PARA ISADORA LER QUANDO TIVER SEU CORAÇÃO PARTIDO A PRIMEIRA VEZ.
A vida
Não é fácil, querida
Mas é possível
E é incrível estar vivo
Mesmo que agora não pareça
As vezes a vida
Se ausenta
Faz parte
Fique forte
No pensamento
De que tudo se move
Sua vida está indo
E não há sofrimento
Definitivo
Colecione suas dores
Com carinho
Um dia
Até elas farão falta
E devemos
Atravessar o tempo
Com todos os nossos
Pertences
E a dor está entre eles
Mas a dor passa
E sem dor
Não se faz nada
Everton Behenck
domingo, 28 de julho de 2013
terça-feira, 23 de julho de 2013
Flávio Machado
torpor
esse desejo absolutamente inexplicável
de apagar da memória o nome dela
fingir que não a conheço
atravessar a rua
mudar de calçada
quem sabe alterar a rota dos planetas
fazer girar ao contrário a Terra
retirar do nada
alguma vontade renovada
e sair pela rua madrugada a dentro
expondo todo o remorso e ressentimento
pelo abandono que herdei.
Flávio Machado
esse desejo absolutamente inexplicável
de apagar da memória o nome dela
fingir que não a conheço
atravessar a rua
mudar de calçada
quem sabe alterar a rota dos planetas
fazer girar ao contrário a Terra
retirar do nada
alguma vontade renovada
e sair pela rua madrugada a dentro
expondo todo o remorso e ressentimento
pelo abandono que herdei.
Flávio Machado
terça-feira, 16 de julho de 2013
Ar de família
(Armando Freitas Filho)
Só sei ser íntimo ou não sei ser.
O que escrevo me ameaça de tão perto.
Amassa mãe, pai, filhos, mulheres
os de sangue símil, os de romance
os de tinta de impressão, de árvore
venosa de folhas variáveis no vento
das estações, no ferido almofariz
com o mesmo pilão de pedra
sem lavar, e entre uma socada e outra
o silêncio do punho fechado.
Só sei ser íntimo ou não sei ser.
O que escrevo me ameaça de tão perto.
Amassa mãe, pai, filhos, mulheres
os de sangue símil, os de romance
os de tinta de impressão, de árvore
venosa de folhas variáveis no vento
das estações, no ferido almofariz
com o mesmo pilão de pedra
sem lavar, e entre uma socada e outra
o silêncio do punho fechado.
sexta-feira, 5 de julho de 2013
leminski
nunca quis ser
freguês distinto
pedindo isso e aquilo
vinho tinto
obrigado
hasta la vista
queria entrar
com os dois pés
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho
- cala a boca
e pro relógio
- abaixo os ponteiros
p leminski
freguês distinto
pedindo isso e aquilo
vinho tinto
obrigado
hasta la vista
queria entrar
com os dois pés
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho
- cala a boca
e pro relógio
- abaixo os ponteiros
p leminski
terça-feira, 2 de julho de 2013
As outras
Fernanda que não me escute: mas quando saio andando por aí, me apaixono muitas vezes. Pode ser no caminho do trabalho, de casa, da padaria, do banco. Cho...va ou faça sol entre nuvens. Basta que as Melissinhas daquela mulher atravessem a rua em câmera lenta – o céu azula todinho, o queixo cai e ainda arrasta os olhos.
Basta que o gari dê uma sambadinha entre uma lixeira e outra. Que a vó não resista às bochechas indecentemente fofas da neta e leve o pão doce. Que o motorista do ônibus deixe o volante para ajudar o tiozinho a subir com as sacolas do mercado. Que os amigos dos tempos da brilhantina se encontrem na esquina para rir bem alto das atuais carequices.
Que o ambulante cumprimente até o sujeito que jamais compra nem alfinete pirata.
Que aquele sobrado esteja sempre no mesmo lugar, entre os dois fura-céus: a árvore esparramando sua copa sobre o quintal, o senhor de óculos grisalhos bebendo a caneca na janela do segundo andar, a mulher de vestido gordo varrendo as folhas com a mangueira, o molecote de shortinho verde correndo da água com as mãos sujas de terra e biscoito maizena.
Basta que um pingo da cena tinja a calçada, respingue nos meus pés, que o meu coração, em vez de acelerar, cameralenta – no mesmo passo daquelas Melissinhas.
Basta que, de repente, o mp3 replaye a canção que eu já tinha esquecido que um dia existiu. Que ela sirva de trilha para o beijo do casal diante dos jornais expostos na banca. Que os jornais da manhã anterior cubram o sem-teto que insiste em repetir o mesmo poema para quem vai apressado.
Que um verso se solte do asfalto.
Basta isso para que eu tropece de amores mais uma vez, e a vida – incansavelmente generosa – prove que não se contenta com a monogamia.
Basta que o gari dê uma sambadinha entre uma lixeira e outra. Que a vó não resista às bochechas indecentemente fofas da neta e leve o pão doce. Que o motorista do ônibus deixe o volante para ajudar o tiozinho a subir com as sacolas do mercado. Que os amigos dos tempos da brilhantina se encontrem na esquina para rir bem alto das atuais carequices.
Que o ambulante cumprimente até o sujeito que jamais compra nem alfinete pirata.
Que aquele sobrado esteja sempre no mesmo lugar, entre os dois fura-céus: a árvore esparramando sua copa sobre o quintal, o senhor de óculos grisalhos bebendo a caneca na janela do segundo andar, a mulher de vestido gordo varrendo as folhas com a mangueira, o molecote de shortinho verde correndo da água com as mãos sujas de terra e biscoito maizena.
Basta que um pingo da cena tinja a calçada, respingue nos meus pés, que o meu coração, em vez de acelerar, cameralenta – no mesmo passo daquelas Melissinhas.
Basta que, de repente, o mp3 replaye a canção que eu já tinha esquecido que um dia existiu. Que ela sirva de trilha para o beijo do casal diante dos jornais expostos na banca. Que os jornais da manhã anterior cubram o sem-teto que insiste em repetir o mesmo poema para quem vai apressado.
Que um verso se solte do asfalto.
Basta isso para que eu tropece de amores mais uma vez, e a vida – incansavelmente generosa – prove que não se contenta com a monogamia.
Postado por Fábio Flora no Pasmatório – http://pasmatorio.blogspot.com.br/
sexta-feira, 28 de junho de 2013
Nivaldete Ferreira
tenho fé
nas pessoas
de Pessoa.
devíamos ter também
nas nossas.
quem amanheceu
a mesma pessoa
de ontem?
basta um olhar
ou a falta disso
basta um tom diferente
na voz
ou um silêncio
basta qualquer coisa,
até nada.
nas pessoas
de Pessoa.
devíamos ter também
nas nossas.
quem amanheceu
a mesma pessoa
de ontem?
basta um olhar
ou a falta disso
basta um tom diferente
na voz
ou um silêncio
basta qualquer coisa,
até nada.
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Manoel de Barros
A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou – eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.
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