segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Nelson Cavaquinho-A flor e o espinho
A flor e o espinho
(Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha)
Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh'alma à sua
O sol não pode viver perto da lua
É no espelho que eu vejo a minha mágoa
É minha dor e os meus olhos rasos d'água
Eu na tua vida já fui uma flor
Hoje sou espinho em seu amor
Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh'alma à sua
O sol não pode viver perto da lua
(Uma das músicas mais bonitas da MPB)
sábado, 31 de dezembro de 2011
Cordialidade

Luiza Franco Moreira
Não pense por favor que a casa é sua.
Aqui a mesa posta
-venha sempre-
pode ser até agrado,
nada além.Não se engane.
A toalha de renda é de família
mas só abro os armários por vaidade
Ou vício.Talvez ócio nem sei mais.
Rosas brancas no vaso
para nos enfeitarem
escolhi
as mais escandalosas
Não faça cerimônia,apareça.
Se você exagerar,o azar é seu.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Marise Castro
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Um slide

Um slide
[Sérgio Alcides, O ar das cidades, São Paulo, Nankin, 2000, págs. 30-31]
Mal consigo ler
a cidade no meio das letras
a gente fora dos outdoors.
Há muitos destroços
de palavras e luzes, rebites e bits
cobrindo o coração.
Suponho que tem um coração (e erro).
Não distingo seu ruído pelas ruas
que clamam Pour Élise.
Ponho este poema – um
slide – deitado na linha do horizonte.
Não desisto de desatar o enleio dos edifícios
na paisagem-pregão.
Se houver um desabamento
o poema ficará no ar
escorado
nos gritos.
Mas os letreiros, não.
domingo, 18 de dezembro de 2011
NÃO É SÓ MAIS UMA NOITE NO INFERNO

NÃO É SÓ MAIS UMA NOITE NO INFERNO
Você prometeu que estaria aqui quando eu voltasse
me esperando com uma garrafa de Jack e sorvete de caramelo
Você estaria ouvindo Headcat e ia ser uma noite longa num motel de beira de estrada
A gente ia rir como nos bons tempos
com minhas piadas sem graça e meu senso de humor sem nenhum senso de oportunidade
e ficar morgando na banheira de hidro ouvindo uma trilha sonora do inferno
Você me prometeu uma vida
sem abutres voando sobre minha cama na beira do abismo
Você prometeu que haveria um Deus que cuidaria de mim
e eu fui estúpido e inocente o suficiente
pra acreditar em você
Agora quando eu olho pra essa parede vazia
apenas com o retrato da Sasha Grey na parede
é que eu entendo que o tempo todo você tava mentindo pra mim
Eu só precisava perder o medo de te perder
pra não ter mais medo de nada
Mário Bortolotto
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
O que acontece no meio

No meio, a gente descobre que precisa guardar a senha não apenas do banco, mas a que nos revela a nós mesmos
Vida é o que existe entre o nascimento e a morte. O que acontece no meio é o que importa.
No meio, a gente descobre que sexo sem amor também vale a pena, mas é ginástica, não tem transcendência nenhuma. Que tudo o que faz você voltar pra casa de mãos abanando (sem uma emoção, um conhecimento, uma surpresa, uma paz, uma ideia) foi perda de tempo.
Que a primeira metade da vida é muito boa, mas da metade pro fim pode ser ainda melhor, se a gente aprendeu alguma coisa com os tropeços lá do início. Que o pensamento é uma aventura sem igual. Que é preciso abrir a nossa caixa preta de vez em quando, apesar do medo do que vamos encontrar lá dentro. Que maduro é aquele que mata no peito as vertigens e os espantos.
No meio, a gente descobre que sofremos mais com as coisas que imaginamos que estejam acontecendo do que com as que acontecem de fato. Que amar é lapidação, e não destruição. Que certos riscos compensam – o difícil é saber previamente quais. Que subir na vida é algo para se fazer sem pressa.
Que é preciso dar uma colher de chá para o acaso. Que tudo que é muito rápido pode ser bem frustrante. Que Veneza, Mykonos, Bali e Patagônia são lugares excitantes, mas que incrível mesmo é se sentir feliz dentro da própria casa. Que a vontade é quase sempre mais forte que a razão. Quase? Ora, é sempre mais forte.
No meio, a gente descobre que reconhecer um problema é o primeiro passo para resolvê-lo. Que é muito narcisista ficar se consumindo consigo próprio. Que todas as escolhas geram dúvida, todas. Que depois de lutar pelo direito de ser diferente, chega a bendita hora de se permitir a indiferença.
Que adultos se divertem muito mais do que os adolescentes. Que uma perda, qualquer perda, é um aperitivo da morte – mas não é a morte, que essa só acontece no fim, e ainda estamos falando do meio.
No meio, a gente descobre que precisa guardar a senha não apenas do banco e da caixa postal, mas a senha que nos revela a nós mesmos. Que passar pela vida à toa é um desperdício imperdoável. Que as mesmas coisas que nos exibem também nos escondem (escrever, por exemplo).
Que tocar na dor do outro exige delicadeza. Que ser feliz pode ser uma decisão, não apenas uma contingência. Que não é preciso se estressar tanto em busca do orgasmo, há outras coisas que também levam ao clímax: um poema, um gol, um show, um beijo.
No meio, a gente descobre que fazer a coisa certa é sempre um ato revolucionário. Que é mais produtivo agir do que reagir. Que a vida não oferece opção: ou você segue, ou você segue. Que a pior maneira de avaliar a si mesmo é se comparando com os demais. Que a verdadeira paz é aquela que nasce da verdade. E que harmonizar o que pensamos, sentimos e fazemos é um desafio que leva uma vida toda, esse meio todo.
Martha Medeiros
domingo, 11 de dezembro de 2011
Carlos Drummond de Andrade

TAMBÉM JÁ FUI BRASILEIRO
Eu tambem já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bars
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas ha uma hora em que os bars se fecham
e todas as virtudes se negam.
Eu tambem já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrellas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céo tamanho
que minha poesia perturbou-se.
Eu tambem já tive um rithmo.
Fazia isto, fazia aquillo.
Meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu ironico deslisava
satisfeito de ter o meu rithmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não desliso mais não,
não sou ironico mais não,
não tenho rithmo mais não.
- Carlos Drummond de Andrade em “Alguma Poesia” da primeira edição, 1930.
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