sábado, 8 de dezembro de 2012
Leminski
Bem no fundo
No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Caio Fernando Abreu
"Respirou fundo. Morangos, mangas maduras, monóxido de carbono, pólen, jasmins nas varandas dos subúrbios. O vento jogou seus cabelos ruivos sobre a cara. Sacudiu a cabeça para afastá-los e saiu andando lenta em busca de uma rua sem carros, de uma rua com árvores, uma rua em silêncio onde pudesse caminhar devagar e sozinha até em casa. Sem pensar em nada, sem nenhuma amargura, nenhuma vaga saudade, rejeição, rancor ou melancolia. Nada por dentro e por fora além daquele quase-novembro, daquele sábado, daquele vento, daquele céu azul – daquela não-dor, afinal."
Caio Fernando Abreu em Estranhos Estrangeiros
domingo, 2 de dezembro de 2012
Nivaldete e Martha Medeiros
Hoje,data do aniversário de Nivaldete Ferreira,e nada mais apropriado e parecido com ela do que esse texto de Martha Medeiros.Parabéns,como diz os poetas da MBP: "Se todos fossem iguais a você/que maravilha viver..."
Zero Hora
02/12/2012
Sempre acreditei que, se eu quisesse transformar alguma coisa, teria antes que passar por uma racionalização profunda e, posteriormente, por uma compreensão dos fatos. Ou seja, primeiro, pensar bastante para, então, compreender.
Cumprindo essas duas etapas, atingiria a serenidade buscada, fosse nas questões amorosas, familiares, profissionais, existenciais. A compreensão, como num passe de mágica, soltaria os fios enovelados e só então eu poderia me modificar.
Acontece que pensar demais cansa. Afirmo com a experiência de uma maratonista cerebral: eu vivia sempre no módulo on, com o cérebro ligado na tomada, descansando só quando dormia, e ainda assim com um olho fechado e outro aberto. Se pensar conduzia à compreensão, bora pensar, para poder entender. Sem entender, acreditava que meu barco ficaria à deriva, noites e dias sob as intempéries, sem atracar em lugar algum.
Tanta coisa serve de cais: um casamento, uma promoção, uma cura, um projeto, uma bolada, um filho. Estamos sempre indo ao encontro de alguma coisa sensacional que ainda não sabemos o que é nem se iremos encontrar mesmo.
Pois, diante desse imenso ponto de interrogação que é o futuro de todos nós, reformulei minhas crenças: estou me dando o direito de não pensar tanto, de me cobrar menos ainda, e deixar para compreender depois. Desisti de atracar o barco e resolvi aproveitar a paisagem.
Primeiro mude, a compreensão virá depois. É mais ou menos o que a filosofia de Nietzche sugere. Ninguém muda apenas através do pensamento. A transformação meramente intelectual é uma presunção, não existe de fato. É preciso colocar o pensamento nas pernas e agir. O corpo é que nos leva para uma nova vida, e não a razão, diz o filósofo num texto chamado “A favor da crítica”.
Recentemente os integrantes do programa Saia Justa discutiram o que é drama e o que é tragédia, e chegaram à conclusão de que o drama te encarcera, enquanto a tragédia, por mais dolorosa que seja, te coloca em movimento: você sai dela diferente. Do drama você não sai: você fica remoendo, remoendo, remoendo. Excesso de racionalização engessa o sentimento e não te leva pra fora, pra frente.
De Nietzche a Saia Justa é um salto e tanto, reconheço, mas toda filosofia é bem-vinda, seja acadêmica ou de mesa de bar, de programa de tevê, de coluna de jornal. Estamos aqui para aquilo que os intelectuais rejeitam que se fale em público (mas falo baixinho: ser feliz). E a felicidade não é uma ilha paradisíaca onde nosso barco um dia atracará. A felicidade não é terra firme: ela é o próprio mar.
Passamos uma vida perseguindo a felicidade, sem reparar que ela está justamente na perseguição. O pensamento nas pernas. O movimento. A ação. Não há muito a compreender além disso.
Sempre acreditei que, se eu quisesse transformar alguma coisa, teria antes que passar por uma racionalização profunda e, posteriormente, por uma compreensão dos fatos. Ou seja, primeiro, pensar bastante para, então, compreender.
Cumprindo essas duas etapas, atingiria a serenidade buscada, fosse nas questões amorosas, familiares, profissionais, existenciais. A compreensão, como num passe de mágica, soltaria os fios enovelados e só então eu poderia me modificar.
Acontece que pensar demais cansa. Afirmo com a experiência de uma maratonista cerebral: eu vivia sempre no módulo on, com o cérebro ligado na tomada, descansando só quando dormia, e ainda assim com um olho fechado e outro aberto. Se pensar conduzia à compreensão, bora pensar, para poder entender. Sem entender, acreditava que meu barco ficaria à deriva, noites e dias sob as intempéries, sem atracar em lugar algum.
Tanta coisa serve de cais: um casamento, uma promoção, uma cura, um projeto, uma bolada, um filho. Estamos sempre indo ao encontro de alguma coisa sensacional que ainda não sabemos o que é nem se iremos encontrar mesmo.
Pois, diante desse imenso ponto de interrogação que é o futuro de todos nós, reformulei minhas crenças: estou me dando o direito de não pensar tanto, de me cobrar menos ainda, e deixar para compreender depois. Desisti de atracar o barco e resolvi aproveitar a paisagem.
Primeiro mude, a compreensão virá depois. É mais ou menos o que a filosofia de Nietzche sugere. Ninguém muda apenas através do pensamento. A transformação meramente intelectual é uma presunção, não existe de fato. É preciso colocar o pensamento nas pernas e agir. O corpo é que nos leva para uma nova vida, e não a razão, diz o filósofo num texto chamado “A favor da crítica”.
Recentemente os integrantes do programa Saia Justa discutiram o que é drama e o que é tragédia, e chegaram à conclusão de que o drama te encarcera, enquanto a tragédia, por mais dolorosa que seja, te coloca em movimento: você sai dela diferente. Do drama você não sai: você fica remoendo, remoendo, remoendo. Excesso de racionalização engessa o sentimento e não te leva pra fora, pra frente.
De Nietzche a Saia Justa é um salto e tanto, reconheço, mas toda filosofia é bem-vinda, seja acadêmica ou de mesa de bar, de programa de tevê, de coluna de jornal. Estamos aqui para aquilo que os intelectuais rejeitam que se fale em público (mas falo baixinho: ser feliz). E a felicidade não é uma ilha paradisíaca onde nosso barco um dia atracará. A felicidade não é terra firme: ela é o próprio mar.
Passamos uma vida perseguindo a felicidade, sem reparar que ela está justamente na perseguição. O pensamento nas pernas. O movimento. A ação. Não há muito a compreender além disso.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Paul Auster
Um trecho de Sunset Park...
A alegria de olhar seu rosto outra vez, a alegria de abraçá-la outra vez, a alegria de ouvir seu riso outra vez, a alegria de ouvir sua voz outra vez, a alegria de vê-la comer outra vez, a alegria de olhar para suas mãos outra vez, a alegria de olhar para seu corpo nu outra vez, a alegria de tocar seu corpo nu outra vez, a alegria de beijar seu corpo nu outra vez, a alegria de vê-la franzir as sobrancelhas outra vez, a alegria de vê-la escovar o cabelo outra vez, a alegria de vê-la pintar as unhas outra vez, a alegria de ficar debaixo do chuveiro com ela outra vez, a alegria de conversar com ela sobre livros outra vez, a alegria de ver seus olhos se encherem de lágrimas outra vez, a alegria de vê-la andar outra vez, a alegria de ouvi-la xingar Angela outra vez, a alegria de ler em voz alta para ela outra vez, a alegria de ouvir seu arroto outra vez, a aleg... ria de vê-la escovar os dentes outra vez, a alegria de tirar sua roupa outra vez, a alegria de colocar a boca sobre a sua boca outra vez, a alegria de olhar seu pescoço outra vez, a alegria de caminhar pela rua com ela outra vez, a alegria de pôr os braços em volta dos ombros dela outra vez, a alegria de lamber seus peitos outra vez, a alegria de penetrar em seu corpo outra vez, a alegria de acordar ao lado dela outra vez, a alegria de discutir sobre matemática com ela outra vez, a alegria de comprar roupas para ela outra vez, a alegria de massagear e ser massageado outra vez, a alegria de falar sobre o futuro outra vez, a alegria de viver no presente com ela outra vez, a alegria de ouvi-la dizer que o ama outra vez, a alegria de dizer para ela que a ama outra vez, a alegria de viver debaixo de seus olhos escuros e ardentes outra vez, e depois a agonia de vê-la embarcar no ônibus na rodoviária de Port Authority na tarde do dia 3 de janeiro, com a certeza de que só em abril, daqui a mais de três meses, ele terá a alegria de estar com ela outra vez.
De Paul Auster.
Por questão de honestidade,cito o link de onde tirei o texto acima,foi do blog de Tiozinho que sempre acesso gosto muito:
http://www.tiozinhodafoto.blogspot.com.br/?zx=883ddd639f38ff92
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Pra mim
O que pode nos deixar mais comovido e emocionado do que um depoimento de uma amiga sobre a gente,ainda mais quando se trata de uma pessoa da nossa estima e que sabe escrever com a delicadeza que só os grandes escritores tem.Eu tive o enorme prazer de ter sido pesenteada com um belíssimo texto de Nivaldete,e confesso fiquei emocionada,confiram:
T T
Ela manda por e-mail textos curtos de pessoas que, de algum modo, escrevem com sangue
("escreve com sangue e verás que sangue é espírito" -impossível não trazer Nietzsche aqui). Sabe escolher, tem faro para essas escritas 'vermelhas', aquelas em que seus autores se mostram sem pudor, mostram as feridas, riem delas, se confessam arruinados naquele momento, quebram coisas na linguagem, se descabelam, choram e prosseguem com um riso irônico.
Se somos o que comemos, como dizem, Tetê ( T T) Bezerra é o que lê e as músicas que ouve. Aqui não há sectarismo: tanto um violonista sofisticado quanto um brega dor-de-cotovelo-deslavada. Pra ouvir alto, enquanto o gole de cerveja desce pela garganta. Doce boêmia, embora cerveja amargue -e não seria cerveja se não amargasse, ela diria. Porque sabe achar ditos circunstanciais adequados.
Sabendo o nosso gosto, grava CDs de Drummond dizendo poemas e nos dá como presente de aniversário, uma letrinha azul indicando do que se trata. "Gravei pra você, é seu, guarde, depois você ouve".
Seus agrados são assim: de quem conhece aquele/a que recebe o que recebe.
("escreve com sangue e verás que sangue é espírito" -impossível não trazer Nietzsche aqui). Sabe escolher, tem faro para essas escritas 'vermelhas', aquelas em que seus autores se mostram sem pudor, mostram as feridas, riem delas, se confessam arruinados naquele momento, quebram coisas na linguagem, se descabelam, choram e prosseguem com um riso irônico.
Se somos o que comemos, como dizem, Tetê ( T T) Bezerra é o que lê e as músicas que ouve. Aqui não há sectarismo: tanto um violonista sofisticado quanto um brega dor-de-cotovelo-deslavada. Pra ouvir alto, enquanto o gole de cerveja desce pela garganta. Doce boêmia, embora cerveja amargue -e não seria cerveja se não amargasse, ela diria. Porque sabe achar ditos circunstanciais adequados.
Sabendo o nosso gosto, grava CDs de Drummond dizendo poemas e nos dá como presente de aniversário, uma letrinha azul indicando do que se trata. "Gravei pra você, é seu, guarde, depois você ouve".
Seus agrados são assim: de quem conhece aquele/a que recebe o que recebe.
Delicadezas de T T, que ama cachorros e gatos. A sua gata Aninha tem também sobrenome: Bezerra. O cachorro Nino, que não tinha pelos, mas cabeleira arruivada, já foi...
Um tempão sem vê-la e é aquela mesma montanha de gente -grande e forte nos dois sentidos: no corpo e na forma de estar presente, de adivinhar a pessoa de cada pessoa e falar de coisas próprias do mundo de cada uma. E o corte e a mecha branca no cabelo lembram Susan Sontag. Digo sempre. Ou vez por outra, pois é vez por outra que a gente se acha, quase sempre nas comemorações familiares. Ainda bem.
T T esquiva-se de misturar amizade com política, por ex. Ou faz parte de sua política, já que política vem de polis, cidade, e a cidade é também o lugar 3x4 onde se está com outros, e é preciso saber estar; ela sabe. Sabe que encontrar amigos é semelhante a um devaneio, e devaneios não devem ser afugentados com discussões dessa ordem.
Ela se mostra quase surpresa porque damos retorno aos seus envios de textos: um comentário ligeiro e ela se sente tocada. Ora, T T, essas pequenas éticas são o mínimo que você merece, mas respondemos também porque igualmente nos toca termos sido lembrados.
Faça de conta que eu ainda tomo cerveja, T T. Então vai uma 'ceriveja' aí (na minha pronúncia lá de Nova Palmeira, nossa terra)?...
Tim-tim por você! Até mais depois.
P.S. Escrevi pra você, não guarde, nem precisa ler. Você sabe já isso tudo.
http://lapisvirtual.blogspot.com.br/2012/11/t-t.html#comment-form
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Ticcia
Aprendi a amar sob o signo do efêmero, avisada de que a qualquer momento podia me flagar vivendo de mentira ou despencando de uma torre muito alta que a mim não pertencia. Alfabetizei o peito e os olhos para acolher o adeus a qualquer momento e por qualquer motivo, em muitas línguas, de muitas formas, mesmo sussurrado em ausência e silêncio. Eduquei os braços para o regresso do vazio e os pés para dar meia volta e seguir noutra direção, como se o amor fosse frágil, perecível, volátil, fugidio, como se eu nunca fosse capaz de fazê-lo vingar, ou não merecesse permanência, mais que uma miragem, um presságio, um trailer. Peço perdão se não sei mergulhar no que para mim sempre foi um poço raso demais. Para isso é preciso mais que certezas. Para isso é preciso fé.
(Escrito por Ticcia)
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
PAULO HENRIQUES BRITTO
Hoje acordei bem prático, sofístico,
sem pudores de lógica e moral,
fechado em mim, feito uma ostra, um dístico
ou uma pedra (mas não filosofal).
Devia haver mais dias como este,
livres de compromissos com dois mil
anos de ocidentalismo, a nordeste,
a sul, a sotavento do Brasil
ou do que quer que seja. Simplesmente
ser, sim, mas contingência pura, só,
nada que deixe um rastro ou excedente
em sangue, fezes, páginas ou pó.
Dias de amarrar barbante ao redor
do nada, e capturar um deus menor.
(de Cinco Sonetos Frívolos; in Formas do Nada)
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