveram um futuro

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Augusto dos Anjos

As Cismas do Destino
(Augusto dos Anjos)

Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!
Na austera abóbada alta o fósforo alvo
Das estrelas luzia… O calçamento
Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,
Copiava a polidez de um crânio calvo.
Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!
A noite fecundava o ovo dos vícios
Animais. Do carvão da treva imensa
Caía um ar danado de doença
Sobre a cara geral dos edifícios!
Tal uma horda feroz de cães famintos,
Atravessando uma estação deserta,
Uivava dentro do eu, com a boca aberta,
A matilha espantada dos instintos!
Era como se, na alma da cidade,
Profundamente lúbrica e revolta,
Mostrando as carnes, uma besta solta
Soltasse o berro da animalidade.
E aprofundando o raciocínio obscuro,
Eu vi, então, à luz de áureos reflexos,
O trabalho genésico dos sexos,
Fazendo à noite os homens do Futuro.
(Trecho de As Cismas do Destino, de Augusto dos Anjos).

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Alma Corsária





Alma Corsária
De tanto sono me baixa uma lucidez estranha
em que a amendoeira pousa, luminosa, rara,
sob o fundo escuro da noite meio baça
(cilíndrica, roliça, bizarra)
seu vulto verde acocorado sobre a água
da piscina que não tem um pensamento.

Eu sinto inveja dessas águas anuladas
tão plácidas, idênticas ao próprio contorno
enquanto eu mesma nem sei onde começo,
quando acabo
e sofro o assédio de tudo o que me toca.

O mundo ora me engole, ora me vara
e tudo o que aproxima me desterra.
Chorei, ao ver no chão da cela,
o botão arrancado na contenda,
os óculos pisados do escritor judeu.

Tenho um coração que estala
com o peteleco das palavras de Clarice.
Numa vila miserável na Bahia,
um negro lindo, lindo,
dança ao som do corisco
_ e só me apaixono por casos perdidos,
homens com um quê de irremediável.

Mais de uma vez, imóvel, circunspecta,
vi abrir-se a máquina do mundo
sob a luz inclinada de Ipanema,
na Serra da Bocaina, no meio da floresta,
no alto da escada no topo do morro
por onde a moça seqüestrada vinha subindo
debaixo das lágrimas do pai.

Mais de uma vez meu coração trincou feito vidro
diante da página impressa,
e sempre que a palavra justa vem tirar seu mel
de dentro da copa do desespero de amor.
Acredito, do fundo das minhas células,
que uma amizade sincera "é o único modo de sair da solidão
que um espírito tem no corpo".
Sim, eu acredito no corpo.

Por tudo isso é que eu me perco
em coisas que, nos outros,
são migalhas.
Por isso navego, sóbria, de olho seco,
as madrugadas.
Por isso ando pisando em brasas
até sobre as folhas de relva,
na trilha mais incerta e mais sozinha.

Mas se me perguntarem o que é um poeta
(Eu daria tudo o que era meu por nada),
eu digo.
O poeta é uma deformidade.

Claudia Roquette-Pinto

(A foto é da Rua do Ouvidor/RJ)

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Ana C.

Carta de Paris
 Ana Cristina Cesar

I

Eu penso em você, minha filha. Aqui lágrimas fracas, dores mínimas, chuvas outonais apenas esboçando a majestade de um choro de viúva, águas mentirosas fecundando campos de melancolia,

tudo isso de repente iluminou minha memória quando cruzei a ponte sobre o Sena. A velha Paris já terminou. As cidades mudam mas meu coração está perdido, e é apenas em delírio que vejo

campos de batalha, museus abandonados, barricadas, avenida ocupada por bandeiras, muros com a palavra, palavras de ordem desgarradas; apenas em delírio vejo

Anaïs de capa negra bebendo como Henry no café, Jean à la garçonne cruzando com Jean Paul nos Elysées, Gene dançando à meia luz com Leslie fazendo de francesa, e Charles que flana e desespera e volta para casa com frio da manhã e pensa na Força de trabalho que desperta,

na fuga da gaiola, na sede no deserto, na dor que toma conta, lama dura, pó, poeira, calor inesperado na cidade, garganta ressecada,

talvez bichos que falam, ou exilados com sede que num instante esquecem que esqueceram e escapam do mito estranho e fatal da terra amada, onde há tempestades, e olham de viés

o céu gelado, e passam sem reproches, ainda sem poderem dizer que voltar é impreciso, desejo inacabado, ficar, deixar, cruzar a ponte sobre o rio.

II

Paris muda! mas minha melancolia não se move. Beaubourg, Forum des Halles, metrô profundo, ponte impossível sobre o rio, tudo vira alegoria: minha paixão pesa como pedra.

Diante da catedral vazia a dor de sempre me alimenta. Penso no meu Charles, com seus gestos loucos e nos profissionais do não retorno, que desejam Paris sublime para sempre, sem trégua, e penso em você,

minha filha viúva para sempre, prostituta, travesti, bagagem do disk jockey que te acorda no meio da manhã, e não paga adiantado, e desperta teus sonhos de noiva protegida, e penso em você,

amante sedutora, mãe de todos nós perdidos em Paris, atravessando pontes, espalhando o medo de voltar para as luzes trêmulas dos trópicos, o fim dos sonhos deste exílio, as aves que aqui gorjeiam, e penso enfim, do nevoeiro,

em alguém que perdeu o jogo para sempre, e para sempre procura as tetas da Dor que amamenta a nossa fome e embala a orfandade esquecida nesta ilha, neste parque

onde me perco e me exilo na memória; e penso em Paris que enfim me rende, na bandeira branca desfraldada, navegantes esquecidos numa balsa, cativos, vencidos, afogados... e em outros mais ainda!

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Biographia literaria







Biographia literaria
I
Lembranças pouco nítidas, provável-
mente falsas. Imagens que se ordenam
segundo uma lógica indecifrável,
talvez inexistente. Mãos que acenam,
uma porta entreaberta – não, fechada –
uma criança que não reconheço:
ou seja, muito pouco mais que nada.
É tudo que me resta do começo
disso que agora pensa, fala e sente
que pode ser denominado “eu”.
Claro que houve um instante crucial
em que esses cacos mal e porcamente
colaram-se. E pronto: deu no que deu.
Já é alguma coisa. Menos mal.


 Paulo Henriques Britto

A solidão do vasto mundo




Por Luis Estrela de Matos

Não sei quantas faces tem um poeta, mas sei quantos poemas têm numa faca. Eu sei. E João Cabral também sabe. Sei que os poemas são misteriosos e exibem estranhas faces aos leitores, avisados e desavisados. Distraídos, venceremos, dizia o Leminski mais sabreamente zen. Há que aguçar, há que cortar. Quem nunca se cortou com a verdade não sabe a verdade do sangue. Mas as faces me espreitam, me vigiam, e realmente precisarei de um anjo torto, completamente torto, vivendo na sombra e em silêncio, pensando um vermelho de Gogh, tão completamente vermelho, que chega a ser vão. Há que se ser vão no desvão da matéria. Mas Drummond queria uma tarde azul, embora soubesse que os desejos são rubros. E os bondes e as pernas passam diante de olhos brancos, pretos e amarelos e no meio de tudo Deus, e pernas e a pergunta Dele no meio de tudo, inclusive, sim, meu atento leitor, no meio do caminho e das pedras. O coração de um poeta sempre pergunta e os versos costumam ser dolorosas dúvidas, rimantes ou destoantes, ou até concretamente materiais. Os olhos não perguntam mais nada e Deus não olha mais as pernas ao entreolhar o homem que nelas se esqueceu entreolhando o vasto mundo de Raimundo sozinho, sozinho como o mundo em forma de coração, de um coração a nu, de uma vontade de lua em forma de conhaque, deixando o Diabo mais comovido em sua suspeita. Eu não devia te dizer mas hoje é domingo e não haverá FAUSTO; haverá outra coisa. Livre-se dela pois um poema precisa ter 7 faces. Quantas você tem?
PS: conversa imaginária com o poema de sete faces, de Drummond.

domingo, 28 de abril de 2013

Abismo - Pedro Lage




Abismo - Pedro Lage


deste abraço
ao avanço da estrela mais íngreme
- apenas um passo,

os lugares menos reconhecíveis,
as lembranças mais frouxas
e uma voz rouca
fecham sobre mim seus lábios de tempestade
no pálio pálido da madrugada,

é tarde,
te amo



Pedro Lage nasceu no Rio de Janeiro em 1952. É um poeta identificado com a geração Nuvem Cigana, que nos anos 70, compunha o cenário poético carioca resistindo à opressão da ditadura. Publicou seu primeiro livro em 1976. Depois disso, participou de diversos movimentos, como a fundação do Circo Voador e as rodas teatrais do grupo Tá na Rua. Pedro Lage é uma referência na história recente da poesia carioca. Acabou de lançar 'Dicionário de Estrelas' (Ibis Libris) reunindo seus 35 anos de poesia.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

um café







um café

-um café.
-expresso?
-espresso, expresso.
-o troco.

a boca ainda quente, pensou

a vida não deve ser bebida
como café inexpresso
às 6 de uma quinta sem sinfonia,

mas às vezes é,
porque tudo às vezes é
como não gostamos,
mas só assim sabemos
o gosto de gostar.

 -um café.
-expresso?
-expressivo.


Nivaldete Ferreira


(Paris,fotografada por mim)

JANELA POÉTICA (III)

 


JANELA POÉTICA (III)


Marize Castro


às margens de mim
o desejo é o mesmo

ir para nenhum lugar
correr para dentro

talvez voar

sexta-feira, 5 de abril de 2013

L. Rafael Nolli

por certo não sou digno da poesia
é o que se comenta
nos pequenos círculos

não comi a flor de lótus
tampouco sai às ruas chapado de rivotril

também disso estou certo
– eles o dizem, por que duvidar –
não evitei o amor
essa grande balela

sequer morri de tuberculose
(nos corredores de uma sinistra biblioteca)

é o que se comenta
quem sou eu para duvidar

não me matei (ou matei alguém)
pelas palavras – ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência a vossa, etc e tal –
muito menos tive a Grande Visão

não vendi armas ao rei da Abissínia
ou cruzei o país
– vagabundo em um vagão –
no encalço do Sublime


.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

"Coração numeroso"

"Coração numeroso"
Carlos Drummond de Andrade

"Foi no Rio.
Eu passava na Avenida quase meia-noite.
Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.
Havia a promessa do mar
e bondes tilintavam,
abafando o calor
que soprava no vento
e o vento vinha de Minas.

Meus paralíticos sonhos desgosto de viver
(a vida para mim é vontade de morrer)
faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente
na Galeria Cruzeiro quente quente
e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro,
nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso.

Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas
autos abertos correndo caminho do mar
voluptuosidade da vida aos homens diferentes,
que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram.

O mar batia em meu peito, já não batia no cais.
A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu
a cidade sou eu
sou eu a cidade
meu amor."

terça-feira, 19 de março de 2013

Adriana Brunstein

os casacos esquecidos no armário
no último inverno
de folhas tristes
e lágrimas geladas
feito nitrogênio líquido
... que conservava os corações
solitários e imunes
e a vista embaçava
e as juntas dos velhos doíam
ficavam apenas as penas
das aves migratórias
os casacos esquecidos no armário
tão cheirando a mofo, porra!

sexta-feira, 15 de março de 2013

Luiz Ruffato



Quarto poema
No último dia do último ano da falseada infância,
vomitando solidão pelas noturnas ruas da cidade,
não imaginava que, mil e quatrocentos quilômetros além,
tu já existias, forma entre formas, magros dedos
desenhavam efêmeros rabiscos na suada vidraça
de um inverno engastalhado na memória,
cicatrizes maculavam teu corpo inúbil,
pernas ocultavam silêncios entre os móveis,
noites aqueciam mágoas
aqueciam nódoas.
No último dia do último ano da falseada infância,
vomitando solidão pelas noturnas ruas da cidade,
só eu não existia ainda. Tu me inventaste.

terça-feira, 12 de março de 2013

ADÉLIA PRADO






"Esconder-se no porão, de vez em quando, é necessidade vital. Precisamos de silêncio e solidão, e, não, apenas os poetas. Senão, corremos o perigo de nos esvairmos em som, fúria e esterilidade. O campo para que a palavra se instale para o autor e para o leitor é o campo do silêncio e da audição."

- Adélia Prado

segunda-feira, 11 de março de 2013

Ana Paula Oliveira




Deixou o raio
o quarto
o risco

e se foi com a dança
de apanhar gravetos

Deixou o raio
o quarto
o risco

E esse vício tão sublime
de brincar de abismos.

Ana Paula Oliveira.