domingo, 2 de agosto de 2009

A cidade e os livros


O Rio parecia inesgotável àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo, saltar no fim da linha,
andar sem medo no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava que eu não lhe pertencia - e de repente,
anônimo entre anônimos, notar eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim -, entrar em becos, travessas, avenidas, galerias, cinemas, livrarias:
Leonardo da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Irís Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrãp Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam:
que em princípio haviam sido escritos para mim os livros todos.
Hoje é diferente, pois todas as cidades encolheram, são previsíveis,
dão claustrofobia e até dariam tédio, se não fossem os livros infinitos que contêm.(Antonio Cícero)

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