sábado, 23 de maio de 2009


É que eu preciso te dizer que. Me fazer entender. Você entende? Há dois meses me expresso por esboços, pequenos gestos incompletos, porque. É assim. Está assim. Nem sempre me repito, se é que você imagina que. Mas contigo... Frases interditadas que, sem graça, corto com beijos pelo teu corpo. Ou nem isso. Beijo seco, quase ríspido, de boca fechada, lábios rígidos contra lábios líquidos. Porque às vezes te detesto por me fazer querer dizer qualquer coisa que nem sei ao certo se sinto. Ou se vou continuar sentindo em dois minutos, dois anos. Às vezes te detesto por me fazer ter vontade de dizer que te amo pra sempre. E você nem cobra, não investiga. Digo, não ouço tua voz me perguntando nítida o que, como, quando e por quanto tempo. Mas leio a dúvida no passeio das tuas mãos pelo meu rosto, no estalar da tua boca contra meu peito, nos teus olhares para o teto, para a lua, para a gaivota. Então fazemos silêncio e fingimos que somos cúmplices nisso enquanto nossas espadas se chocam sobre a cama. Te detesto quando sei que me tirou de um ponto de equilíbrio. Quando procuro a imagem que você enquadra na rua. Quando tenho medo de te perder por pouco ou por muito. Quando sei que não sou capaz de ser tão bom quanto decerto você imaginou no instante em que te despertei o interesse. Quando não sei o que você imaginou. E imagina.

É que preciso te dizer que talvez eu nunca consiga. Te contar que a curva do teu ombro me emociona. Que o som da tua voz me tranquiliza. Que preciso que ouça os detalhes do meu dia. Que não preciso de ti, mas te desejo intermitente, como dado imprescindível e como luxo dispensável. Que às vezes te adoro por cinco ou seis horas contínuas. E às vezes te esqueço, como forma desconhecida.

É que não posso dizer e pagar por isso na próxima esquina. É que você pode entender o contrário. É que posso repensar o contrário. E voltar atrás. E você pode não estar mais no ponto de partida. É que tenho medo, muito medo de te amar. É que tenho medo, muito medo de não saber amar.






http://manoelasawitzki.blogspot.com/

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Coisa Mais Linda


Carlos Lyra e Vinicius de Moraes

Coisa mais bonita é você
Assim, justinho você
Eu juro, eu não sei por que
Você
Você é mais bonita que a flor
Quem dera
A primavera da flor
Tivesse todo esse aroma de beleza
Que é o amor
Perfumando a natureza
Numa forma de mulher

Por que tão linda assim não existe
A flor
Nem mesmo a cor não existe
E o amor
Nem mesmo o amor existe
E eu fico um pouco triste
Um pouco sem saber
Se é tão lindo o amor
Que eu tenho por você

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Antonio Cícero


Simbiose



Sou seu poeta só
Só em você descubro a poesia
Que era minha já
Mas eu não via.

Só eu sou seu poeta
Só eu revelo a poesia sua
e à noite indiscreta
você de lua.

domingo, 17 de maio de 2009

UMA FOTO,SEM PALAVRAS

Carlos Drummond de Andrade


As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.