segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Natal


Rubem Braga


É noite de Natal, e estou sozinho na casa de um amigo, que foi para a fazenda. Mais tarde talvez saia. Mas vou me deixando ficar sozinho, numa confortável melancolia, na casa quieta e cômoda. Dou alguns telefonemas, abraço à distância alguns amigos. Essas poucas vozes, de homem e de mulher, que respondem alegremente à minha, são quentes, e me fazem bem, "Feliz Natal, muitas felicidades!"; dizemos essas coisas simples com afetuoso calor; dizemos e creio que sentimos; e como sentimos, merecemos. Feliz Natal!

Desembrulho a garrafa que um amigo teve a lembrança de me mandar ontem; vou lá dentro, abro a geladeira, preparo um uísque, e venho me sentar no jardinzinho, perto das folhagens úmidas. Sinto-me bem, oferecendo-me este copo, na casa silenciosa, nessa noite de rua quieta. Este jardinzinho tem o encanto sábio e agreste da dona da casa que o formou. É um pequeno espaço folhudo e florido de cores, que parece respirar; tem a vida misteriosa das moitas perdidas, um gosto de roça, uma alegria meio caipira de verdes, vermelhos e amarelos.

Penso, sem saudade nem mágoa, no ano que passou. Há nele uma sombra dolorosa; evoco-a neste momento, sozinho, com uma espécie de religiosa emoção. Há também, no fundo da paisagem escura e desarrumada desse ano, uma clara mancha de sol. Bebo silenciosamente a essas imagens da morte e da vida; dentro de mim elas são irmãs. Penso em outras pessoas. Sinto uma grande ternura pelas pessoas; sou um homem sozinho, numa noite quieta, junto de folhagens úmidas, bebendo gravemente em honra de muitas pessoas.

De repente um carro começa a buzinar com força, junto ao meu portão. Talvez seja algum amigo que venha me desejar Feliz Natal ou convidar para ir a algum lugar. Hesito ainda um instante; ninguém pode pensar que eu esteja em casa a esta hora. Mas a buzina é insistente. Levanto-me com certo alvoroço, olho a rua e sorrio: é um caminhão de lixo. Está tão carregado, que nem se pode fechar; tão carregado como se trouxesse todo o lixo do ano que passou, todo o lixo da vida que se vai vivendo. Bonito presente de Natal!

0 motorista buzina ainda algumas vezes, olhando uma janela do sobrado vizinho. Lembro-me de ter visto naquela janela uma jovem mulata de vermelho, sempre a cantarolar e espiar a rua. É certamente a ela quem procura o motorista retardatário; mas a janela permanece fechada e escura. Ele movimenta com violência seu grande carro negro e sujo; parte com ruído, estremecendo a rua.

Volto à minha paz, e ao meu uísque. Mas a frustração do lixeiro e a minha também quebraram o encanto solitário da noite de Natal. Fecho a casa e saio devagar; vou humildemente filar uma fatia de presunto e de alegria na casa de uma família amiga.


Texto extraído do livro "A Borboleta Amarela", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1963, pág. 124.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Desejos


Há muito tempo que deixei de fazer planos nesta época do ano. Basicamente por acreditar que cada plano se convertia em uma expectativa que eu jogava sobre minhas costas – e a chance de me curvar diante de tanto peso sobre os ombros era gigantesca. Resolvi facilitar as coisas para mim mesmo e relaxei. O que terá de vir, acredito, virá. E o que não era para ser meu, que encontre boa acolhida em mãos alheias. Não há nada de elevação espiritual nesta atitude, é só praticidade mesmo. Fui percebendo, ao longo dos anos, que o acaso sempre falou mais alto que meus planos e que grande parte daquilo que conquistei partiu de convites, associações com amigos e mesmo de ideias alheias – que nada mais são do que outros nomes para o acaso.

Eu me recordo com muita clareza do momento em que resolvi pensar assim. Era noite de 31 de dezembro (que óbvio!) e eu estava na Praia de Jabaquara, em Paraty, uma prainha que mais parece uma lagoa de água quente. Ou, como disse um amigo que estava comigo, uma banheira sem ondas e cheia de xixi. Não importa. Faltavam alguns minutos para a meia-noite e eu podia observar a concentração das milhares de pessoas na areia, acendendo velas, professando desejos silenciosos, rezando talvez. E minha cabeça estava completamente vazia. Não conseguia desejar nada, não conseguia pensar em nada concreto para o ano que teria início dali a poucos instantes, não imaginava como seriam meu trabalho, minha saúde, minhas aspirações. Nadinha. A mente estava estranhamente pacificada e vazia. Era como se eu estivesse num restaurante de comida exótica e cardápio ilegível: não adiantava escolher, tudo que me fosse servido seria estranho e arriscado. Mas poderia ser prazeroso também. Era um jogo. O jogo de estar vivo.

Mas, como a atmosfera do local parecia exigir um desejo urgente para o ano novo, fiz o meu. E é o que eu repito até hoje, esteja eu nos últimos dias de dezembro, como agora, ou numa segunda quinzena de um julho qualquer: que eu saiba dar boas-vindas a tudo de novo que chegar na minha vida e que saiba, acima de tudo, dizer adeus ao que está indo embora. Pode parecer bobinho, mas talvez seja um aprendizado que exija uma vida toda – a certeza de que a permanência não existe e que tudo está mudando. Nem sempre para melhor. Mas nem sempre para pior também. E, entre o que chega e o que vai, que eu tenha o bom senso de ser caloroso e hospitaleiro com aquilo que realmente se anuncia como bacana, e que reserve a minha saudade sincera para os grandes afetos que eu não souber, ou não puder, conservar ao meu lado.

Porque um ano novo, um mês novo, um dia novo e talvez até uma hora nova não passam exatamente disso: de uma contabilidade em que ganhamos aqui e perdemos ali. E a esperança, neste jogo, talvez seja a torcida para que o placar penda a nosso favor. Embora eu acredite que o que vale mesmo é a partida. Assim, já que não temos outra alternativa mesmo, que venha o apito de 2010, então.

http://roveriblog.blogspot.com/

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Para Mário e Tetê


Esse carinhoso texto a mim dedicado Carlão publicou no excelente blog "SUBSTANTIVO PLURAL" de Tácito Costa.Não poderia ficar de fora do meu blog,transcrevo abaixo.


Estiveram aqui na minha casa no sábado, Tetê e Eduardinho, duas pessoas do mais alto calibre. Era para ser uma comemoração para ninguém sabe o quê, mas acabou sendo uma celebração pela recuperação do dramaturgo Mário Bertolotto. Acho que todo mundo já sabe que Bortolotto tentou defender uma amiga de um assaltante num bar em São Paulo e levou quatro tiros na semana passada. Mas ele está bem. Minha mulher agora não pára de dizer, Carlão, pelo amor de Deus, você faria o mesmo. E eu digo, não meu bem, não faria, só se fosse necessário. Só conheço Mário do que li nos jornais sobre as peças que ele escreveu, mas gostaria de saber mais. Ele é dos meus, não é um covarde como a maioria dos caras que conheci aqui em Natal. Tetê é minha amiga das antigas e a gente nunca se confundiu nos meandros das ideologias. O fato é que ela chegou e foi logo tomando conta do som da casa. Pegou seus discos na bolsa e disse, Carlão, deixa comigo. E tascou Waldick Soriano. Porra! (note que aqui eu me solto para falar palavrão). Waldick faz parte de minha vida desde que eu passava minhas férias no Vale do Açu. Minha mãe tem a base de sua família toda lá onde eu conheci um cara grosso feito papel de prego, chamado João Bolha. Ele só gostava de duas coisas na vida: mulher e caça. Não, ele gostava de outra coisa. Ficar embriagado ouvindo Waldick Soriano. Foi esse cara que um dia chegou comigo numa bodega, digna daquelas descritas por João Rosa, e disse, bote um cinzano para esse menino. Aí ele pediu ao dono do estabelecimento para colocar a música que adorava. Então eu ouvi, “minha querida, saudações…”. Na hora detestei. Mas depois descobri que ali havia um Brasil que ainda não compreendi direito. “Escrevo esta carta…”. É uma canção chorosa, com arranjo totalmente mexicano. Nunca o Brasil foi tão mexicano. Bolero, meus amigos. Mas é lindo, percebo agora. E enjoativo como qualquer bebida doce. Quando eu pensava que estava tudo resolvido, vi o documentário de Patrícia Pillar sobre Waldick Soriano. Eis aqui a história de um legítimo filho do Brasil. Mas, diferente do outro, um filho que não deu certo. Um homem pobre, que saiu do nada e ganhou a vida perdendo tudo, mulheres, filhos, e nunca a dignidade. Escolheu a boemia, a solidão. Patrícia Pillar mostra tudo, sem afetação, sem medo. É o cara que ela costumava ouvir no rádio ao lado do pai. O momento que eu mais gosto é quando ele diz no total ostracismo, “eu não sou brega, sou poeta”. Tetê me deu o disco de presente e agora escuto sempre que quero me lembrar daqueles tempos. Quando a gente envelhece aos poucos, e aceita, o passado não dói tanto. João Bolha foi para o Rio de Janeiro e virou um careta. Acho que ele ainda adora Waldick.
Carlos de Souza.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Lúcio Cardoso, Ipanema e solidão


Por Wilson Bueno

O autor de “Dias Perdidos” disturbou a cena provinciana do Rio de Janeiro do início dos 50 com uma graça profética e corajosa


Não conheci Lúcio Cardoso, mas foi como se o conhecesse.
Convivi e freqüentei Maria Helena Cardoso, praticamente até sua morte, aos 94 anos, em 1997, ela, a “irmã sempre”, de Lúcio, que era como Clarice Lispector, também íntima dos Cardoso, chamava a eterna Lelena.
Sob seu fascínio e sabedoria ancoraram meus vint’anos atordoados, nos loucos anos 70 -o mar de Ipanema, um mar de birita e naufrágios. Nem um pouco divertido. O Horror Médici e outros horrores lá fora a rugir... Lelena era então best seller nacional com um livro humaníssimo e singelo, “Por Onde Andou Meu Coração”.
Ouço na noite grande o assovio de Inácio, na novela espantosa de mesmo nome, publicada por Lúcio em 1946. Bato com ele os pequenos caminhos de terra de Mangaratiba, na leonina desolação dos fins-de-semana aterrados que o “Diário Completo”, a sua ópera prima -vida e viés- nos conta com um luxo melancolicamente suicida.
Príncipe lúgubre, por mais de 40 anos, na Ipanema encharcada de álcool e anfetamina, ele foi o vampiro cândido e de grandes olhos expectantes. Ah, já adivinho os seus olhos, que eram como se barcos bêbados em meio à agonia de viver buscando Deus em cada esquina. Terrível o destino de quem se vê a buscar Deus, dia e noite, em cada esquina.
As novas gerações talvez nunca tenham ouvido falar de Lúcio Cardoso (1913-1968), como pouco ou nada ouviram falar de Cornélio Pena (1896-1958), de Otávio de Faria (1908-1980), que se pretendeu um Balzac brasileiro com as milhares de páginas de sua “Tragédia Burguesa”, ou do poeta Marcos Konder Reis (1922-2001) a buscar o Deus da Ressurreição, ainda que lanhado a chicote e sal. Identificados todos com o melhor do pensamento cristão de seu tempo, sobretudo o que tinha no filósofo francês Jacques Maritain seu epígono.
Recomponho, viajo, desenho: aos trapos, o saltitante amor adolescil de Clarice e Lúcio, como dois meninos, a andar a Copacabana de outrora, debruada de edifícios art nouveaux, cantando, quem sabe, uma ária de Puccini. Sei que se amaram do mais fulgurante amor -ela, a menina-escritora; ele, o jovem mestre, belo como um Deus ígneo, acuado ante o espanto de viver. O que conversavam? Do que ria a sua juventude exaltada? De que amor o amor no amor?
Lúcio foi mais, bem mais que um escritor. Disturbou a cena provinciana da Ipanema do início dos 50 com uma graça profética e corajosa. Talvez ele tenha sido o primeiro hippie brasileiro, muito antes dos hippies e do “make love not war”.
Era um ser devotado a uma revolução pessoal que nele tinha ainda mais charme porque revolução secreta, íntima, uma “reviragem” pessoal que marcava o tônus dos dias e mudava as coisas de lugar. Mas isso nele era tão profundamente particular, que o fazia assim como se um personagem de si mesmo. Andava descalço pelas ruas; bêbado, desvestia a camisa para com ela abrigar um outro bêbado em sua ruína provisória na grama da praça.
Imagino Lúcio, súbita “Pietá”, a amparar nos braços um menino morto; imagino Lúcio consolando alguém que a vida nocauteou a sangue e lágrimas; imagino Lúcio abraçando-se ao último poste da madrugada, sob a névoa dos junhos do Rio de Janeiro.
Sim, senhores, Lúcio Cardoso não foi só o autor de “Crônica da Casa Assassinada”, desolado painel de sangue, veludo e solidão, o amor sufocado e mesquinho; só ali onde o Amor pode ser mesquinho -nas casas coloniais da Minas decadentosa, a manter, ainda que a pão e água, a sua arrogante aristocracia. Nem queiram saber o que transita nos corredores dessas casas mortas e nem jamais ousem tocar na taça de vinho sobre o piano, cuidado!, pode que seja uma taça de veneno.
Timóteo, personagem marcante do livro, gordo e travestido de mulher, encerra-se num dos quartos, o idiota da família. Nem Fellini para imaginar, em 1959, esses seres de augúrio e pesadelo, a contar o raconto soturno do debaixo dos ouros das Minas Gerais.
Foi homem de recolher à casa dos pais, mesmo sob os mais enérgicos protestos da família, qualquer poeta recém-chegado da província, perdido no Rio, mas capaz de guardar dentro o poema feito um acinte, e isto era o que Lúcio melhor adivinhava, posto que esta era a sua maior urgência de viver. Fez isso, sobretudo, com Walmir Ayala. Mas o fez, também, com poetas cujo segredo a sua lenda guardava feito uma esmeralda viva no bolso do velho paletó.
O AVC que o emparedou em vida durante sete anos, interditando-lhe um dos lados do corpo, fez com que brotasse da até então quase inútil mão esquerda, pinturas de uma beleza trágica e alguma vez corrosiva. Anjos de asa quebrada, viajante a cavalo num Carnaval de matizes com que a mão, que lhe sobrara do incêndio, pintava, ora oligofrênica, ora nervosa feito a mão de uma criança com medo e, por vezes, tocada pelo gênio da cor e do evanescimento.
Não chegou a ser pintor à altura do que escreveu. Gritou, contudo, desde o seu silêncio acossado, numa explosão de guaches, de óleos e aquarelas. Já que não falava nem escrevia mais, interpelou Deus de frente, e não teve medo de Suas às vezes sinistras sentenças. Nem sempre o Deus do amor, este Deus cheio de ódio, que agora o escorraçava sem dó. E o enjaulava em si mesmo.
Desde sempre, antes da doença, escrevia a intervalos “existenciais” muitas vezes grosseiros -cinco, seis meses sem abrir o caderno por onde, quando se recompunha de suas quedas e precipícios, deslizava o lápis miúdo. Ainda uma vez, outro homem, a hinar a manhãs, movido pela fé na reconstrução dos dias derruídos. Lúcio nunca perdeu as esperanças. Um dia se salvaria de si mesmo. E então, saibam todos, não beberia mais e nem faria das noites desarvoradas o sagrado altar de sua melancolia.
O estilo de Lúcio traz, em suas melhores obras, a medida exata do cáustico, sem esquecer as ferezas e o abandono brasileiro das cidades perdidas e decadentes, afundadas em vales e grotões; tanto quanto, de seus habitantes, põe a nu as mazelas de amor. Incestos, adultérios, o desejo anda e anda, violáceo, igual que os longínquos horizontes de Minas, se é o poente, o demorado poente dessas aldeias sem Deus. O revôo dos tiés-sangue a prenunciar o infortúnio.
Seja em “Crônica da Casa Assassinada” ou no inconcluso, mas ainda assim sublime, “O Viajante”; seja nas novelas que, num misto de Hoffmann e Bernanos, perguntam pela vida detrás da morte, só a Morte parece vigorar com um luxo imperial e obsedante.
Dedicou-se ao cinema e à dramaturgia, mas o que existiu de fato foi, senhores, sem erro, o melhor dele, isto é, ele mesmo. Não sem razão o “Diário Completo” é o seu canto de cisne. Secreto “serial lover” a pisar macio as noites de Ipanema. Quasímodo ou lobisomem, aquele tempo em que dançavam no escuro os pirilampos na praia quase selvagem da Vieira Souto.
Embora a sua solidão fosse a de um homem e seu quarto, a de um homem e o encontro anônimo nas dobras da madrugada; ainda que a sua solidão fosse a de um pedinte da Beleza baldia, freqüentou e foi freqüentado pelo que havia de mais fino naquele Rio de Janeiro de antigamente. De Manuel Bandeira a Drummond, de Clarice a Tom Jobim, de Vinícius a Rachel de Queiroz, de Otto Lara Resende a Murilo Mendes, de Alceu Amoroso Lima a Roberto Burle Marx.
Em seu último dia de hospital, Clarice Lispector que, de todas as mulheres do mundo foi a que ele mais amou, relata, num quase ganido de dor que, ao entrar no quarto, vira o Cristo morto. O rosto esverdeado de um El Greco. E agora, por mais que ela gritasse, ele não a ouviria jamais. Antes, mudo ou grunhindo, ainda assim ele era o prodigioso Lúcio de sua juventude apaixonada. Agora ele não a ouvia mais.
E é justamente ele, Lúcio Cardoso, quem melhor explicita o personagem que dedicadamente construiu em 57 anos de vida, ou seja, ele mesmo -o personagem Lúcio Cardoso. O “Diário Completo” que o diga.
Desde o já longínquo 17 de outubro de 1962, derradeira anotação, grafa a lápis naqueles seus cadernos de solidão, com caligrafia quase bailarina, de uma regularidade espantosa para o que nele era tormento e desesperança, pouco antes do AVC que lhe quebraria em dois, o que me parece a sua suma e também uma cerimônia de adeus:
“Aquela mesma angústia fria, aquela dor sem doer que se espalha pelo corpo inteiro, arrumo, desarrumo, faço, e refaço. Ah, como é difícil ser calmo. Encho-me de remédios, vou à janela: é a noite, a noite dos homens, a minha noite. Ruídos de carros que passam na escuridão. Rádios abertos. Vultos que transitam em apartamentos acesos. E eu, eu? Onde vou, que faço?
Ouço a voz de Cornélio Pena -naquele tempo- ‘o seu sofrimento é um sofrimento bom, de permanecer à margem’. Não há, Cornélio, pior sofrimento do que permanecer à margem. Não tenho temperamento para isto. Quero amar, viajar, esquecer -quero terrivelmente a vida, porque não creio que exista nada de mais belo e nem de mais terrível do que a vida. E aqui estou: tudo que amo não me ouve mais, e eu passo com a minha lenda, forte sem o ser, príncipe, mas esfarrapado”.
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Wilson Bueno
É escritor, autor de "A Copista de Kafka" (ed. Planeta), entre outros títulos.

http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2920,1.shl

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

FRUTA-PÃO



Para Leo Ventura

Minha madeleine
É a memória dessa fruta
Nas beiras litoral
Entre os coqueiros e a brisa
O cheiro de sol na areia
Os movimentos livres da infância
Os agitos soltos da juventude
O amor ancorado na pulsação quieta
A poesia inscrita no sabor

João Batista de Morais Neto

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A noite do Rei


Pela primeira vez em 50 anos de carreira, Roberto Carlos foi obrigado a adiar a gravação do seu especial de dezembro. O show, que deveria ter acontecido na semana passada, foi remarcado para ontem, terça-feira, no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Sem tocar no assunto das fortes dores musculares que o fustigaram no começo do mês, o cantor abriu o espetáculo falando da idade avançada e arrancou risos complacentes: "Desde que nasci – e sei que faz muito tempo...".
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Poucos artistas no mundo podem se dar o luxo de cantar o mesmo repertório ao longo de décadas e ainda assim continuar arrastando e emocionando multidões. Roberto é um deles. Tudo neste personagem mítico parece imutável: do corte de cabelo ao velho terno azul. A impressão é de que o Rei, assim como o Natal, sempre houve e sempre haverá.
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É possível buscar explicações racionais para o fascínio que sua figura exerce no palco – da produção global que o cerca ao naipe dos músicos que o acompanham, muitos são os fatores que fazem de Roberto Carlos o maior cantor popular do Brasil em todos os tempos. Mas só estas explicações não satisfazem.
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O Rei está impregnado na memória do povo brasileiro. Todos, em maior ou menor grau, temos uma lembrança envolvendo uma música de sua autoria, independente de faixa etária ou classe social. Esta memória coletiva – e afetiva – é a responsável pela catarse que acontece sempre que o mito repete o gesto de caminhar lentamente em direção ao microfone e, após a introdução apoteótica da orquestra, entoar com a inconfundível voz anasalada os versos atemporais: "Quando eu estou aqui/ eu vivo este momento lindo...".
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A abertura com Emoções é previsível, mas sempre única. Frank Sinatra também era previsível quando encerrava seus shows com New York, New York. No entanto, foi um crooner genial. Não seria a repetição uma virtude? Assim como as pessoas se sentem seguras quando constatam que a comida de seu restaurante preferido continua a mesma apesar da passagem inexorável do tempo, também os fãs do Rei se sentem acolhidos em canções como Detalhes. É como voltar para casa depois de uma viagem longa. E ele sabe disso.
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"Vou cantar agora uma música que nunca pode ficar de fora. Uma vez deixei de cantar e parece que ficou faltando alguma coisa", comentou o cantor no momento mais introspectivo da noite. Ao banquinho e munido de violão, tal e qual João Gilberto (Roberto iniciou a carreira imitando o pai da bossa nova), colocou a orquestra e a multidão em respeitoso silêncio: "Não adianta nem tentar me esquecer/ durante muito tempo em sua vida/ eu vou viver".
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A presença mais aguardada do evento era a da atriz Dira Paes, a nova musa de RC. Assim como Camila Pitanga no especial de 2007, Dira foi convidada a cantar Cama e Mesa. Ela fingiu se esquivar, como se tudo não tivesse sido ensaiado, e avisou que só cantava no chuveiro. "Infelizmente não foi possível montar o chuveiro aqui no palco", brincou Roberto, "mas eu gostaria muito que você cantasse comigo". A plateia masculina se manifestou efusivamente pela primeira vez. Como cantora, porém, Dira Paes mostrou ser uma boa atriz.
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O encerramento do show, tão previsível quanto a abertura, levantou o público nas arquibancadas do Ginásio do Ibirapuera: acompanhado por uma orquestra em êxtase, cantando Jesus Cristo enquanto distribuía rosas vermelhas aos convidados da primeira fila, o Rei repetiu uma história de Natal já muito conhecida dos brasileiros. Para a Psicologia, a repetição da estrutura mítica individual reedita o mito familiar. É impossível entender como ama a família brasileira sem entender a obra de Roberto Carlos.
Escrito por Bruno Ribeiro

LONELY DRUNK por Mário Bortolotto


Eu moro sozinho. Eu durmo numa rede. Sozinho. Eu ando sozinho por aí. Também ando acompanhado. Mas nem sempre me sinto sozinho. Só às vezes. Sozinho ou acompanhado. Eu aprendi que a solidão é algo que eu carrego dentro de mim. Solidão não é descer a Rua Augusta sozinho de madrugada, admirando as garotas na calçada. Solidão não é atravessar as ruas totalmente bêbado, descer as escadas do Gruta e não encontrar ninguém pra jogar bilhar, e ficar dando voltas em torno da mesa girando um taco imaginário. Solidão talvez seja ouvir as bolas caindo na caçapa. Solidão não é uma casa no meio da neve. Solidão talvez seja minha avó contando histórias de assombração. Um garoto de doze anos chorando sozinho numa cama com saudades de casa. Solidão não é ter o telefone desligado na sua cara. É você ouvir notícias de um país distante num rádio velho. O que eu quero dizer é que há pilhas de romances e poemas sobre a solidão. E você acha que eu nunca sinto medo? Eu penso em Hemingway com a espingarda na boca e Silvia abrindo o gás. Estamos chegando perto demais? O velho bêbado apaixonado pela garota de 23 anos e sonhando em fugir com ela pra Las Vegas. Existe algum outro tipo mais cruel de solidão? Não estou vaticinando meu fim. Estou sussurrando em seu ouvido um segredo. Você faz o que quiser com ele. Pensa bem se isso também não é solidão. Saber é solidão. Não é você ser abandonado no meio do mar. É você ter consciência num navio de bêbados. Não é uma tempestade sobre a cruz no Gólgota. É aquela cidade onde o sol nunca se põe. A solidão não é uma senhora de capuz parada na beira da estrada. Talvez seja o padre vociferando no púlpito. A solidão é um show de rock and roll e a garota gordinha modernete e cheia de opiniões e que vai voltar sozinha pra casa enquanto sua amiga burra e linda ficou com o guitarrista da banda. Não é o sujeito no caixão com as mãos em torno do rosário e o nariz entupido de algodão. Isso não é solidão. A solidão é o velório que sempre foi uma piada triste. A solidão é a passagem dos dias. A solidão não é um blues de Corey Harris. A solidão é o carnaval. A solidão é um farol. Eu apenas me deixo guiar. A solidão vai durar eternamente. O dia que eu sentir que não pode mais ser assim, juro que dou um jeito nisso. Ou então como diria o último boy scout, eu arrumo um cachorro. (mário bortolloto)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Uma crônica de Bruno Ribeiro


Tenho vontade de guardar meus amigos num frasco. De tê-los à mão para conversar deliberadamente. E sinto a necessidade de aprisionar o tempo - não para que ele não passe, mas para que retenha certos sentimentos que deveriam ser eternos. Certos bares nunca poderiam fechar suas portas e certas mulheres não deixariam de nos olhar com olhos de criança diante de um brinquedo novo. Eu tenho muitos sonhos impossíveis - na política, sobretudo, por conta da teimosia e da inesgotável esperança no futuro. Mas dos sonhos mais singelos que tenho, o mais querido é juntar numa festa todas as pessoas que amo ou amei: meus amigos, minhas mulheres, os escritores que fizeram minha cabeça, os jogadores de futebol inesquecíveis, os músicos e os compositores, os mendigos da minha infância, os cachorros que já morreram, os guerrilheiros do Araguaia, os donos dos bares onde afoguei as mágoas ou celebrei qualquer coisa. Todos estaríamos ao redor de uma mesa forrada com as comidas que eu gosto - rabada com angu e agrião, feijoada, torta de palmito, sardinha portuguesa à escabeche, bife à cavalo com fritas - e haveria uma grande confraternização e não faltaria cerveja, uísque e cachaça para ninguém. E aí, quando fosse domingo, depois de dois dias de extrema felicidade, eu morreria. Eu morreria numa cama imensa e macia, rodeado por todas as pessoas que amo ou amei. E, se não fosse pedir demais, haveria uma orquestra no telhado e ela executaria primeiro a A Cavalaria Rusticana e depois a Internacional Socialista e eu, fisgando um decote, diria alguma gracinha para uma ex-namorada, fecharia os olhos e pronto. Aí, como João Amazonas, pediria que minhas cinzas fossem jogadas no Araguaia, onde tombaram os companheiros. Só que no caminho alguém mudaria de idéia e me jogaria no rio Maracanã, onde minhas cinzas encontrariam as do Fernando Toledo e as cinzas dele perguntariam para as minhas: "E aí, como estão as coisas por lá? Continuam a mesma bosta?". E as minhas cinzas responderiam insolentes: "É, estão do mesmo jeito. Mas até que dá para o gasto, viu? Você faz falta, mano.." E então nossas cinzas entrariam pelo buraco de um encanamento qualquer e se juntariam no esgoto e, tal como na vida, faríamos parte da mesma merda. Sei lá, às vezes eu penso que só valeria a pena viver se fosse assim. E morrer também, o que acaba sendo quase a mesma coisa.
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domingo, 13 de dezembro de 2009

Cristiane Lisboa


aqui na segunda divisão, o mundo é duro, rapaz. sorte tua que mudaste de camiseta nos últimos minutos do segundo tempo. sinto a testa suar mesmo com temperaturas abaixo do normal para a primavera. me recolho em silêncio e ignoro as placas onde se lê "eu já sabia". me espanto com a facilidade de julgamentos, com o volátil do que eu acreditava ser tão real e com a quantidade de cacos depois da queda das nuvens. se desse certo, era culpa nossa. como deu errado, é problema meu. papai diz ao telefone "agora levanta e anda. antes que alguém te chute." alô, telefonista?

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Mário Bortolotto


Podia sentar aqui e escrever um texto longo sobre exílio e desesperança. Sobre um sujeito triste e improdutivo se arrastando por aí. Podia simplesmente publicar o poema que terminei de escrever hoje à tarde ou transcrever aqui mais um poema do velho Buk. Eu podia ficar aqui na frente da tv apenas zapeando sem nenhuma urgência. Podia abrir aquela garrafa de Jack Daniels Silver Select. Podia ouvir o LP do Joe Cocker de 1.970. Mas eu não vou fazer nada disso. Vou continuar aqui fazendo o que comecei hoje à tarde. Vou terminar de assistir "Husbands" do John Cassavetes. Porque tá quase tudo lá. Porque as pessoas continuam. Tá pensando que eu não saquei isso? Todo mundo continua. E eu também vou. Mesmo porque não me ensinaram a fazer outra coisa. E os que tentaram, eu simplesmente ignorei. E não há nada de beligerante nisso. Sou tão vulnerável quanto qualquer um. E nunca me esqueço disso.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Jessica




foi o bom Sheppard
quem me ensinou
a andar pelo deserto
mesmo assim
eu esperava
escondido
que ele saísse
com a velha camionete
não da casa de Los Angeles
mas
do rancho
no Monjave

depois eu entrava
na casa
meio sem jeito
as botas sujas
o colarinho grudando

e ela me esperava
com um leve vestido
facíl de tirar
e um copo pronto
de limonada
com muito gelo

(dezembro, 2009)

Lalo Arias

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O ator


Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,

embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:

nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza

que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos

em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,

sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.

Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.

Eucanaã Ferraz

sábado, 28 de novembro de 2009

quinta-feira, 26 de novembro de 2009


A verdade, mais tola e mais simples, mais certa e mais secreta é que me fazes falta, esse vácuo, esse oco sem precisão ou contorno, sem nome ou lógica. Tu me fazes falta e me fazes carregar comigo uma ausência indefinível e perpétua, um esgar que é antes um tatear no vazio do que um estender de mão em direção a algo. Tu me fazes falta, me cavas um buraco, pões em meu rosto um borrão que não me desfigura, antes me torna um enigma para mim mesma. E venho me definindo e me reconfigurando ao redor disto: da tua falta. Sou esta que se ressente da tua ausência sem saber mais sequer como é a tua presença, que forma tem o teu corpo, qual o cheiro do teu hálito, qual a cor dos teus olhos, que gosto tem a tua boca assim que despertas. E no entanto sei disso: me fazes falta, essa falta ampla e completa que toma o dia cada vez que me vem o teu nome, essa falta que abre uma fresta no tempo, que suspende os ruídos do mundo, que modifica a direção do vento e que toma o centro de mim e ao redor da qual eu brinco de ser uma outra, que eu inventei para parecer que continuei vivendo.

Ticcia

quarta-feira, 25 de novembro de 2009


Isso de mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: como quem come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.

Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Pra guardar no eterno o coração do outro.

(Hilda Hilst)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009


O tempo, amigo, está contaminado.
Estamos todos comprometidos numa traição
que não sabemos
heróis e cúmplices de alguma coisa prestes a acontecer
que não acontece.
Amigo, se eu te pudesse depor
como se depõe uma veste
que face (terrível ou heróica)
eu voltaria para estas manhãs que já
nascem mortas
que palavra silente me umedeceria a boca?
Amigo, se eu te pudesse depor
(como depor o caminho como as mãos
os braços como o sonho a luz esta
rosa e o seu vermelho?)
Se eu te/me pudesse depor
amigo, se eu te/me
que noite mais escura ainda
seria nossa guarida
do que estes tempos contaminados
em que as palavras morrem em minha boca?

Maria do Carmo Barreto Campello de Melo

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

ASILO SANTA LEOPOLDINA





Todos os dias volto a Maceió.

Chego nos navios desaparecidos, nos trens sedentos, nos aviões cegos/

Que só aterrizam ao anoitecer.

Nos coretos das praças brancas passeiam caranguejos.

Entre as pedras das ruas escorrem rios de açúcar

Fluindo docemente dos sacos armazenados nos trapiches

e clareiam o sangue velho dos assassinados.

Assim que desembarco tomo o caminho do hospício.

Na cidade em que meus ancestrais repousam em cemitérios marinhos

só os loucos de minha infância continuam vivos e à minha espera.

Todos me reconhecem e me saúdam com grunhidos

e gestos obscenos ou espalhafatosos.

Perto, no quartel, a corneta que chia

Separa o pôr-do-sol da noite estrelada.

Os loucos langorosos dançam e cantam entre as grades.

Aleluia! Aleluia! Além da piedade

a ordem do mundo fulge como uma espada.

E o vento do mar oceano enche os meus olhos de lágrimas.
LEDO IVO

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Sobretudo



o paletó azul me separou da multidão
de horas que grudavam feito gente
fiquei mirando, um olho avisado
algum segredo que foi meu bem antes:
um raio um tilt o teu primeiro bei
jo acordes me acordando o teu lençol
pião sorvendo num ralo ligei
ro a cor e a antesala dos avós
a letra mágica a página ímã
do Reinações na tarde de ambrosia
a voz do filho já não mais a mi
nha azul de ar o corpo tão alheio
quadriculado, eis que me incandesceu
- feito uma insígnia, quase absurdo -
arcaizando o meu presente inerte.
estava andando e então senti o sopro
o dia abriu em dois, nitidamente:
o paletó azul estava tecido com o poema
um clown sem nuvens atravessando a ponte.



Claudia Roquette-Pinto

sábado, 14 de novembro de 2009

FRAGMENTOS


Eu sei, de vez em quando vem as guerras porque não somos somente paz. Mas escute, amor: a guerra é lá fora, contra quem quiser pisar na sua cabeça. Não, eu não quero. Eu sou fraca, o amor é fraco, o amor já se entregou. E se isso não tiver graça, eis a hora de partir, pois não é amor o que você procura. Eu só posso lhe oferecer a experiência assustadora e aterrorizante de ser amado.



E se existe alguma guerra é essa: meus dedos em sua pele, delicadamente, arrancando da superfície o que nem você gostaria de ver em si mesmo. Pois está vendo esses dedos? São eles que fazem carinho quando o mundo nos dá vontade de encolher num canto do sofá e dormir chorando... O Outro não pode amar aquilo que Eu não legitimo, não pode! Essa é a guerra! O risco de descobrir-se sem vestes, fraco, humano como qualquer outro, e ainda assim amado. É tão exposto quanto nascer, e não saber como será o mundo; assim como, nu e frágil, não saber o peso daqueles olhos em você.



Hoje eu quis inventar uma outra palavra, não pena. Que em pena a perspectiva é vertical. Em pena, sou eu olhando para baixo, e eu uma outra que traduzisse assim: eu olhando para dentro. Então eu assisto àquilo, olhando um cadáver ainda morno e digo sim, sim, ele tinha dentes muito bonitos, sim. Mas não fui eu que inventei a morte, não fui, a culpa não é minha. Eles dizem: alimente-se bem, beba pouco, não fume. Não fui eu que inventei isso de a morte entrar pela boca. É uma lei natural. Tudo o que é só corpo, pele ou matéria está se desgastando: o guarda-roupa, a Brigitte Bardot, tudo.



Então, o que se salva senão o intangível, senão os gestos que construímos em silêncio, de olhos fechados? E de olhos fechados, sonhei que você voltava dessa guerra e entrava embaixo de minhas cobertas: era o lugar mais quente depois que nada disso importava mais. Eu te abraçava bem forte, sem nada perguntar, porque o modo como você aquecia os meus pés friorentos era mais bonito do que tudo, tudo.

Escrito por Rita Apoena

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A QUEIMADA


“Queime tudo o que puder :
as cartas de amor
as contas telefônicas
o rol de roupas sujas
as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência
e anuncia a arteriosclerose

os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.

Seja como os lobos : more num covil
e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.

Destrua os poemas inacabados,os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita”.
LEDO IVO

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A um apostador


pra mim

o páreo
é dentro

corro
por fora

(aéreo,
atento)

e fim.
(autor: Duda Machado. livro: Crescente. editora: Duas Cidades.)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um texto de André Pereira


Andava sem rumo,sua ternura estava imprópria para consumo humano,feitos os pastéis adormecidos nos vidros do botequim,cumpriu sua faina;soturnamente comeu o desjum de sempre,acendeu seu cigarro e falou manso para o dono do boteco:-como está a vida hoje seu honor.O velho entre rabugento e sarcástico gritou como sempre,UMA MERDA MEU QUERIDO DOUTOR!sorriu aquiescente e viu uma bela colegial passando com suas pernas brancas rumo ao colégio,lembrou da infância e de tudo que estava longe,muito longe;soltou uma grande baforada para o infinito e resmungou:prá que tantas pernas meus deus,porém seus olhos não diziam nada,era a vida na sua essência cotidiana.

sábado, 7 de novembro de 2009

Insuportavelmente feliz


Outro dia, discuti com uma pessoa. Discordamos, e rapidamente a alternância entre sarcasmo e respostas agressivas virou um bate-boca. Não me importo muito com embates e cada vez menos me altero com eles. Por outro lado, a pessoa gritava cada vez mais alto, me insultava e acabou me ameaçando. Quase levei uma bofetada. O motivo da discussão era pífio, o que é comum no mundo do estresse em que a maior parte das pessoas socialmente integradas vive. Ironicamente, um pouco antes, na mesma tarde, vi a pessoa em questão entretida com a leitura de Inteligência Emocional, best-seller de Daniel Goleman, PhD, que defende a tese de que o sucesso pessoal depende muito mais da capacidade de ser gentil e amável nos relacionamentos do que da capacidade intelectual das pessoas.

Ela lia por que achava que precisava desse tipo de livro? Ou por outro motivo qualquer?

Livros de auto-ajuda são de uma canalhice quase inconcebível. Voltam-se a pessoas carentes, doentes da alma ou ambiciosas, com sede de sucesso. Não duvido do poder deles, já que a maioria se baseia no conceito da mentalização: é preciso ver a coisa feita na mente antes que aconteça na realidade. Mas duvido que seja preciso escrever tantos livros, com variações das fórmulas de sucesso, para descobrir isso. Tento me cercar de pessoas agradáveis e, se possível, otimistas. Ou de pessimistas inteligentes, e sei que é cada vez mais difícil achá-los. Nossa era padece de um mal terrível: a obrigação de ser feliz. Insuportavelmente feliz.

Meu avô trabalhava na Sears, loja de departamentos de que os mais velhos vão se lembrar. Nessa época, uma pessoa como ele podia ser feliz, simplesmente. Ele não tinha estudado até o nível superior, mas a formação técnica lhe dava um trabalho capaz de suprir as necessidades de sua família, uma esposa linda e amada, três filhos inteligentes e saudáveis, uma casa confortável, ainda que sem luxos. Não sei se no íntimo meu avô era feliz, mas quando eu era criança, brincávamos em parquinhos, ele me ensinou a reconhecer canto de sabiá e de bem-te-vi, fazer dobraduras, ouvir histórias e amar cavalos (ele era viciado nas corridas do Jóquei, embora não apostasse). Não acho que uma pessoa infeliz fique satisfeita com esses pequenos prazeres; pelo contrário, mal consegue se dar conta de que eles existem. E isso é o mal de uma época: por processos midiáticos, econômicos e sociais, tudo é ambição e expectativa. No plano profissional, por exemplo, ter um emprego e salário digno não bastam: é preciso ser realizado. E a mesma ciranda roda em todos os aspectos da vida.

Muitas palavras-chave fazem o inferno da vida contemporânea: fama, poder, motivação, reconhecimento, independência, liberdade, sucesso, amor. Um ciclo de esforços infindável se desenrola: faculdade, cursos de idiomas que nunca serão praticados, pós-graduação, aparelhos eletrônicos sofisticadíssimos e que logo serão obsoletos, redes de relacionamento virtuais, maquiagens, o par perfeito, o relacionamento afetivo sem tremores, álbuns de viagens com fotos de lugares descolados, horas de malhação na academia e tratamentos estéticos. Tudo isso para quê? Para satisfazer a quem? Não sou uma adepta voraz da vida simples nem neohippie à deriva. Mas acredito que os livros de auto-ajuda são um efeito colateral de uma sociedade que está tão imersa em seus processos de evolução que não se dá conta de que eles existem. Assimilar a criação social que nos cerca como um fato natural é perigoso. Perde-se a consciência de si e do outro, e há o sentimento de ânsia permanente. Nada mais lógico, portanto, do que buscar uma resposta qualquer para a vida que parece tão sem sentido, tão à espera de que algo mais finalmente aconteça.

Dou a cara à tapa, contudo: li um livro muito interessante, que abriu meus horizontes. Era de auto-ajuda financeira: Mulheres boazinhas não enriquecem, de Lois P. Frankel. Não espero enriquecer por causa dele, mas pelo menos percebi porque o dinheiro não pára na minha mão. A tese central do livro é que as mulheres não valorizam o dinheiro e carreira em causa própria, e sim com a finalidade de cuidar das pessoas amadas e lhes proporcionar bem-estar. Descrições de alguns padrões de comportamento femininos, puras e simples, acompanhadas de dezenas de exemplos e dicas práticas, me pareceram sensatos e razoáveis, factíveis. Além de adaptáveis a vários tipos de problemas, desde sair do vermelho no cartão de crédito a como pleitear um salário mais condizente com as qualificações profissionais. Desse, gostei bastante.

Em termos de auto-ajuda emocional, ficção me parece muito mais eficaz do que os guias que forram as prateleiras das livrarias. A literatura é cheia de histórias capazes de mudar o ser humano. O dilema de Antígona, na tragédia grega, entre atender a um dever de Estado e deixar o irmão insepulto, ou cumprir a obrigação familiar e os costumes e prover-lhe um enterro, me valeu por anos de terapia e vários tratados de ética. Mais recentemente, encontrei um verdadeiro refrigério moral e emocional na série de TV House. O personagem principal é um médico que faz escolhas nos planos pessoal e profissional extremamente radicais, fundadas num sistema de valores complexo e pessoal. O ganho que a série me trouxe (como fizeram vários livros, discos e filmes) foi uma percepção nova sobre minha realidade. Livros de auto-ajuda trazem respostas; a arte geralmente traz perguntas. Por escolha pessoal, fico com a arte.

A auto-ajuda se baseia um mundo irreal onde tudo pode dar certo, onde perder não é uma opção. Não me parece uma opção para evoluir e amadurecer, embora muitas vezes esses livros estejam recheados de boas dicas pessoais e profissionais. Vale a pena buscá-las, é um paliativo tão útil como assistir Top Hat, musical de 1935. A cena em que Ginger Rogers e Fred Astaire dançam ao som de “Cheek to Cheek” é capaz de curar, por cinco minutos que seja, qualquer ferida na alma. Não à toa, é com essa cena que termina A Rosa Púrpura do Cairo, filme de Woody Allen em que Cecília, a personagem de Mia Farrow, volta a ter esperança depois de ter sua vida arrasada, com essa tomada. O filme é um acalanto, uma resposta a um país em crise. Mas muito mais do que de respostas, o ser humano precisa de perguntas, que os livros de auto-ajuda nunca trarão.

Verônica Mambrini

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

"sentido sem título":


quando penso que queria
que caísse sobre nós
a pedra da gávea

dou aquela risadinha
maligna em seguida
aquela choradinha

invisível, atravessada
entre o olho e a garganta
nem piscando passa.
(Bruna Beber)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Pranto Para Comover Jonathan


Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.
Adélia Prado

sábado, 24 de outubro de 2009

CAIO F.( Personagem de si mesmo )


Sou assumidamente apaixonada por Caio.Foi ele quem melhor escreveu sobre minha geração.Transcrevo aqui no meu blog a resenha de Marcelo Moutinho sobre dois livros recém-lançados e que jogam luz na vida e na obra de Caio Fernando Abreu.
Personagem de si mesmo


Marcelo Moutinho

Corriam os anos 70. A tarde se desenrolava sem sobressaltos na redação da revista Pop quando alguém entregou a Paula Dipp, repórter ainda iniciante, um recado sob forma de bilhete. “Todos já receberam o convite para seu aniversário; por acaso você teria se esquecido de mim ou ainda posso ter esperanças de ser convidado?”, dizia o texto. Assinava Caio Fernando Abreu.

Paula organizara uma "festa de arromba". "Enviei convites, avisei pessoas, e o Caio, justo ele, foi ficando para trás. (...) Não foi esquecimento e sim uma espécie de cautela. Adiei o convite porque ele me intimidava”, conta ela, que acaba de cumprir, com a publicação de Pra sempre teu, Caio F, a promessa feita numa das tantas correspondências trocadas com o escritor após aquele episódio inaugural: reabrir seu baú de guardados e tirar da penumbra os afetos, as dores e idiossincrasias que moldaram quase 20 anos de amizade. Do início, farto em afinidades e promessas, ao último telefonema, a voz de Caio cambaleante falando da bem-sucedida cirurgia na vesícula.

Missivista contumaz, o escritor sempre insistiu em que a gente não devia permitir que as cartas se tornassem obsoletas, “mesmo que, talvez, já tenham se tornado”. Hoje possivelmente enviaria e-mails com a mesma intensidade. “As cartas eram uma forma de organizar a vida, a dele e a nossa”, comenta Paula no livro, cuja essência é justamente o teor dessas correspondências, às quais ela adicionou depoimentos, muitos depoimentos, de gente que conviveu com o autor. De Antonio Bivar a Adriana Calcanhotto. De José Márcio Penido a Marcos Breda. De Maria Adelaide Amaral a Okky de Souza.

Entre afagos e críticas algumas vezes duras, o livro contempla o escritor soturno que varava madrugadas em busca de inspiração, o jornalista que não atrasava a entrega dos textos, o ser marcadamente gregário, a personalidade instável, vertentes que nem sempre pareciam se integrar. Além disso, o sujeito encrenqueiro, o comentarista mordaz, o homem carente capaz de cenas públicas de ciúme, como a que se deu na redação da Pop.

Para reconstituir essa história, Paula se fez também personagem. E não se limitou a tratar do que é matéria íntima. Em mais de 500 páginas, pavimentou a trajetória do autor com as imagens, as modas, os humores, enfim, com os ícones que constituíram o zeitgeist da geração pós-ditadura. Até porque Caio surfou todas as ondas. Vibrou nas cordas lisérgicas do movimento hippie, gritou contra a burguesia ao lado dos punks, botou broche do PT no peito. Transou quiromancia, tarô, foi a cartomantes. Leu o I Ching, frequentou o Santo Daime, terreiros de Candomblé. E, no esteio desses muitos percursos, personificou, talvez como nenhum outro ficcionista, a mixórdia de inocência e esperança que animava os corações àquela época.

Paula traz revelações interessantes sobre a criação de obras como “Morangos mofados” e “Onde andará Dulce Veiga?”. Exemplo: a obsessão de Caio por desenhar os mapas astrais dos personagens, fixando data, hora e local de nascimento, para depois montar um perfil psicológico adequado e então começar a escrever. Essa paixão pela astrologia seria levada ao paroxismo em “Triângulo das águas”, cujas três novelas se inspiram nos arquétipos de Peixes, Câncer e Escorpião.

O livro cataloga também expressões que ele criou, com algum humor e muito sarcasmo, e que saíram de seu vocabulário pessoal para o repertório de pessoas próximas, como a própria Paula. “Lasanha”, para designar homem bonito; “adendo”, para os “chatos que colam na gente”; “nigrinha”, para gente simples que se quer descolada, mas batalha pesado pela sobrevivência. “Nigrinha não falta a vernissage por causa das empadinhas e não paga impulso de jeito maneira. Só liga da repartição”, fazia graça.

Pra sempre teu, Caio F. ajuda a confirmar que o sonho/temor que o autor mantinha quanto à glória póstuma se efetivou. Mais de 50 teses a seu respeito já foram defendidas ou estão em andamento, no Brasil e no exterior. Suas obras foram relançadas, as peças de teatro estão agrupadas num volume caprichado e as cartas, compiladas em livro. Ele é simplesmente “o Caio”, tal a afinidade com seus escritos, para muitos jovens fãs que mal andavam em 1996. E acaba de ganhar uma biografia: “Caio Fernando Abreu: inventário de um escritor irremediável”, da jornalista Jeanne Callegari.

Em narrativa linear, Jeanne descortina a errante caminhada do autor, desde o menino-cinéfilo da pequena cidade gaúcha de Santiago do Boqueirão; passando pelas temporadas na Europa, onde chegou a morar em casas invadidas; pelos ciclos místicos no sítio de Hilda Hilst; até desembocar no drama da Aids. Há agora uma moda de se falar em “auto-ficção”. O conceito se aplica à perfeição: narrador e personagem, Caio o tempo todo escreveu a si mesmo.

Os livros de Paula e Jeanne têm algo em comum. Ambos espelham a eterna procura que se refletiu em seus contos, suas crônicas, suas cartas, seus romances, numa imbricação em que vida e obra se alimentaram sempre, mutuamente, e que ele sintetizou num texto-desabafo publicado na revista Around: “O bicho homem não faz outra coisa a não ser pensar no amor. Até as relações de produção, a luta de classes, a ecologia, o jogo pelo poder: tudo, questão de amor, (...) o nome que inventamos para dar nome ao Sol abstrato em torno do qual giram nossos pequeninos egos ofuscados, entontecidos, ritmados”.

A impressão é que, mesmo ante a sensação de fracasso por nunca experimentar um acontecimento externo “que justificasse toda a largueza de dentro”, como lamenta o personagem do conto “A chave a porta”; mesmo sob o sol negro que luziu melancolia sobre a maior parte de seus dias, Caio no fundo sempre soube tirar, das coisas, a beleza possível. Em 1978, talvez sem uma consciência precisa, ele mesmo sugeria isso ao afirmar: “Moro sozinho, minha casa é muito bonita, eu sempre digo que posso ter uma solidão medonha, mas sempre vai haver um vasinho de flores num canto. A gente pode enfeitar a amargura”.

Ainda assim, foi surpreendente o modo como enfrentou o diagnóstico da contaminação pelo HIV, fatal naquela década de 90. Ele pedia apenas para ver o ano de 2000 chegar (não deu), e trocou o natural pavor diante da morte inevitável pela serenidade de quem cultiva rosas no jardim de casa, sorvendo o mel que cada fino grão de segundo pode oferecer. “Aquilo que eu supunha fosse o caminho do inferno está juncado de anjos. Aquilo que suja treva parecia guarda seu fio de luz”, declarou, como se renovasse a certeza de que, quando mofam os morangos, há como se colherem outros, “vivos, vermelhos”. Há sempre como se plantar.

* Esta é a versão sem cortes da resenha publicada hoje no caderno Prosa & Verso (O Globo)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Colheita


fazer um poema para uma paixão

é como colher grãos
no deserto

mas os sábios costumam apelar:
sempre existe um oásis

mesmo quando a seca seca tudo

inclusive a dor de não saber colher beijos
- como um chato pacifista colhe a paz no inferno.

(Linaldo Guedes)

domingo, 18 de outubro de 2009

BUQUÊ DE PRESSÁGIOS


De tudo, talvez, permaneça

o que significa. O que

não interessa. De tudo,

quem sabe, fique aquilo

que passa. Um gerânio

de aflição. Um gosto

de obturação na boca.

Você de cabelo molhado

saindo do banho.

Uma piada. Um provérbio.

Um buquê de presságios.

Sons de gotas na torneira da pia.

Tranqueiras líricas

na velha caixa de sapato.

De tudo, talvez, restem

bêbadas anotações

no guardanapo.

E aquela música linda

que nunca toca no rádio.
Marcelo Montenegro

sábado, 17 de outubro de 2009

Caio Fernando Abreu


".. Mas só muito mais tarde, como um estranho flash-back premonitório, no meio duma noite de possessões incompreensíveis, procurando sem achar uma peça de Charlie Parker pela casa repleta de feitiços ineficientes, recomporia passo a passo aquela véspera de São João em que tinha sido permitido tê-lo inteiramente entre um blues amargo e um poema de vanguarda. Ou um doce blues iluminado e um soneto antigo. De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito. E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida – reconheceu, compenetrado. Como uma ideologia, como uma geografia: palmilhar cada vez mais fundo todos os milímetros de outro corpo, e no território conquistado hastear uma bandeira. Como quando, olhando para baixo, a deusa se compadece e verte uma fugidia gota do néctar de sua ânfora sobre nossas cabeças. Mesmo que depois venha o tempo do sal, não do mel. ..."

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Sylvia Plath


“Entrei na banheira quente, esfregando a sujeira grudada na pele e fiquei de molho sentindo o calor revigorante, eliminando as tensões e dores do meu sistema. Vivo pela metade? Ando tão cansada, após a noite passada e o monte de louça, após a panela de pressão dos detalhes dos preparativos de última hora — sempre a idéia de que poderia fazer tudo melhor, e eu poderia mesmo: deixando todos curiosos, sonho com isso, devaneio, das brumas surgem faces familiares sorridentes que me cumprimentam e trocam olhares entre si, compartilhando segredos. Uma aspirina atenuou a dor nos olhos, a dor de cabeça de fadiga. Melhore na próxima semana — amanhã, repasse dois capítulos, duas horas de discussão sobre Joyce. Estalando, ele tira o pulôver. Pele branca, cabelo preto. Esta manhã sonhei com o novo rosto, o único, parece-me, que tem lindos olhos úmidos escuros, pele levemente pálida, dourada com sombras verdes — de mãos dadas e passando pelos alunos radiantes com uma inefável doçura e euforia, e depois acordar não solitária na cama mas com o toque de meu homem, e os rostos nos nossos amantes sonhados mudam e tremulam na imagem da manhã como a face refletida num lago inquieto juntando e juntando seus fragmentos para formar uma fisionomia ligeiramente trêmula até a placidez final inevitável.”

sábado, 10 de outubro de 2009

Escrito por Cristiane Lisboa


aqui na segunda divisão, o mundo é duro, rapaz. sorte tua que mudaste de camiseta nos últimos minutos do segundo tempo. sinto a testa suar mesmo com temperaturas abaixo do normal para a primavera. me recolho em silêncio e ignoro as placas onde se lê "eu já sabia". me espanto com a facilidade de julgamentos, com o volátil do que eu acreditava ser tão real e com a quantidade de cacos depois da queda das nuvens. se desse certo, era culpa nossa. como deu errado, é problema meu. papai diz ao telefone "agora levanta e anda. antes que alguém te chute." alô, telefonista?

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

"dotes"


Bruna Beber

"coleciono mas não li
cartas antigas, anúncios de
almanaque
em latas de goiabada nolasco

sei que estou em permanente
mudança
porque todos os dias abro e fecho
gavetas e caixas

no entando aprendi pouco sobre
apostas
e temporais, so sei que levam
muito mais do que trazem"

* Este poema faz parte de 'Balés' (Língua Geral), o novo livro da Bruna

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Amor nos três pavimentos




Eu não sei tocar, mas se você pedir
Eu toco violino fagote trombone saxofone.
Eu não sei cantar, mas se você pedir
Dou um beijo na lua, bebo mel himeto
Pra cantar melhor.
Se você pedir eu mato o papa, eu tomo cicuta
Eu faço tudo que você quiser.

Você querendo, você me pede, um brinco, um namorado
Que eu te arranjo logo.
Você quer fazer verso? É tão simples!… você assina
Ninguém vai saber.
Se você me pedir, eu trabalho dobrado
Só pra te agradar.

Se você quisesse!… até na morte eu ia
Descobrir poesia.
Te recitava as Pombas, tirava modinhas
Pra te adormecer.
Até um gurizinho, se você deixar
Eu dou pra você…
Vinícius de Moraes

sábado, 3 de outubro de 2009

A casa


Da porta principal à derradeira,
um corredor. Só o piso de madeira.

As portas laterais, trancadas.
Todas elas.

Pelas janelas,
fogem os fantasmas gerados na cumeeira.

Que mais?
Que mais?

Ah, sim: uma goteira, sangrando... sangrando...
sujando a casa inteira.
Lenilde Freitas

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Corra e Olhe o Céu


Vida te sinto mais bela
Te fico na espera
Me sinto tão só, ai!
O tempo que passa
Em dor maior, bem maior
Linda no que se apresenta
O triste se ausenta
Fez-se a alegria
Corra e olha o céu
Que o sol vem trazer bom dia
Ah, corra e olha o céu
Que o sol vem trazer bom dia


Corra e Olhe o Céu (Cartola e Dalmo Castelo)


Angenor de Oliveira

domingo, 27 de setembro de 2009

O SOM DESTA PAIXÃO ESGOTA A SEIVA


O som desta paixão esgota a seiva
Que ferve ao pé do torso; abole o gesto
De amor que suscitava torre e gruta,
Espada e chaga à luz do olhar blasfemo;
O som desta paixão expulsa a cor
Dos lábios da alegria e corta o passo
Ao gamo da aventura que fugia;
O som desta paixão desmente o verbo
Mais santo e mais preciso e enxuga a lágrima
Ao rosto suicida, anula o riso;
O som desta paixão detém o sol,
O som desta paixão apaga a lua.
O som desta paixão acende o fogo
Eterno que roubei, que te ilumina
A face zombeteira e me arruína.
Mário Faustino

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

AP



se escondendo da rotina num quarto escuro
ou batendo a cinza do cigarro na janela
enquanto espia as roupas dançando em silêncio
no varal da área
às três da madrugada
você pode flagrar alguém preocupado
segurando uma caneca com vinho vagabundo
dormindo fora de hora
pensando demais na vida
e no tédio que é
essa falta de paixão.
BRUNA BEBER

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Inocentes do Leblon


Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe imigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.
Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Data de vencimento


Há alguns dias eu compartilhava uma mesa de bar com dois amigos. Um deles estava bem, como pareceu estar sempre bem ao longo de todos estes anos que a gente se conhece. O outro estava um caco. Tinha acabado um namoro de quase um ano, chorava na nossa frente e dizia ter certeza de que aquela mulher de quem ele começava agora a se afastar era a mulher da vida dele. Eu nunca sei bem o que dizer diante de alguém que chora. É como se as lágrimas brotassem de algum lugar aonde as palavras não chegam. Eu prestava muita atenção ao que o amigo dizia, tentava compreender sua dor e, por algum motivo qualquer, achava que ele tinha razão. Naquele momento – e ainda que aquele momento não viesse a durar para sempre – a mulher por quem ele chorava era mesmo a mulher da vida dele.

O outro amigo, cuja praticidade eu sempre invejei, ouvia tudo calado como eu, movimentando apenas o braço direito, que levava o copo de chope até a boca. Então, quando o desabafo do nosso amigo triste parecia ter chegado ao fim, ele pediu a palavra para dar seu surpreendente diagnóstico – que depois eu cheguei a me perguntar se seria sempre este o diagnóstico masculino.

- Chore mesmo – disse o amigo prático. - Chore e esperneie tudo o que você tem de espernear. Sofra, pragueje, vá ao fundo da sua dor. Mas calcule um tempo exato para este sofrimento: um mês, a contar de hoje. Daqui a um mês você deve se levantar, olhar para o espelho e dizer: agora acabou. Vou partir para outra porque esta dor ficou antiga. Chega de sofrer por isso.

Eu, que já estava quieto, resolvi me calar ainda mais, na tentativa de acreditar que fosse possível estipular um prazo para o fim da dor. Depois pensei muito no que tem sido a vida deste amigo prático durante todos esses anos que o conheço. E tive de admitir que ele sempre seguiu à risca seu próprio conselho. Não importava o tamanho do amor ou do luto, do prazer ou da dor: uma manhã qualquer ele levantava e decretava o fim daquilo que sentia.

Nunca acreditei que nossa supremacia sobre os sentimentos pudesse chegar a este nível. Reagir à dor é possível – mas que possível, talvez seja saudável. Quanto a dizer em que momento ela deve terminar, isso eu já não sei. Se pudéssemos controlar a dor com tanta aritmética, talvez pudéssemos fazer o mesmo em relação ao amor, à saudade e a tudo aquilo que faz de nós ser o que somos. Depois pensei se haveria teatro, literatura, cinema e música se a dor tivesse prazo de validade. Pensei em todas as peças, filmes e livros que só nasceram porque a dor e o amor fugiram totalmente do controle de algum autor. Talvez nós estejamos aqui porque um dia o amor e o desejo fugiram ao controle dos nossos pais.

E se eu soubesse que o que eu sinto agora poderia ser controlado daqui a um mês, acho que eu não seria nada e nem ninguém. Talvez um boleto bancário, talvez um calendário preso na parede, no máximo um aviso colado na porta da geladeira. Eu acho que a gente é bem mais do que isso porque a nossa dor e o nosso amor vão sobreviver mais do que um mês. Vão sobreviver a nós mesmos.
(http://roveriblog.blogspot.com/)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

To a locomotive in Winter (1876)




"O seu corpo cilíndrico, latões dourados e aços cor da prata / As suas maciças barras laterais, bielas paralelas, girando ritmicamente nos seus flancos / O seu palpitar, o seu rugido regular, ora vigoroso, ora enfraquecido na distância, / A sua luz dianteira, saliente, fixada na fronte, / Os seus penachos de vapor longos e pálidos, flutuantes, tingidos de delicada púrpura / As nuvens densas e negras expelidas pela chaminé / a sua ossatura soldada, as suas molas e válvulas, o trêmulo relampejar das suas rodas / a fila de carruagens, atrás obedientes, felizes por segui-la / Através da tempestade ou do bom tempo, ora rápida, ora lenta, mas sempre a avançar".
Walt Whitman (1819-1892).

domingo, 13 de setembro de 2009

DUAS BAGATELAS


DUAS BAGATELAS





Então viver é ísso,

é essa obrigação de ser feliz

a todo custo, mesmo que doa,

de amar alguma coisa, qualquer coisa,

uma causa, um corpo, o papel

em que se escreve,

a mão, a caneta até,

amar até a negação de amar,

mesmo que doa,

então viver é só

esse compromisso com a coisa,

esse contrato, esse cálculo

exato e preciso, esse vicio,

só isso.

De Liturgia da matéria (1982)

PAULO HENRIQUES BRITTO

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Emily Dickinson (1830-86)


É maior que o céu o pensamento.
Coloque-os lado a lado. Como vê,
Este pode conter com folga o outro
E ainda você.

O pensamento é mais fundo que o mar.
Ponha o azul contra o azul – note a igualdade –
Um sorverá o outro como a esponja
Sorve a água de um balde.

Tem o peso de Deus o pensamento.
Sopese-os com cuidada precisão.
Como sílaba e som, em harmonia,
Os dois se ajustarão.

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Para fazer uma campina
Basta um só trevo e uma abelha.
Trevo, abelha e fantasia.
Ou apenas fantasia
Faltando a abelha.

Tradução Idelma Ribeiro de Faria

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

MELODRAMA BLUES




Algumas pessoas acabam se encontrando. E é como se conhecessem desde sempre. Algumas pessoas desistiram de botar suas fichas na máquina e choram assistindo People and Arts de madrugada. E cultivam milhões de novidades pra dizer umas às outras. Algumas pessoas "jogaram fora o guardanapo pra comer com a mão". Fazer o quê. Algumas pessoas decidiram se sofisticar. E produzem coisas importantes. E detestam o trabalho solo do Frejat. Algumas pessoas espremem o cérebro e se divertem. E bolam apelidos engraçados pras pessoas. E nutrem idéias mirabolantes. E seus sonhos grisalhos. E seus blogs sangrando. Algumas pessoas são capazes de elogios desconcertantes. E nunca esquecem o final da piada. E citam cenas inteiras de seus filmes ruins preferidos. E racham garrafas de conhaque só pra assistir ao show dos Bêbados Habilidosos. Que resolveram tocar suas ilíadas vagabundas quase clandestinamente. Assim. Apenas pra algumas pessoas. Que riem de si mesmas como se rezassem. Que insistem em recolher as peças só pra espalhá-las de novo. Algumas pessoas que construíram isso como operárias do próprio privilégio. Que custa caro. As coisas que importam. E as que não se explicam. Algumas pessoas se debatem pra não descuidar da defesa mas desde há muito descobriram que só sabem jogar no ataque. E permanecem saudavelmente inquietas mesmo se o time estiver ganhando. Algumas pessoas se emocionam. E deixam o melhor do seu abandono em cada abraço que fica. Algumas pessoas realmente direcionaram suas vidas. E subiram nos ombros dos seus ídolos e dos seus medos pra poder enxergar depois do muro. Só pra ver aonde a bola caiu. E continuar brincando. Desfrutar desse indescritível prazer que é chutá-la mais longe .(Marcelo Montenegro)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

uma canção de Nei Lisboa


Por Aí
Nei Lisboa
Lembra do quanto amanhecemos
Com a luz acesa
Nos papos mais estranhos
Sonhando de verdade
Salvar a humanidade
Ao redor da mesa

Sábias teses e ilusões sem fim
Ying, Jung, I Ching e outras cabalas
Procurando deus entre as folhagens do jardim

Que tolos fomos nós, que bom que foi assim
Que achamos um lugar pra ter razão
Distantes de quem pensa que o melhor da vida
É uma estrada estreita e feita de cobiça
Que nunca vai passar por aqui

Lembra de longas primaveras
De andar pela cidade
Saudando novas eras
Sonhando com certeza
Salvar a natureza
Ao final da tarde

Cegas crenças, lixo oriental
Ying, Jung, I Ching e outras balelas
Procurando deus entre as macegas do quintal

Seremos sempre assim, sempre que precisar
Seremos sempre quem teve coragem
De errar pelo caminho e de encontrar saída
No céu do labirinto que é pensar a vida
E que sempre vai passar por aí

Auras, carmas, drogas siderais
Ying, Jung, I Ching e outras viagens
Procurando deus entre delírios dos mortais

Seremos sempre assim, sempre que precisar
Seremos sempre quem teve coragem
De errar pelo caminho e de encontrar saída
No céu do labirinto que é pensar a vida
E que sempre vai passar
Sempre vai passar por aí

sábado, 5 de setembro de 2009

Fernando Pessoa





LIBERDADE
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.



O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.



Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!



Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.



O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

(Poema sugerido pela minha amiga Maria Luiza,leitora de Fernando Pessoa e deste blog que nada mais é que uma brincadeira onde coloco os poemas,textos e fotos que me enternecem)

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Muralha




Porque me abasteci, estou de volta.
Trago comigo coisas abandonadas.
Coisas que os homens jogaram fora:
placentas, gânglios, guirlandas, guelras.

Retorno alimentada. Perigosa.
Mais mar. Mais aberta.

Hoje descobri que quando estou dormindo
Deus segura minha mão e a leva para seu rosto.
Para Ele
sou mulher e menina.
Para o mundo
sou silêncio e desordem.
Lassidão e rumor.

Uma muralha que sempre desejou ser flor.
(Marize Castro)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

DIVA CUNHA


São os trapos do coração
a escorrerem caminhos afora
trapos e tripas
vomitados em golpes escuros
sobre os tetos frios
destas noites
trapos e tripas
tripas e trapos
fitas e fitas
farrapos

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

FALAVRA


FALAVRA


de Guimarães
tatuei Rosa
mas não me entenderam
o traço

não importa

nos espinhos
descobri que sangro
em latim

Muryel de Zoppa

domingo, 23 de agosto de 2009

HISTÓRIA DE DETETIVE


HISTÓRIA DE DETETIVE



Para quem está sempre numa paisagem estranha,
A rua irregular do vilarejo, a casa escondida entre as árvores,
Tudo perto da igreja, ou a escura casa geminada,
Ou a outra com colunas coríntias, ou cada
Apartamento proletário: em todo caso
Um lar, o centro onde as três ou quatro coisas
Que costumam acontecer a alguém, acontecem? Sim,
Quem não pode desenhar o mapa de sua vida, a sombra
Na pequena estação onde ele cruza suas amantes
E diz adeus continuamente, e repara no local
Onde o cadáver de sua felicidade foi descoberto?
Uma mendiga desconhecida? Um homem rico? Sempre um enigma
E com um passado enterrado mas quando a verdade,
A verdade sobre nossa felicidade é revelado
Quanto ficou devendo à chantagem e ao adultério.
O resto é tradicional. Tudo segue um plano:

A intriga entre o senso comum local
E aquela exasperante e genial intuição
Que está sempre no local, por acaso, antes de nós;
Tudo segue um plano, a mentira e a confissão,
Até a perseguição emocionante no fim, o tiro.
Mas até a última página uma dúvida paira :
E o veredito, foi justo? O nervosismo do juiz,
Aquela pista, o protesto das tribunas,
E até nosso sorriso … pois é . . .
O tempo todo matamos o tempo. Alguém tem que pagar
Pela perda de nossa felicidade: ela mesma.







Detective Story: W. H. Auden (1936)
HISTÓRIA DE DETETIVE - Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

Em The English Auden: Poems, Essays and Dramatic Writings 1927-1939. Ed. Edward Mendelson. 1977. London: Faber, 1986.