terça-feira, 10 de março de 2015

António Lobo Antunes

Há momentos e situações em que o olhar comunica mais que as palavras, isso também é intimidade. Creio que sou capaz de dizer muitas cosas sem falar, é o outro que também tem de compreender e de saber interpretar. Quando se estabelece essa relação de intimidade e de amizade, não é necessário falar. (...) Frequentemente é melhor não o fazer porque as palavras estão muito gastas.

António Lobo Antunes

domingo, 8 de março de 2015

Fragmento da biografia de ilustre personagem

01/03/2010 11:31:00
Fragmento da biografia de ilustre personagem



Por Marina Bueno Cardoso
Década de 70. Estudante universitária de jornalismo trabalhava na Varig como balconista, era meu primeiro emprego. Endereço da loja: Ipiranga com São João, era personificação da loja Sampa. Hora do almoço, para compensar a neura do centrão, procurava vasculhar redondeza, fazendo trabalho de fotografia na boca do lixo, com as fachadas dos strip-teases das Ruas Aurora e Vitória, curtindo os discos nas Grandes Galerias, o movimento black dos office-boys da época, que faziam altos penteados nos cabelereiros de lá. Mas minha grande fascinação eram os sebos, especialmente o do Licurgo. Vasculhava e ficava babando com raridades e a vontade de comprar tudo.
        Dia daqueles fui como sempre com meu uniforme de aeromoça terrestre no sebo dos sábios em busca de alguma Revista de Antropofagia. Afinal, como seria formato, diagramação, conteúdo... Por favor, será que o senhor sabe quem tem alguma Revista de Antropofagia? Sei que é muito rara, mas gostaria de xerocar, ou só ver como é. O atendente respondeu: olha, aquele senhor lá perto da porta talvez possa te ajudar, eu acho que ele tem.
       
O homem lembrava meu avô, um pouco mais jovem, de terno cinza, gravata escura e óculos. Estava todo entretido folheando um livro quando me aproximei tímida: desculpe-me, o moço falou que talvez o senhor tenha algum exemplar da Revista de Antropofagia. O senhor fechou o livro e respondeu com outra pergunta: - Mas qual o seu interesse no assunto? Explicou-lhe que os modernistas chamavam sua atenção, e que de tanto ouvir falar no movimento e nos autores, tinha grande curiosidade em conhecer a famosa Revista. - Você trabalha na Varig estou vendo. O que você estuda? -Jornalismo. Olha moça eu tenho a Revista... Não deixei que ele terminasse, estava eufórica: mas então vamos fazer um negócio, o senhor tira xerox que eu pago e vou buscar na sua casa, combinado? Vamos fazer o inverso moça, me dê seu endereço e eu vou ver como podemos fazer melhor.
       
Sai frustrada. Não foi desta vez. Pô o cara bem que podia ser legal, o que custava eu ia pagar o xerox mesmo? É tem gente que não empresta livro nem para xerocar. Está certo a coisa é rara, mas só uma olhadinha não ia matar.
       
Passados três dias, volto do trabalho para o banho rápido e ir para a faculdade. Um pacotão com um cartão em seu nome a esperava. Minha mãe: - Deixaram isto para você, o que será? Presente eihn... Ela abriu: era não só a Revista de Antropofagia em edição fac-similar, como também o Manifesto Verde. Deu um grito, - foi ele... foi ele... lembrando-se do senhor do sebo. A mãe: - Abre logo o envelope, ele quem? - Não sei o nome mas era do jeito do vovô. Leu o cartão, “para Marina conforme o combinado um abraço, José Mindlin”. A mãe: - Você é metida mesmo, você sabia com quem estava falando? - Não..., mas... que vergonha... ah ele é muito legal. Imagine que eu pedi para pagar xerox... nem sabia que ele era ele e ele, o próprio me mandou tudo isto.
       
Simplicidade e generosidade foram os primeiros traços que conheci no parêntese da biografia de José Mindlin, antes de tudo um ilustre personagem na vida de uma balconista da Varig e estudante de jornalismo curiosa e distraída.

Marina Bueno Cardoso é cronista nesta urbe sinistra que São Paulo revela para quem quiser, Marina mantém o faro fino para observar personagens e fatos que fazem a cidade acontecer , revelando suas faces às vezes brutais e outras poéticas. Entre 1991 e 1992 colaborou com crônicas no Jornal da Tarde, de São Paulo. No momento, finaliza um livro de crônicas não datadas sobre a cidade e outro sobre relacionamentos conjugais, na sua maioria esdrúxulos, como acontecem pela vida. É jornalista e trabalha com Assessoria de Comunicação. Aguardem seu blog “Urbe Sinistra”, em construção. E-mail: marinacardoso@uol.com.br

http://cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=4435

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Bruna Beber

10. o pecúlio

estou sempre indo ao seu encontro
chego de costas pra você achar que estou indo embora
saio de frente pra você achar que estou chegando
estou sempre perdido indo ao seu encontro

é assim a minha vida e o meu calendário
eu estou sempre indo ao seu encontro
não preciso ir mais longe pra saber
que estou sempre indo ao seu encontro.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Respeite o esquisitão

Me libertei, já tem um tempo, de ser um jovem "play feliz". Aquele tipo animadão que aluga casa na Bahia, agita a galera pra ir junto e administra a felicidade como se fosse uma empresa em risco e ele, um diretor de marketing louco por promoção. Praia do Espelho, por exemplo, é um dos lugares mais lindos que conheço, mas estive lá em outubro, fora de temporada, quando os quartos custam o que devem custar, a passagem custa o que posso pagar e o sol não é disputado a chinelos com strass nem por melhoooores amiiiiigas esticando os bracinhos com tatuagem de estrelinha para selfies "foi-um-fã-sem-noção-que-tirou-essa-foto-em-um-momento-totalmente-displicente-meu" e música eletrônica.
Não sou deprimida, não sou preconceituosa (só com quem fala muito alto, fala muito, fuma na minha cara, acha que timidez é desculpa pra ser mal-educado e usa camiseta com número aveludado), mas sou esquisita. Tenho pavor de lugar muito lotado e esse não é um comentário reaça mala do tipo "ui, ui, ui, quero o avião só pra mim e não pro meu porteiro". É apenas uma questão de pressão baixa e hipoglicemia (meu passar mal, só pra manter o mistério, ora faz doce, ora salgado). Ou tenho a absoluta certeza de que cantinhos aconchegantes com acesso rápido a geladeiras ou serviços me espreitam 24 horas por dia ou não faço as malas.
Consegui descolar uma pousada, a pouco mais de duas horas de casa, que tem (apenas dez) chalés bem afastados e que fica em meio à mata atlântica. Acompanhada de macacos, esquilos e lagartões, estou bem longe da histeria claustrofóbica de quem acha que estar na praia é sinônimo de "ter dado certo na vida" ou ser um cara que sabe melhor do que ninguém celebrar a existência (ele e um milhão de pessoas se achando tão sábios e exclusivos).
Tenho horror (e já devo ter escrito sobre isso umas milhares de vezes) do aeroporto lotado de gente querendo descansar e ser feliz. Da estrada lotada de gente querendo descansar e ser feliz. Da praia lotada de gente tentando descansar e ser feliz. Ninguém descansa e é feliz onde milhares de pessoas tentam descansar e ser feliz. Ninguém descansa tentando ser feliz. Ninguém é feliz.
A intenção era travar intimidade, ainda que a contragosto, apenas com borrachudos, mas ontem fui surpreendida (aterrorizada) por uma festinha com música ao vivo no restaurante do hotel. Chamaram um rapaz especializado em MPB, mas era muito pouco Caetano pra muito (muito) Jota Quest. Chamaram um tiozinho pra tirar fotos dos pobres hóspedes em momento virada do ano (muito provavelmente as fotos de 27 esquisitões que só queriam jantar vão estar no site da pousada, estimulando outros 27 esquisitões a não virem o ano que vem... "Olha, tem festa, não venham!").
Surpresinhas escondidas faziam os hóspedes "se enturmar" e a dona da pousada estava feliz por promover essa bondosa inclusão (e eu passei a noite inteira querendo mandar um sincerão: "Dona, se a pessoa deixa de passar com a família e com os amigos e vem se isolar nesse meio do mato, não estaria ela querendo, apenas, chafurdar na solidão e ser estranhona em paz?).
O fato é: ninguém respeita a alegria do esquisito. Sim, existe foguinho interno em nosso silêncio observador (crítico) e em nossa tensão pré-suicida (angústia). Os "play feliz" acreditam que somos almas precisando de resgate. Que uma piada fraca ou uma mãozinha nos puxando pra pista de dança são como sopões quentes pra nossos corações mendigos e nossas pobres mentes perturbadas. Parem com tanta benevolência! Com esse ar de "sou tão superior e iluminado que sou amigão dos infelizes". Somos apenas cínicos e estamos rindo de vocês.

Tati Bernardi

Fim da pausa.

Em setembro fiz uma pausa no blog.Campanha política e tendo uma irma candidata não tinha como conciliar as postagens com a campanha.Finalmente deu tudo certo,elegemos a primeira senadora de  origem popular do RN.Foi uma luta grande,bonita,emocionante.Hoje retomo as postagens,estava sentido falta,aqui e meu cantinho poético,onde sem pretensões posto o que me sensibiliza e me toca o coração.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

ROBERTO BOLAÑO

“Se tivesse que assaltar o banco mais vigiado da Europa e pudesse eleger livremente meus companheiros de malfeitorias, sem dúvida escolheria um grupo de cinco poetas. Cinco poetas verdadeiros, apolíneos ou dionisíacos, tanto faz, mas verdadeiros, quer dizer, com um destino de poetas e com uma vida de poetas. Não há ninguém no mundo mais valente que eles. Não há ninguém no mundo que encare o desastre com maior dignidade e lucidez. São, em aparência, débeis, leitores de Guido Cavalcanti e de Arnaut Daniel, leitores do desertor Arquíloco que atravessou um campo de ossos, e trabalham no vazio da palavra, como astronautas perdidos em planetas sem saída possível, num deserto onde não há leitores nem editores, só construções verbais ou canções idiotas cantadas não por homens mas por fantasmas. No grêmio dos escritores são a joia maior e menos cobiçada. Quando um enlouquecido jovem de dezesseis ou dezessete anos decide ser poeta, é desastre familiar com certeza. Judeu homossexual, meio negro, meio bolchevique, a Sibéria do seu desterro só cobre de opróbio também sua família: os leitores de Baudelaire não se dão bem no ensino médio, nem com seus companheiros de classe nem muito menos com seus professores. Sua fragilidade, no entanto, é enganosa. Também seu humor e as manifestações caprichosas do seu amor. Por trás dessas sombras vagas se encontram talvez os tipos mais duros do mundo e seguramente os mais valentes. Não por nada descendem de Orfeu, que marcava a cadência de remo dos Argonautas e que desceu ao inferno e voltou a subir, menos vivo que antes da façanha, mas vivo ao fim e ao cabo. Se tivesse que assaltar o banco mais protegido da América, no meu bando só haveria poetas. O assalto terminaria, provavelmente, de forma desastrosa, mas seria bonito.”

ROBERTO BOLAÑO, 1999

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

PAULO HENRIQUES BRITTO

III
O hábito de estar aqui agora
aos poucos substitui a compulsão
de ser o tempo todo alguém ou algo.
Um belo dia – por algum motivo
é sempre dia claro nesses casos –
você abre a janela, ou abre um pote
de pêssegos em calda, ou mesmo um livro
que nunca há de ser lido até o fim
e então a ideia irrompe, clara e nítida:
É necessário? Não. Será possível?
De modo algum. Ao menos dá prazer?
Será prazer essa exigência cega
a latejar na mente o tempo todo?
Então por que?
E neste exato instante
você por fim entende, e refestela-se
a valer nessa poltrona, a mais confortável
da casa, e pensa sem rancor:
Perdi o dia, mas ganhei o mundo.
(Mesmo que seja por trinta segundos.)
PAULO HENRIQUES BRITTO
[de "Três epifanias triviais", in "MACAU"]